A União Europeia está muitas vezes condenada antes de ser julgada, e eu queria evitar isso nessa crónica, então esperei por uma série de audições parlamentares para ter uma oportunidade de ser mais justo. Ouvi e questionei, entre outros, a Comissária dos Assuntos Internos e o Secretário-Geral dos Assuntos Externos, ou seja, os números 1 e 2 para o que se passa dentro e fora de fronteiras da União. O assunto era, evidentemente, a “revolução árabe” e as suas consequências. O meu veredito?

Bem, os responsáveis tentam esforçadamente dar a impressão de que, desta vez, não querem ficar aquém do desafio. E apresentam-nos números, números de guardas fronteiriços e de patrulhas, e medidas preparatórias, para mostrar que estão preparados.

Mas como sempre, os responsáveis europeus estão preparados para a crise do passado, e nunca para a do presente. Para nos impressionar, dão-nos o mesmo, mas em maior.

Vejamos: perante a situação na Líbia, e em resposta à pressão da Itália, a Comissão Europeia apresenta-nos uma operação fronteiriça. Uma operação grande, inflacionada e, se for preciso, até gigante, mas uma operação fronteiriça. O trivial em grande e, no entanto, completamente ao lado do alvo.

E, no entanto, a realidade está aí: de Marrocos à Síria há cerca de cinco mil quilómetros de costa e neste momento não há nem um só desses quilómetros que não tenha um risco humanitário acrescido. Humanitário, sublinho. Isto não é uma mera questão de fronteira, ou seja, de gestão de uma linha imaginária no espaço, mas algo que muda tudo na região em que estamos inseridos, e em nós mesmos.

Reserve um momento para pensar no grau de dependência que criámos em relação a uma figura como Khadafi e prometo-lhe que terá uma visão nada menos do que abismal. Não, não é o petróleo nem o gás natural — há outros lugares onde ir buscar isso. A Europa estava dependente de Khadafi para poder manter a ilusão de que a sua política de imigração, assente na repressão,  é sustentável e realista. Não é. Terceirizámos para a Líbia o nosso trabalho sujo — mandar os imigrantes de volta para o deserto — pagando-lhe em dinheiro e tropas e material militar e conversa fiada.

E agora a Europa não sabe o que fazer sem o ditador líbio — certos países, como a Itália, estão em verdadeiro estado de negação, afirmando que os acordos assinados com Khadafi têm de ser dados por bons pelo poder vigente (qual!?) — e por isso monta uma operação de fronteira para conter gente que luta pela democracia que nós dizemos defender contra o ditador que nós armámos, financiámos e cujas botas ainda sentimos a falta de lamber.

Se daqui a uns tempos os EUA intervierem na Líbia, para o que não esperarão por ninguém, ainda haverá quem se lamente por eles decidirem no “nosso quintal das traseiras”. Não lhes permitam esse exercício hipócrita, sintoma perfeito da nossa patologia. Nós nunca devíamos ter tido “quintal das traseiras” para onde varrer o lixo. Os árabes, os povos e não os ditadores, deveriam apenas ter sido vizinhos que nós respeitássemos. Parece pouco e teria feito a diferença; mais vale tarde que nunca, mas os nossos burocratas evitam sempre pensar no futuro até que ele seja tarde de mais.

Isto lembra, noutro plano da realidade, a crise do euro. Os nossos governos não querem mudar e construíram Bruxelas para garantir a paralisia recíproca. Falharão sempre da mesma forma, com cada vez menos convicção e mais estrondo.

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