Os últimos 400 anos e os próximos 4

Agora que um novo dia começa é preciso que se entenda que a nossa retração às fronteiras “originais” implica um esforço de aprendizagem que os nossos governos nunca souberam fazer. Quanto mais pequeno é um país, menos paroquial pode ele dar-se ao luxo de ser. Há quatrocentos Portugal estava na sua primeira experiência de integração política europeia. Hoje chamamos-lhe o “tempo dos Filipes” e ele evoca-nos só a Espanha, mas é por ignorância. Os Filipes pertenciam a uma família do centro da Europa — os Habsburgos — e politicamente uniam-nos a regiões europeias tão distintas como os Países Baixos, a Lombardia, o Franco-condado e a Sicília. Essa experiência europeia foi para nós muito mais exceção do que regra. Aconteceu há quatrocentos anos, e só se repetiu agora. No resto da sua vida, a inserção de Portugal foi mais intercontinental do que europeia. Se o milénio passado fosse condensado num dia

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Os despojos de Deauville

Um dia olharemos com espanto para esta época como aquela em que Europa, estreitada entre os curtos interesses e os míopes preconceitos de dois dos seus líderes, resolveu brincar com o desastre em vez optar pela reconstrução contra a crise. Habituámo-nos a escolher entre o mau e o péssimo. Não foi sempre assim. Em outubro do ano passado encontraram-se Merkel e Sarkozy na estância balnear francesa de Deauville — e enterraram a ideia que poderia ter estancado a crise da dívida, salvado o euro e dado a volta por cima à economia europeia. Uma ideia simples, mas poderosa: tomar a economia da zona euro como um todo e dotá-lo da capacidade de emitir dívida para este apetecível mercado de 400 milhões de pessoas com invejáveis indicadores — quando tomados no seu conjunto. Isto seria feito através dos chamados eurobonds — títulos da dívida europeia. No encontro de Deauville, Merkel e Sarkozy prometeram fazer tudo para salvar o euro — menos, precisamente, aquilo que poderia salvar o euro. Os eurobonds, que eram então discutidos seriamente, foram liminarmente recusados. Dois indivíduos decidiram por todos os outros. Meses depois, ninguém lhes pede explicações. Não temos tempo para isso:

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Será a democracia importante?

O que eu gostaria de provar — não nesta crónica, mas praticamente em todas, e na minha ação política europeia — é que a democracia é mais do que o princípio de base. Será a democracia importante? Na última crónica escrevi que seria necessário refazer o projeto europeu sobre sólidos alicerces democráticos. Esta é daquelas opiniões com que toda a gente concorda e ninguém concorda. Perfeitamente segura de escrever numa crónica, é muito mais difícil de provar que ela seja verdadeiramente importante. A democracia é importante, diz o leitor, e ninguém o negará em abstrato. Parabéns ao cronista pelos bons sentimentos. E no entanto, no entanto, ninguém dá um tostão pela democracia europeia. Temos problemas maiores para resolver — ou não? O Euro está nos paroxismos de uma crise. As pessoas estão a perder o emprego. Países estão à bancarrota. Quem se vai preocupar com a democracia nesta altura do campeonato?

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Conteúdo e contexto

Espancar a economia significa, é bom lembrar, espancar indiretamente as pessoas. A discussão sobre se o acordo com a troica é “bom” ou “mau” para nós, segue previsivelmente todos os passos dos nossos previsíveis debates domésticos. Antes de nos perguntarmos se os senhores estrangeiros nos trataram bem ou mal, como nós merecíamos ou não, será pedir muito que abandonemos por momentos a nossa subalternidade e que nos atribuamos o direito de analisar o trabalho da troica? A primeira pergunta seria então: é este acordo realista ou irrealista? Valerá a pena espancar a nossa economia para a pôr na forma estipulada? Já o tentámos com os vários PEC, tal como a Grécia e Irlanda tentaram com os seus resgates, e o resultado foi pior do que o estado inicial. Se este acordo falhar, que se seguirá então? Mais espancamentos?

