(Público – 09 de Março de 2011)

A realidade muda, o mundo muda, o país muda mais do que pensamos; e consoante muda eu vou mudando também qualquer coisa. Essa é a explicação oculta no título da coluna.

Certa noite há pouco mais de cinco anos, cerca das duas horas da manhã, recebi um email do então diretor deste jornal que me perguntava se eu estaria interessado em ser cronista do Público.

Demorei um pouco — alguns dias mesmo — para me convencer de que a proposta era fidedigna. Na altura eu estava praticamente desempregado (ou o que quer que isso queira dizer na terra dos recibos verdes) o blogue em que eu escrevia tinha acabado, e tinha apenas a meu crédito um livro recente sobre 1755 e outro em preparação onde, aliás, lançava cobras e lagartos sobre os editoriais de José Manuel Fernandes — nem mais nem menos, o então diretor deste jornal.

Pelos vistos duas ou três pessoas tinham-lhe referenciado o meu nome para novo cronistas e, apesar das nossas diferenças, fizemos a ideia funcionar. Eu não discuti dinheiros (brinquei que me poderiam pagar o mesmo que a Frei Bento Domingues, que é franciscano) e a direção do jornal aceitou que eu escrevesse semanalmente e não quinzenalmente como inicialmente proposto. E foi tudo: a primeira crónica saiu em março de 2006 (se não erro) e chamava-se “O que faria Voltaire?”.

Acontece muita coisa enquanto mantemos uma coluna no jornal. Morre gente, nasce gente, separa-se gente, apaixona-se gente, perdem-se amigos, fazem-se amigos, exasperamo-nos, deprimimo-nos, euforizamo-nos.

Isso é tudo o que não aparece nas crónicas.

Não demorou muito tempo, quando comecei a escrever duas vezes por semana, para que o ritmo me entrasse debaixo da pele.

Ao domingo escrevo a crónica que é publicada à segunda-feira. A grande dificuldade é fazer a cabeça funcionar a contra-ritmo, tentando nesse dia de redações fechadas e passeios no parque e visitas ao hospital, criar um texto que as pessoas leiam no metro e nos transportes públicos a caminho de uma semana frenética.

À terça-feira escrevo a crónica de quarta, e a coisa é mais fácil. Aproveito para inventar uma ideia inconclusa, ou tentar um tema mais teórico. A segunda crónica é muitas vezes o contraponto da primeira, dubitativa onde a outra foi agressiva, calma após a fúria, de refluxo e não de jato. As duas juntas pontuam a minha semana como as duas batidas do ciclo cardíaco; na sístole o músculo contrai-se, na diástole descontrai-se.

Depois chega a quarta e a quinta-feira e esqueço-me por um pouco de vocês. Mas como uma crónica para mim demora vários dias a ser fermentada (e várias horas a ser escrita) na sexta-feira já estou a fazer caretas e no sábado ando enfiado com aquilo a que os meus próximos conhecem bem como “cara de crónica”. Se a coisa estiver difícil tenho “tensão pré-textual” e não sou bom de aturar.

Isto é o recorrente; tudo o resto muda. A realidade muda, o mundo muda, o país muda mais do que pensamos; e consoante muda eu vou mudando também qualquer coisa. Essa é a explicação oculta no título da coluna.

Aproveito a data redonda para agradecer ao Público — agora com nova diretora, a Bárbara Reis — a oportunidade de organizar as minhas ideias ao vivo, e a vocês a paciência para assistirem em direto ao meu processo mental. Vou agora hibernar durante a quaresma, reduzindo as minhas batidas cardíacas em conformidade; volto daqui a pouco.

6 thoughts to “A batida cardíaca semanal

  • miguel serras pereira

    Caro Rui,
    muito bem – mas olha que o nosso amigo Bento não é franciscano, mas beneditino. E um bom camarada, claro.
    Abraço grande

    msp

  • armando assunção

    e foi um auspicioso começo!

  • Ana Luísa

    Ó meu Zeus! Que hecatombe! O Rui vai obrigar uma ateia não-praticante como eu a entrar em renúncia quaresmal, às segundas e quartas logo de manhãsinha… que crueldade!
    Vou passar a sofrer do horrível SPCRT ( Síndrome de Privação da Crónica do Rui Tavares) a acrescer ao SPT que compartilho quotidianamente….
    Arghhhhh!
    Volte depressa ou vou ser obrigada a enviar-lhe um pedido de amizade no “Facebook” para compensar sua ausência do Público…

  • Francisco Clamote

    Para o Rui, o meu obrigado, pelo que tenho aprendido com a leitura das suas excelentes crónicas e demais intervenções.
    E, já agora, aproveito para fazer uma rectificação extensiva ao comentário do Miguel Serras Pereira: Frei Bento Domingues não é nem franciscano, nem beneditino. É dominicano. Saudações.

  • Ricardo

    Caro Rui,

    Como leitor assíduo do seu blog, devo afirmar que estou muito admirado de ainda não ver qualquer reacção sua relativamente à adesão às manifestações que ontem aconteceram em Portugal.
    Seria de esperar perante os acontecimentos um adiar da hibernação…

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