Só mais uma coisinha

Idealizo um reinventar laços de solidariedade entre trabalhadores, entre gerações e pessoas diferentes. Sim, eu tinha prometido calar-me durante a quaresma. Mas o que aconteceu anteontem, no protesto da geração à rasca que juntou centenas de milhares de pessoas de todas as gerações em todo o país, foi especial — e necessita de um comentário especial. A coisa mais interessante a descobrir é como se pode ir de três pessoas para trezentas mil sem pedir permissão a qualquer partido, sindicato ou associação. Não tenho dúvida de que qualquer destas organizações está agora a repensar a sua relação com a sociedade — e isso é bom, mas desde que dê aos partidos vontade de serem organizações mais democráticas desde o início. Segunda coisa: um cartaz de ontem dizia “ninguém aqui votou na Merkel”. Na mouche: a União Europeia, tal como está, é um clube e não uma democracia. Aos olhos das pessoas, esse dado básico retira legitimidade às reformas que aí vêm, e com razão diagnostica a falência do atual discurso reformista. Até que uma nova relação de forças ou um novo pensamento tome conta de Bruxelas, das reformas só podemos esperar coisas contra nós. A estratégia tradicional-revolucionária quando chegamos ao “estado a que chegámos” seria pressionar até à queda do poder, para que viesse aí um novo poder. Mas aí temos novo bloqueio: não tanto que o “novo poder” se arriscaria a ser pior do que o atual — mas que, passado o primeiro momento, as coisas voltariam a ser dirigidas de cima para baixo. Há uma semana inventei uma palavra — à volta da ideia de “reformulação”

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A batida cardíaca semanal

(Público – 09 de Março de 2011) A realidade muda, o mundo muda, o país muda mais do que pensamos; e consoante muda eu vou mudando também qualquer coisa. Essa é a explicação oculta no título da coluna. Certa noite há pouco mais de cinco anos, cerca das duas horas da manhã, recebi um email do então diretor deste jornal que me perguntava se eu estaria interessado em ser cronista do Público. Demorei um pouco — alguns dias mesmo — para me convencer de que a proposta era fidedigna. Na altura eu estava praticamente desempregado (ou o que quer que isso queira dizer na terra dos recibos verdes) o blogue em que eu escrevia tinha acabado, e tinha apenas a meu crédito um livro recente sobre 1755 e outro em preparação onde, aliás, lançava cobras e lagartos sobre os editoriais de José Manuel Fernandes — nem mais nem menos, o então diretor deste jornal. Pelos vistos duas ou três pessoas tinham-lhe referenciado o meu nome para novo cronistas e, apesar das nossas diferenças, fizemos a ideia funcionar. Eu não discuti dinheiros (brinquei que me poderiam pagar o mesmo que a Frei Bento Domingues, que é franciscano) e a direção do jornal aceitou que eu escrevesse semanalmente e não quinzenalmente como inicialmente proposto. E foi tudo: a primeira crónica saiu em março de 2006 (se não erro) e chamava-se “O que faria Voltaire?”.

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Os reformulocionários

(Público – 07 de Março de 2011) O reformulocionário pretende baralhar e dar de forma mais justa, não tomar conta do jogo mas alterar-lhe as regras, ou seja: mudar a fórmula. O protesto da “geração à rasca”, que foi convocado por três amigos no Facebook e que terá lugar em Lisboa, Porto, Viseu e várias cidades no próximo dia 12, arrisca-se a ser o momento político mais interessante deste ano ainda curto e — a correr bem — a única verdadeira novidade nacional dos últimos tempos. Não só pela justiça do seu objeto mas sobretudo pela maneira de fazer. Tentarei descrever o que acho que se está a passar. Durante o século XX as políticas transformadoras declinavam-se de duas maneiras: ou éramos revolucionários ou reformistas. À esquerda esta dicotomia consumiu décadas de debate, com hegemonia para os revolucionários primeiro e os reformistas depois, até alguém superar o dilema notando (corretamente) que reforma ou revolução eram formas de fazer e não ideais em si mesmos. Mesmo nessa acepção mais modesta, porém, os partidários de ambos os métodos acabaram perdendo o pé. Os revolucionários primeiro, ao validarem a transição por períodos anti-democráticos — mais ou menos prolongados — até ao destino redentório que não chegava a chegar. E os reformistas também já tiveram mais credibilidade: em primeiro lugar abusaram da palavra até ao ponto em que “reforma” hoje já não vale nada em que se acredite. E quando tem significado que se perceba (cortes de salários?) reforma em boca de político quer agora dizer “um período em que a gente comum vai ter de sofrer mais um bocado”. Em ambos os casos, para os amanhãs poderem cantar os hojes terão de gemer. No seu melhor não teria de ser assim, mas na verdade reforma e revolução acabaram padecendo do mesmo vírus: o dos fins justificando os meios. Entram em cena os reformulocionários.