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Na morte de Osama

A sua visão do mundo era cruel e sem compaixão. Os civis mereciam tanto morrer como os militares; dizia combater os infiéis, mas matava também muçulmanos. O dia de glória, para ele, chegou quando matou três mil pessoas ao destruir as duas torres em Nova Iorque que tanto haviam impressionado o seu pai e irmãos como obra de engenharia. Disseram-me uma vez para nunca me esquecer que todas as vítimas têm família — mas também têm família os criminosos, os perpetradores, os cúmplices, os suicidas, os assassinos em série. Com Osama bin Laden será fácil lembrá-lo. A sua família era invulgar. O homem mais importante era o pai, um imigrante vindo do Iémen, analfabeto e zarolho, chamado Mohammed bin Laden. Chegado à Arábia Saudita quando ainda não havia país com esse nome, Mohammed bin Laden fez todo o tipo de trabalhos menores na cidade de Jedá, até lhe caber uma empreitada no porto da cidade que, parece, chamou a atenção da Casa de Saud. O dinheiro do petróleo fez dos Saud uma dinastia rica e poderosa. Mohammed bin Laden passou a encarregar-se da construção de edifícios modernos, como aeroportos, e a sua empresa tornou-se num vasto empório — o Saudi Bin Laden Group — com escritórios no reino e fora dele. Mohammed Bin Laden viria a morrer num desastre de avião.

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Tempos sem tração

E agora tudo se desfaz. Três países do euro já lá vão sem que a União saiba o que fazer à sua moeda. O FMI um dia destes deveria abster-se de intervir fragmentos da União enquanto a União não decidir sobre o que quer ser. A maior parte das pessoas procura termos de comparação em vida para o que vai acontecendo. Vidas longas, ou mesmo vidas de jovens adultos, viram suceder coisas suficientes para nos irmos guiando. Quando o que vivemos não chega, procuramos termos de comparação nas coisas que nos contaram, ou procuramos na história longa, registada nos livros. Esta é a forma que temos para agarrar no presente contínuo. Sem termos de comparação, não conseguimos tração sobre os nossos próprios tempos. Em situação normais, isto não é grave. Somos suavemente impelidos para o futuro e — embora as tecnologias, as personagens e as modas mudem — a linha de tendência parece fazer sentido. Em situações anormais, acontece o que acontece a um carro na lama. Experimentamos explicações, ideologias e líderes como quem mete tábuas debaixo das rodas, à procura de uma que resulte. Deslizamos, rodamos no vazio; e quanto mais nos esforçamos, mais nos afundamos. Este não é um problema da economia nem da política; é um problema da cognição humana, sem a qual não se resolve a economia nem a política pela nossa agência. Nós precisamos de entender para resolver. Caso contrário, as crises, os conflitos e as guerras acabam por resolver por nós — e contra nós.

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E agora, Síria

O objetivo da conversa e dos sorrisos é somente dizer: estamos num estado policial. Eu sei que estamos num estado policial. E você também sabe. Portanto aqui as coisas passam-se assim, as paredes têm ouvidos e não se pode dizer tudo. Quando estive na Síria — em Damasco e na província de Al Qamishli, no extremo norte do país — não se dizia a palavra “Israel”. Em alternativa pronunciava-se “Disneylândia”. “Quando eu estive na Disneylândia…”, “Ah sim?”, “Não, não é essa, é a outra” — esta troca de galhardetes era acompanhada com um sorriso. Não só pelo ridículo da situação, não só pelo militantismo de um país que tem uma parte do seu território — os Montes Golã — ilegalmente ocupado por Israel, e não só por ser evidente que qualquer agente da polícia secreta sabe que “Disneylândia” quer dizer “Israel”. O objetivo da conversa e dos sorrisos é somente dizer: estamos num estado policial. Eu sei que estamos num estado policial. E você também sabe. Portanto aqui as coisas passam-se assim, as paredes têm ouvidos e não se pode dizer tudo. Na verdade, Israel — perdão, a Disneylândia — era o mínimo.

