Díli, Timor-Leste. — Estive aqui em Timor há ano e meio e, tirando aeroportos e desembarques, comecei a minha viagem pelo primeiro lugar onde os portugueses pisaram — o enclave de Oecussi-Ambeno — e terminei por onde eles em último lugar hastearam a bandeira — a  Ilha de Ataúro. Calhou simplesmente assim.

A meio da viagem, encontrei a Felicidade em Baucau. Felicidade Neto Ximenes, vinte e tal anos, funcionária da pousada, falante de tetum, português, indonésio, inglês e da língua local, macassai. E seria certamente capaz de se fazer entender em qualquer mistura destes idiomas pela simples força de vontade e pelo sorriso.

Partimos em missão pela região leste da ilha, até ao cume do monte Matebian, onde havia uma comemoração, e regressando pela aldeia de Venilale. Mas não se pode acrescentar felicidade à Felicidade sem a acompanhar ao lago escondido por um palmar entre duas encostas da montanha, ou sem enfiar pelos túneis que os soldados japoneses escavaram na ilha, e sem ouvir as histórias da resistência e da guerrilha. Não consegui impedir-me de pensar que a cooperação e desenvolvimento local funcionará no dia em que por cada funcionário internacional que cessar o contrato se descubram dez Felicidades.

Ao regressar a Baucau, tínhamos tido uma ideia: e que tal organizar um evento no mercado da cidade, uma jóia de arquitetura portuguesa que está ainda por recuperar? Ela levou-me a um grupo de voluntários macaenses que trabalham sobre questões de agricultura e ambiente e que estão perfeitamente integrados na cidade — os NaTerra. Em pouco minutos tínhamos percorrido várias possibilidades, de uma simples universidade de verão a um festival. A conversa, ao fim da tarde, ficou no início — eu tinha de partir.

Em Díli encontrei Ana Gomes, a minha colega do Parlamento Europeu, e propus-lhe que trabalhássemos nesta ideia juntos. Diz muito da generosidade dela, que há anos trabalha sobre Timor, que abraçasse com entusiasmo a sugestão de um novato como eu.

O que depois acontece a este tipo de ideias é morrer. A esta, apesar de vários impulsos dados por gente entusiasta e voluntária, — alguns deles que já tinham tido outras ideias semelhantes — quase aconteceu isso. Timor é do outro lado do mundo, e a falta de tempo não perdoa. Chegámos à conclusão de que era preciso voltar ao terreno.

E a semana passada aconteceu exatamente isso. Uma assistente de cada um dos nossos gabinetes viajou para Timor-Leste e falou — bem, com toda a gente com quem foi possível falar. Incansavelmente partilharam a proposta com todos, desde um jovem do suco — bairro, ou aldeias— até um presidente da república que ficou à conversa connosco, noite dentro, numa esplanada simples e vazia. Eu, vindo de uma missão do PE à Indonésia, juntei-me no fim.

Escrevo agora do avião, no regresso, sem ter outras notícias do mundo. No meio de tudo isto, nem revi a Felicidade, que esteve nas reuniões por lá em Baucau, mas entrou numa vaga de azar. Foi mordida por uma cobra e está doente com malária. Quando lhe faço a saudação que me ensinou na língua macassai — “rao noc rao?”, “bem ou não bem?” — percebo que ela está “noc rao”, não-bem.

Mas, como ela sabe, a nossa ideia renasceu. Tem um novo nome — “Encontros de Baucau” — será dedicada à cidadania e às artes — e jurámos fazê-la em inícios de Agosto. Vocês saberão dos novos planos, daqui a mais ou menos um mês, até porque poderemos vir a precisar da vossa ajuda.

4 thoughts to “Encontros de Baucau

  • José Brandão de Sousa

    O texto é bonito. Está bem escrito. As intenções são sublimes. O projecto é louvável. Não queria parecer cínico nem pessimista, mas parece-me tratar-se mais uma habitual manifestação de um eurocentrismo entranhado no mato e viu uma coisa gira, degradada e que bom que era recuperá-la. Já vi, nos últimos seis anos, em relação ao mesmo local, mais de uma dezena de pias intenções também elas plasmadas na forma de juras como as agora feitas. Resultados até hoje: nenhuns. Mas não deixo de acreditar que desta é que vai ser…

  • Ana Luísa

    Uma exclamação de aplauso e felicitação pela iniciativa:

    1. Em Português: Viva!
    2. Agora em Teto (a outra língua oficial de Timor-Leste): Viva!

    Ficaremos à espera de poder ser prestáveis, independentemente da latitude em que, então, nos encontraremos. Os timorenses merecem.

  • H.R.

    pensei que gostaria de conhecer…

    http://www.youtube.com/watch?v=dhc4zl_b6Sg&feature=player_embedded

  • Sara Moreira

    Uau, evento no Mercado de Baucau, soa muito promissor!
    Caso tenha passado despercebida, vai haver uma conferencia internacional ali ao lado um mes antes, e tem agora a chamada para propostas aberta:
    http://www.tlstudies.org/ConferencePor2011.html

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