Brasília

É como uma nuvem, a História: gigantesca e cheia de delicadeza. Uma coisa grande que parece mudar lentamente; mas distraímo-nos e já está inteiramente diferente.

Não faltam na história situações fortuitas, ou próximo disso, de consequências irreversíveis. Vistas de perto, não seriam incomparáveis com o acidente que, no passado sábado, decapitou a república polaca, começando pelo seu Presidente, chefias militares e alguns dos principais políticos.

Um estudante tenta matar o herdeiro do trono austríaco enquanto ele visita Sarajevo, a 28 de junho de 1914. Não consegue à primeira, desencontra-se da caravana, reencontra-a quase por acaso, dispara o seu revólver. O arquiduque Francisco Fernando morre, a sua mulher também. Pouco depois, começa uma guerra mundial.

Roma está a arder em Maio de 64 d.C., sabe-se lá porquê, terá sido um forno de pão aceso ou o próprio imperador ou um animal a provocar acidentalmente o fogo? Nero culpa os cristãos e persegue-os impiedosamente, contribuindo a prazo para aumentar a coesão, e a força, da então ainda pequena seita.

Estes são os exemplos clássicos. Poderíamos acrescentar: dois aviões, sequestrados por duas dezenas de homens, atingem duas torres em Nova Iorque – seguem-se duas guerras, que ainda não terminaram.

Há, nos extremos, duas posições possíveis sobre estas coisas: uma delas é fatalista e tende a enfatizar o papel destes acontecimentos irracionais, aleatórios, arbitrários. A outra é determinista e pede mais recuo. Diz-nos assim: a Revolução Francesa não aconteceu porque Maria Antonieta sugeriu que os pobres comessem bolos ou sequer porque os parisienses tenham invadido a Bastilha. Aconteceu porque as estruturas da sociedade francesa há muito que se dirigiam naquele sentido.

Nos últimos anos, estamos todos mais fatalistas. Talvez por termos visto, em direto no dia 11 de setembro de 2001, um daqueles exemplos clássicos. Mas também é verdade que, de todos os acontecimentos pontuais, mais ou menos fortuitos, só alguns têm consequências e chegam a ser citados vez após vez. Será um teste à estabilidade emocional da Polónia e da Rússia que este acidente não chegue a esse ponto.

É como uma nuvem, a História: gigantesca e cheia de delicadeza. Uma coisa grande que parece mudar lentamente; mas distraímo-nos e já está inteiramente diferente. Uma nuvem agora é cinzenta e anuncia tempestade, logo depois é de âmbar e deixa passar raios de sol, um crepúsculo tonaliza-a de ocres, laranjas e rosas como um fresco de Tiepolo.

Peguem em quaisquer cinquenta anos da História da Europa, do século XVIII até hoje. Em nenhum dos casos, um europeu de 1780 imaginaria 1830, ou um de 1905 julgaria 1955 possível, ou o de 1960 acreditaria em 2010. Desfaz-se império, nasce país, há guerras quentes e guerra fria, ergue-se muro, cai muro.

Se fosse o século XVII, acho que Shakespeare ou Calderón de la Barca saberiam o que escrever:

“Nasceu na Polónia um par de gémeos que se tornaram famosos aos doze anos por aparecerem num filme chamado Os Dois que Roubaram a Lua. Anos mais tarde, um foi Presidente e outro primeiro-ministro, conhecidos fora do seu país pela mesquinhez com que tratavam os alemães e russos, judeus e homossexuais. Alguns anos passados, um novo primeiro-ministro, de um partido diferente, conseguiu que os russos reconhecessem o massacre do Katyn, ocorrido 70 anos antes, durante o qual tinham executado vinte mil pessoas da elite polaca. O Presidente não quis ir à cerimónia com os russos, e foi alguns dias depois com uma comitiva de 98 pessoas. O avião despenhou-se. Ao irmão gémeo que restou coube reconhecer-lhe o cadáver.”

Daqui a cinquenta anos quem ler isto vai ter de confirmar para poder acreditar.

One thought to “Como as nuvens.”

  • CN

    Só uma nota. Não foi apenas um estudante a fazer o atentado. Tanto quanto julgo saber, terá sido incentivado pelos serviços secretos Sérvios.

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