A política trata de tantas coisas diferentes que não é possível fazê-la sem um critério. Cada vez mais dou por mim a usar o seguinte: o que estou a fazer serve para mudar alguma coisa? Não é um critério universal — um político conservador não o subscreveria. Não é um dogma, antes algo que a experiência recente consolidou em mim. Não vale sozinho: não basta “mudar coisas”, mas fazê-lo na direção certa. É pessoal: para gerir o sistema, haverá certamente outros bem melhores, e também eu preferiria fazer outras coisas. E tem uma dimensão quase quotidiana: é aquilo que fica ao fim do dia.

Sem um critério, a discussão do costume — entre pragmáticos e dogmáticos, institucionais ou populares, estridentes ou engravatados — é pura perda de tempo. Ou, pior ainda, deixa-nos à mercê do fanatismo, tal como definido por Jorge de Santayana: “o redobrar de esforços quando já nos esquecemos de qual era o objetivo”.

(Com efeito, já vi os mais fundamentalistas dos políticos anti-sistema trabalhar todos os dias para a manutenção do status quo. Às vezes voluntariamente — porque lhes garante a perpetuarão do discurso — outras vezes sem intenção, mas o resultado é o mesmo.)

***

Tento aplicar o meu critério à recente moção de censura do Bloco de Esquerda e, infelizmente, não me dá nada. Tento pegar-lhe por várias pontas, e não há ponta por onde se lhe pegue.

Nada muda se a moção perder. O governo fica no lugar, e é provável que dure até mais tempo. Se a moção ganhar, tudo muda — para pior, com um governo ainda mais à direita.

Resta uma explicação “instintiva”, a de que o BE se quis livrar do vírus da colaboração com o PS, no rescaldo das presidenciais. Isto seria uma dupla crise de confiança: do bloco em si mesmo como oposição; e do eleitorado no bloco como partido compreensível.

***

A direita voltará ao poder, em Portugal, se não agora, mais cedo que tarde — e não cometerão os erros passados. Um governo da direita durará mais de dois anos. Os partidos de direita convergirão num programa, como sempre fazem, e implementá-lo-ão.

Nesse momento, as esquerdas terão tempo para pensar bem por que razão, afinal, que raio, sendo cada uma delas tão dona da verdade, a verdade é que este país nunca mais é governado com políticas de esquerda.

Posso até anunciar-vos a conclusão a que todos chegaremos: a culpa é do outro partido. Mas permitam-me sugerir um ponto de partida diferente: e se não fosse?

Publicado no Jornal Público no dia 16 de Fevereiro de 2011

4 thoughts to “‘Com que critério?’

  • im

    2 pontos apenas:
    – Já sabe o resultado das próximas eleições, antecipadas ou não?
    – Não consegue lavar a roupa “pseudp-sija” em casa e na “família”?
    cumprimentos
    im

  • orlopesdesa

    Rui,

    Não temos tido políticas de esquerda, porque o Bloco não quer convergir à sua “direita” de forma a que o PS converja à sua “esquerda”… no fundo é uma questão vectorial…
    O Bloco não quer governar, nem fazer concessões ao seu programa politico de forma a que se chegue a uma plataforma de entendimento com o PS. E sem esse entendimento o PS ficará sempre resignado a pactuar com a direita na aprovação dos diplomas mais importantes.
    Consequência – anos e anos de politicas de direita.
    É fácil apontar o dedo ao PS, e ainda mais fácil fazer o papel de advogado do Diabo. Difícil é entrar no jogo “a sério”, abrir uma plataforma de governação à esquerda, porque é preciso coragem para deixar aquele discurso demagógico e facilmente compreensível pelos mais desprotegidos. É preciso coragem para por de lado eleitoralismos, e dar um passo em frente no sentido da responsabilidade – da governação. Porque caro Rui, pode-se fazer politica na rua, nos jornais, nas televisões, mas ela sela-se no Parlamento.

  • Mário Sanches

    Caro Rui,

    Sou leitor assíduo dos seus textos. No caso em apreço, partindo do seu critério, chego facilmente à conclusão oposta. Na verdade, uma moçao de censura, hoje, é a única coisa DECENTE que um partido de esquerda tem a obrigação de apresentar na Assembleia da República. Tem um alvo: a política de direita prosseguida pelo PS. Tem um objectivo: alterar essa política, no quadro quer do jogo parlamentar e quer da acção fora dele. Censurar esta política é um acto genuíno de quem se sente profundamente indignado com este insuportável clima instalado pelo governo socialista.

    Mário Sanches

  • Pedro Tarquínio

    Discordo de si pois ter um governo “ainda mais à direita” ou um governo de direita, como temos – e isso tem que ser dito e assumido – já pouco me afecta. Um governo ps que implementa um cód de trabalho que na oposição – aí sim um partido de esquerda- repudiou, que governa para benefício dos bancos sustentados pelos impostos, que privatiza o SNSaúde, que governa sempre pela estabilidade dos ditos mercados e em prol dos accionistas em prejuízo dos cidadãos deve ser censurado por quem não se revê nisso.
    É um lugar comum, mas o compadrio ps/psd dos boys na admnistração, na distribuição dos tachos, nas privatizações, nos milhões gastos em pareceres, e principalmente no apoio dos monopólios galp, edp, pt, brisa que só gostam da economia de mercado quando sem concorrência faz com me seja igual ter sócrates ou passos coelho como pm.

Leave a comment