Quanto mais tempo o PS demorar a apoiar Manuel Alegre, mais perde este comboio.

O canto das sereias (Odisseia)

A ala esquerda do Partido Socialista soube manter-se disciplinada durante o caso PT-TVI. Mas agora, com o PEC, as suas vozes mais importantes souberam correr riscos e optar pela indisciplina. Tiro-lhes o chapéu.

Ninguém pode dizer que atacaram Sócrates aproveitando-se do lamaçal das escutas. Sobretudo, ninguém pode dizer que não sabem do que falam. Pedro Adão e Silva, um dos autores do programa do PS: “Temo dizê-lo, mas o esforço de consolidação orçamental tem, de facto, de ser alcançado, mas, por isso mesmo, para que seja possível fazê-lo, é preciso criar uma rede de mínimos coerente e eficaz. E que tal cortar os 130 milhões de euros que se quer cortar com “os malandros do rendimento mínimo” em prémios e salários no sector empresarial do Estado ou, em alternativa, incluir já no OE para 2010 a tributação das mais-valias bolsistas? Suspeito que a receita seria bem superior à despesa que agora se quer poupar. É mesmo uma questão de prioridades e estas não são mesmo as minhas.” Paulo Pedroso: “Eu queria simpatizar com o PEC, mas não consigo. Esta fatura vai diretamente para os mais pobres.” E Ana Gomes. E Mário Soares. E João Cravinho, duríssimo: “O Portas a dar lições de esquerda a Sócrates! O PS entrou numa deriva à direita da qual vai ser muito difícil regressar sem que haja grandes alterações na direção.”

E sobretudo Manuel Alegre, encontrando o tom que o pode levar à Presidência da República: “Não é moralmente aceitável que enquanto se impõe o congelamento de salários na função pública haja gestores de empresas com capitais públicos que se atribuem milhões de euros de prémios e benefícios. É um escândalo para a saúde da República.”

Manuel Alegre já demonstrou que não alimenta tabus de falta de diálogo à esquerda ou de incomunicabilidade entre partidos e cidadãos. Ele diz, neste momento, aquilo que as pessoas precisam de saber: que o combate à crise tem de ser uma luta de “austeridade republicana” pelo reforço da coesão social e pelo combate à exclusão, e não uma capitulação sucessiva em que já vendemos os anéis, agora cortamos os dedos e, daqui a uns tempos, nos veremos forçados a cortar os dedos da outra mão.

Quanto mais tempo o PS demorar a apoiar Manuel Alegre, mais perde este comboio.

No fim do texto em que friamente (e a contragosto) desossou o PEC, Paulo Pedroso escreveu: “Hoje sinto-me particularmente feliz por não ter sido candidato a deputado nesta legislatura.” Isto sugere alívio por não pertencer a um grupo parlamentar manietado, obrigado à obediência ao líder, uma mera correia de transmissão do Governo na sua estratégia de sustentação com o PSD e o CDS e de cordão sanitário à volta do BE e do PCP.

Mais devagar. Até no grupo parlamentar há novidades. Vera Jardim, Ana Catarina Mendes, João Galamba e outros assinaram uma declaração de voto sobre o PEC em que há pensamento independente e talvez, ainda embrionário, algum espírito de revolta.

Não, o PEC não é uma fatalidade. Há maneiras de combater o défice e a crise distribuindo os sacrifícios de forma equitativa e iniciando uma estratégia articulada em Bruxelas, que é onde este impasse se ata ou desata. O compromisso da esquerda é optar por esse caminho com a maior clareza e força já, e não capitular perante as dificuldades ou deixar-se levar pelo canto das sereias da direita.

Sócrates não quer entender isto. Mas Sócrates já está a viver depois do fim.

Historiador. Deputado independente ao Parlamento Europeu pelo Bloco de Esquerda (http://twitter.com/ruitavares)

3 thoughts to “E depois do fim

  • NS

    Absolutamente de acordo.

    A leitura desse texto do Paulo Pedroso, na semana passada, veio corroborar na mouche aquilo que eu, e enfim, mais algumas pessoas que conheço, já há muito vínhamos sentindo… e as coisas estão difíceis para a gente, quero dizer, para a malta que se enquadra sem qualquer tipo de “mas” nessa dita ala esquerda do PS… bem difíceis…

  • Luís Simões

    Talvez essas pessoas da ala-esquerda finalmente concluissem que o primeiro-ministro já esgotou o seu prazo de validade e já estejam a desenhar o PS pós-Sócrates.

  • Sherell Moshos

    Thx for information.

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