Escreva o final

Nunca vi isto: o primeiro-ministro é refugiado, o presidente é um refugiado, todos os deputados o são. Smara. – Oficialmente, estou em território da Argélia, mas aqui não se vê uma única bandeira deste país, nem se fala com ninguém que se diga argelino. A cidade mais próxima, Tinduf, é sim uma cidade argelina; mas para lá irem as pessoas à minha volta precisam de mostrar um documento especial de trânsito (apenas elas: nós não estamos obrigados a isso). Onde estou então? No deserto; longo e único como só nós o vemos.Quem aqui mora tem para ele vários nomes em árabe, ou então usam palavras herdadas das línguas berberes para designar e distinguir o deserto plano do deserto das colinas, o terreno compacto e ocre das dunas de areia. A tarefa é mais complicada ainda pelo facto de que, a quinhentos quilómetros daqui, há outro lugar chamado Smara. Se fosse possível lá ir, que não é, pelo menos não em linha reta. Eu explico.

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Como as nuvens.

É como uma nuvem, a História: gigantesca e cheia de delicadeza. Uma coisa grande que parece mudar lentamente; mas distraímo-nos e já está inteiramente diferente. Não faltam na história situações fortuitas, ou próximo disso, de consequências irreversíveis. Vistas de perto, não seriam incomparáveis com o acidente que, no passado sábado, decapitou a república polaca, começando pelo seu Presidente, chefias militares e alguns dos principais políticos. Um estudante tenta matar o herdeiro do trono austríaco enquanto ele visita Sarajevo, a 28 de junho de 1914. Não consegue à primeira, desencontra-se da caravana, reencontra-a quase por acaso, dispara o seu revólver. O arquiduque Francisco Fernando morre, a sua mulher também. Pouco depois, começa uma guerra mundial. Roma está a arder em Maio de 64 d.C., sabe-se lá porquê, terá sido um forno de pão aceso ou o próprio imperador ou um animal a provocar acidentalmente o fogo? Nero culpa os cristãos e persegue-os impiedosamente, contribuindo a prazo para aumentar a coesão, e a força, da então ainda pequena seita. Estes são os exemplos clássicos. Poderíamos acrescentar:

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O escandalómetro

As actas das contrapartidas desapareceram da comissão das contrapartidas, presidida por um senhor que é hoje deputado do CDS. O deputado diz que as actas ainda lá estão. “Fonte conhecedora do processo” diz que elas “nunca apareceram”. Se pedirem a Paulo Portas, com jeitinho, talvez ele tenha a fotocópia. A direita tem uma teoria nova: a “fadiga dos escândalos”. O que explica esta teoria? É simples. Internacionalmente, houve um escândalo com a Igreja. Nacionalmente, renasceu um escândalo com Paulo Portas. Logo, a direita acha que “as pessoas estão fartas de escândalos”. Como é que eles sabem isto? É simples: a direita tem um aparelho, misto de detetor de metais e contador geiger, que se chama o escandalómetro. Quando utilizado em temperatura ambiente, dá sempre uma consequência clara e evidente. O escândalo vem do lado de lá: é um ultraje, o fim do regime! O escândalo vem do lado de cá: já cansa, pá, passemos a outro assunto.

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César está a ganhar

Quanto a nós – não-católicos como católicos – pedimos exatamente o mesmo à igreja que pediríamos a qualquer outra instituição: que não branqueie os crimes e que entregue os criminosos. A recente polémica sobre a pedofilia na igreja representa um estágio – porventura final – de algo que começou há duzentos e cinquenta anos: o processo de fazer da igreja uma instituição igual às outras, dentro do Estado. Identificar esse processo, bem claro no mundo católico quando Roma passou a ser a capital de um Estado italiano e o Vaticano uma cidade-estado ainda que com atribuições “espirituais”, não implica concordar ou discordar dele. Mas implica reconhecer que ele está para lá das fronteiras da “comunidade dos crentes” e que nos implica a todos enquanto comunidade politicamente organizada. Enquanto pessoa irreligiosa, eu não tenho de ter opinião sobre quem pode ser bispo, tal como não tenho de ter opinião sobre quantos devem ser os sacramentos. Se tiver opinião, sei que será sempre uma opinião sobre um clube que não é o meu.