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A Grande Regressão

Saberemos ser livres? A partir de hoje, 37 anos de democracia. Antes disso, 48 anos de ditadura. Na memória da gente viva, nós portugueses temos mais tempo de repressão do que de liberdade. Essa constatação é tudo menos simples. Ela explica muito primeiro; causa uma medonha ansiedade depois. Porquê? Porque faltam apenas onze anos para termos tanto tempo de democracia como tivemos de ditadura. Porquê? Porque, ao contrário da ditadura, a democracia é feita por nós mesmos, com as nossas mãos. O que tivermos para apresentar ao fim dos nossos 48 anos será aquilo de que formos capazes. Porquê? Porque se o resultado for medíocre, é porque nós — e não outros — fomos medíocres. Porquê? Porque este ano andámos para trás. É natural que nos afastemos do 25 de Abril; não é natural que nos aproximemos do 24. Ansiedade porquê? Porque no próximo ano faltarão apenas dez anos para o 25 de Abril. E dez anos não são nada. Porquê? Porque, às vezes, parece que o tempo não chega para fazer uma coisa digna dos sonhos daquele dia. Não uma utopia, não uma coisa de sonhos. Apenas uma coisa de todos e para todos.

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Bancocracia

Chegámos agora ao estágio final: o governo dos bancos, pelos bancos e para os bancos. Na verdade, foi ele que chegou até nós: desembarcou há dias na Portela. “O governo do povo, para o povo e pelo povo” já era. Chamava-se a isso a democracia, nos bons velhos tempos. Mas nas últimas décadas o regime foi sendo transmutado, passo a passo, numa coisa diferente: o governo dos ricos e poderosos, para os ricos e poderosos e pelos ricos e poderosos. Primeiro, tornou-se no governo “para os ricos”. Segundo uma teoria muito em voga, se nos ocupássemos em beneficiar o topo da pirâmide, a prosperidade escorreria por ali abaixo até à base. A coisa não funcionou. Disseram-nos então que era preciso dar o passo seguinte: o “governo pelos ricos”, seguindo os métodos deles e, em última análise, trazendo-os diretamente para o poder. As nossas escolas, os nossos hospitais, as nossas cidades e os nossos países teriam de ser “geridos” como “empresas”. Em vez de representantes teríamos gestores. Se eles souberam enriquecer para seu benefício, bastaria pô-los a mandar para que nos acontecesse o mesmo (ver: Itália, Berlusconi). Não funcionou. Chegámos então ao estágio em que o governo passou, simplesmente, a ser deles e não nosso.

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Chantagem, desrespeito e futilidade

A segunda palavra, “desrespeito”, vai direta para qualquer futuro governo saído das próximas eleições em Portugal. E como estão a correr as coisas na Grécia? Esta semana fiz essa pergunta a um colega grego, de direita, na intenção de agregar lições para Portugal. A resposta foi sucinta e — até para descontar um possível efeito de parcialidade da minha parte — vou resumi-la, parafraseando, nos três parágrafos seguintes. O comentário segue depois. 1. A primeira coisa de que precisas saber é que te vais sentir sob chantagem permanente. Naturalmente, eles têm o dinheiro e tu não; o dinheiro só passa para o teu lado se fizeres o que eles quiserem. Portanto, fazes o que eles querem. Só que, mesmo aí, o dinheiro passa por cima de ti, e vai para os bancos alemães. 2. Em segundo lugar, considera o efeito que isto tem sobre o governo do teu país. Como as pessoas sabem que, no fundo, o governo não manda nada, passam simplesmente a desconsiderá-lo. Quem manda é o FMI, Bruxelas, a Alemanha — seja quem for, ninguém eleito por ti. 3. O pior de tudo é que isto não funciona: a situação fica igual ou pior. Apesar de todo o esforço, as dívidas não diminuem, não crias confiança na economia, e as pessoas simplesmente desistem. Primeiro pensavam que isto ia durar três anos, depois cinco, e agora pelo menos dez. Tudo junto, isto resume-se nas três palavras que dão título a esta crónica. Elas dão da situação grega — e da nossa,

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