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Luso-tropicalismo: fusão entre bandeiras num ônibus da companhia Braso-Lisboa, Rio de Janeiro.

O lado positivo será apresentar ao Brasil uma nova geração de portugueses. Mas isto significará que Portugal não os conseguiu segurar. O que aliás já é verdade.

Rio de Janeiro. – Guardem esta idéia: nos próximos dez anos regressará a emigração portuguesa para o Brasil. Só espero que não ultrapasse a imigração brasileira para Portugal – nós precisamos de mais gente, e gente nova, do que eles. Mas a nova emigração portuguesa para aqui vai ser diferente da anterior: vai ter características de fuga de cérebros.

Aqui e ali vou encontrando os precursores. É o casal de geólogos – ela transmontana e ele ribatejano – que dão aulas na Escola de Minas de Ouro Preto. É o jovem arquiteto que veio estagiar para São Paulo e foi ficando. É o professor universitário que quer ir para Florianópolis, Santa Catarina. É o casal que antecipou a reforma e, ainda em idade de abrir um negócio, se deixou tentar pelo Rio Grande do Norte. E outros.

A violência nas grandes cidades brasileiras ainda assusta muito. A distância entre o conforto da classe média-alta e a labuta do brasileiro comum continua enorme, e não é fácil de encarar. A diferença entre o euro e o real – que já foi maior – também faz pensar duas vezes. Acrescentada à distância das viagens, faz com que não seja como ir trabalhar para a city de Londres e poder visitar a família várias vezes ao ano. Mas, ainda assim, eles virão.

Quando começarem a ver que uma das excelentes universidades federais (e só nos últimos anos abriram mais 14) pode contratar uma centena de professores de uma vez, e com contratos praticamente para a vida. Quando lhes disserem que ainda há concursos públicos que são abertos a “cidadãos brasileiros e portugueses”. Quando se derem conta de que as políticas do Governo Lula – em particular o programa conhecido como “bolsa-família” – tiraram milhões de brasileiros da pobreza e puseram as suas crianças no sistema de ensino. Quando descobrirem que aqui é um prazer lidar com uma multidão de estudantes universitários empenhados, desempoeirados e informais. Os portugueses verão, e virão.

Sou ambivalente em relação a este movimento. O lado positivo será apresentar ao Brasil uma nova geração de portugueses, que aqui reatará (e ampliará) uma tradição que passou por Jorge de Sena, Jaime Cortesão ou Agostinho da Silva. E para os portugueses é compreensível como nascerá o fascínio. Embora eu suspeite que muitos irão para cidades com mais qualidade de vida (e menos crime) como Brasília, Curitiba ou Florianópolis, é preciso reconhecer que o Rio e São Paulo são a nossa Nova Iorque – ou a Meca e a Medina da língua portuguesa no Novo Mundo, duas cidades que todos nós deveríamos experimentar uma vez na vida. Mas isto significará que Portugal não os conseguiu segurar. O que aliás já é verdade.

Em teoria, nós poderíamos conseguir reequilibrar a balança. Não há razão para que a Universidade de Coimbra, que aqui toda a gente ainda reconhece, não atraia uma geração de brasileiros, endinheirados ou com bolsas brasileiras. Em certos centros de excelências, essa possibilidade já é visível. Lisboa e Porto seriam – já são – um destino interessante para jovens brasileiros sedentos de Europa. Para isto acontecer, os portugueses também terão de rever a sua visão dos brasileiros.

Os portugueses terão sobretudo de entender que ser aberto é, hoje, a única maneira de ser forte. E terão de entender que, face às tendências que não podemos mudar, o que mais vale é prevê-las e navegá-las da forma mais vantajosa possível. Porque elas vêm de mansinho, ninguém as espera, e de repente instalam-se, incontornáveis. Daqui a dez anos falamos.

Historiador. Deputado independente ao Parlamento Europeu pelo Bloco de Esquerda (http://twitter.com/ruitavares)

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