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“Todos têm uma história para contar”

O ponto de vista do refugiado: a segunda foto foi feita pela menina da primeira foto. [Campo de Refugiados de Al Hol, Síria, Março 2010] Um outro homem ligou ao irmão que vive na Suécia e ele disse-lhe: “Escuta, agora sou um ser humano, tenho um passaporte, posso trabalhar, não fico no campo o dia todo.” Bairro de Jarraman, Damasco, Síria. – À minha frente estão várias iraquianas. Cada uma delas diz o seu nome, a sua cidade, a sua história. Isma é casada e tem cinco filhos; o marido, três filhos e uma filha regressaram ao Iraque; a filha entrou na Universidade; ela não volta enquanto o quinto filho continuar a receber ameaças de morte. Maya é licenciada em Gestão, vivia bem no Iraque antes da guerra, mas é de religião sabeia; os sabeus (e mandeus) não são cristãos nem muçulmanos; dizem acreditar em São João Batista, e nos anjos; praticam rituais de pureza com água e dão extrema importância ao batismo. Foram ferozmente perseguidos por fanáticos depois da invasão do Iraque. Dahid era professora de Física. É muçulmana xiita, mas casada com um sunita: “Nos meus filhos corre sangue sunita e xiita.” Os fanáticos de um e do outro lado não gostaram dessa mistura e escorraçaram-nos da cidade. Hoje é voluntária do ACNUR entre outros refugiados como ela: “Tento pelos meus modestos meios encontrar soluções.”

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A pergunta fatal

Não, não quero ser simpático. Estamos num momento em que estes líderes têm de ouvir coisas antipáticas. Acordem! Vocês já são os piores líderes da União. Por que é a atual geração de líderes de uma mediocridade tão confrangedora? Eis uma pergunta que eu não queria fazer. Porque me parece lugar-comum, porque desprezo o decadentismo, porque profissionalmente voto a esta atitude uma desconfiança fria, de historiador. Mas não há como fugir. A razão é simples

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O país do futuro próximo

Luso-tropicalismo: fusão entre bandeiras num ônibus da companhia Braso-Lisboa, Rio de Janeiro. O lado positivo será apresentar ao Brasil uma nova geração de portugueses. Mas isto significará que Portugal não os conseguiu segurar. O que aliás já é verdade. Rio de Janeiro. – Guardem esta idéia: nos próximos dez anos regressará a emigração portuguesa para o Brasil. Só espero que não ultrapasse a imigração brasileira para Portugal – nós precisamos de mais gente, e gente nova, do que eles. Mas a nova emigração portuguesa para aqui vai ser diferente da anterior: vai ter características de fuga de cérebros.

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E depois do fim

Quanto mais tempo o PS demorar a apoiar Manuel Alegre, mais perde este comboio. A ala esquerda do Partido Socialista soube manter-se disciplinada durante o caso PT-TVI. Mas agora, com o PEC, as suas vozes mais importantes souberam correr riscos e optar pela indisciplina. Tiro-lhes o chapéu.

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A aberração

Há muito tempo que o PSD não tem um líder de cultura não-autoritária. E, pelos vistos, ainda não é desta vez que o vai ter. Até um anarquista pode ser autoritário (acontece com pessoas que eu conheço). Ser autoritário, no sentido que eu uso aqui, é um traço de temperamento. Não é, porém, a mesma coisa que participar de uma cultura autoritária. Uma coisa é psicologia individual e a outra é psicologia coletiva ou, em última análise, ideologia. A pessoa mais filosoficamente libertária, ou mesmo apenas convictamente liberal, nunca seria capaz de admitir uma aberração como a que o PSD votou no seu congresso e que prevê penas para quem criticar o partido nos dois meses que antecedem atos eleitorais. Essa mesma pessoa poderia dar dois berros em casa por causa de um livro mal colocado na estante. Mas votar uma aberração daquelas, deliberadamente, num congresso, ou deixar que ela passasse sem protestar? Nem pensar. Teria náuseas só de pensar nisso.

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