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Do mesmo, mas em maior

A União Europeia está muitas vezes condenada antes de ser julgada, e eu queria evitar isso nessa crónica, então esperei por uma série de audições parlamentares para ter uma oportunidade de ser mais justo. Ouvi e questionei, entre outros, a Comissária dos Assuntos Internos e o Secretário-Geral dos Assuntos Externos, ou seja, os números 1 e 2 para o que se passa dentro e fora de fronteiras da União. O assunto era, evidentemente, a “revolução árabe” e as suas consequências. O meu veredito? Bem, os responsáveis tentam esforçadamente dar a impressão de que, desta vez, não querem ficar aquém do desafio. E apresentam-nos números, números de guardas fronteiriços e de patrulhas, e medidas preparatórias, para mostrar que estão preparados. Mas como sempre, os responsáveis europeus estão preparados para a crise do passado, e nunca para a do presente. Para nos impressionar, dão-nos o mesmo, mas em maior. Vejamos: perante a situação na Líbia, e em resposta à pressão da Itália, a Comissão Europeia apresenta-nos uma operação fronteiriça. Uma operação grande, inflacionada e, se for preciso, até gigante, mas uma operação fronteiriça. O trivial em grande e, no entanto, completamente ao lado do alvo. E, no entanto, a realidade está aí:

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Encontros de Baucau

Díli, Timor-Leste. — Estive aqui em Timor há ano e meio e, tirando aeroportos e desembarques, comecei a minha viagem pelo primeiro lugar onde os portugueses pisaram — o enclave de Oecussi-Ambeno — e terminei por onde eles em último lugar hastearam a bandeira — a  Ilha de Ataúro. Calhou simplesmente assim. A meio da viagem, encontrei a Felicidade em Baucau. Felicidade Neto Ximenes, vinte e tal anos, funcionária da pousada, falante de tetum, português, indonésio, inglês e da língua local, macassai. E seria certamente capaz de se fazer entender em qualquer mistura destes idiomas pela simples força de vontade e pelo sorriso. Partimos em missão pela região leste da ilha, até ao cume do monte Matebian, onde havia uma comemoração, e regressando pela aldeia de Venilale. Mas não se pode acrescentar felicidade à Felicidade sem a acompanhar ao lago escondido por um palmar entre duas encostas da montanha, ou sem enfiar pelos túneis que os soldados japoneses escavaram na ilha, e sem ouvir as histórias da resistência e da guerrilha. Não consegui impedir-me de pensar que a cooperação e desenvolvimento local funcionará no dia em que por cada funcionário internacional que cessar o contrato se descubram dez Felicidades. Ao regressar a Baucau, tínhamos tido uma ideia:

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A Grande Jaca

Jacarta, Indonésia. — Não é por falsa modéstia que os indonésios não gostam de ser apresentados como a “história muçulmana democrática de sucesso”. É pela insistência na parte “muçulmana” mesmo. E não é que eles não sejam muçulmanos — são-no, na sua grande maioria, embora sejam também hindus, budistas, cristãos, ahmadianos (uma seita islâmica com cada vez mais adeptos que considera que Maomé não foi o último profeta) e também muito seculares. Mas foi enquanto indonésios que conquistaram a democracia, e chateia-os que lhes queiram tirar isso. “Você gostaria que apresentassem Portugal apenas como um exemplo da compatibilidade entre democracia e catolicismo?”, pergunta-me um diplomata que aqui serviu duas vezes e muitos anos. Por ridículo que pareça, não é que isso não tenha sido sugerido no nosso tempo — houve uma altura, e foi há uma geração apenas, em que só exceções entre os países católicos se podiam contar como democráticas. Foi Portugal a Tunísia do mundo católico? Poderia, sei lá, explicar-se as católicas Filipinas através de Portugal, só por causa da religião? Para a maioria dos indonésios, a questão “muçulmana” não faz sentido.

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Três maneiras de falhar

O ocidente, incluindo nesta designação a União Europeia e os Estados Unidos da América, gasta cada vez mais dinheiro em serviços secretos, de informação e espionagem. Quanto, muitas vezes não se sabe; nos EUA, o montante dedicado a tais atividades é secreto por lei. Mas numa investigação feita pelo Washington Post, chegou-se à conclusão de que quase um milhão de pessoas trabalha na área. Na Europa, a acrescentar aos serviços nacionais, Bruxelas lá vai conquistando mais uma base de dados, mais competências para a Europol, mais uma “situation room” desde que seja “state of the art”. Nada se nega aos “secretos”: mais pessoal, mais meios, mais segredo.

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‘Com que critério?’

A política trata de tantas coisas diferentes que não é possível fazê-la sem um critério. Cada vez mais dou por mim a usar o seguinte: o que estou a fazer serve para mudar alguma coisa? Não é um critério universal — um político conservador não o subscreveria. Não é um dogma, antes algo que a experiência recente consolidou em mim. Não vale sozinho: não basta “mudar coisas”, mas fazê-lo na direção certa. É pessoal: para gerir o sistema, haverá certamente outros bem melhores, e também eu preferiria fazer outras coisas. E tem uma dimensão quase quotidiana: é aquilo que fica ao fim do dia.

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Egito: é difícil fazer melhor

Se eu fosse egípcio, teria acordado no sábado pensando: será que é verdade? aconteceu mesmo? o Mubarak já não é presidente? E depois, teria perguntado: e agora? o que vai acontecer? Não me teria lembrado disto: pegar numa vassoura e ir varrer as ruas. E foi isso que muitos egípcios fizeram.

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Quando não é bom ter razão

Não é bom ser desmentido por três ministérios ao mesmo tempo. Pior ainda? Ter razão. No início deste ano fui contactado para comentar uma notícia saída no DN que dava conta de um acordo assinado entre Portugal e os EUA para transferência de dados biográficos, biométricos e de ADN de cidadãos portugueses.

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