Espancar a economia significa, é bom lembrar, espancar indiretamente as pessoas.

A discussão sobre se o acordo com a troica é “bom” ou “mau” para nós, segue previsivelmente todos os passos dos nossos previsíveis debates domésticos. Antes de nos perguntarmos se os senhores estrangeiros nos trataram bem ou mal, como nós merecíamos ou não, será pedir muito que abandonemos por momentos a nossa subalternidade e que nos atribuamos o direito de analisar o trabalho da troica?

A primeira pergunta seria então: é este acordo realista ou irrealista? Valerá a pena espancar a nossa economia para a pôr na forma estipulada? Já o tentámos com os vários PEC, tal como a Grécia e Irlanda tentaram com os seus resgates, e o resultado foi pior do que o estado inicial. Se este acordo falhar, que se seguirá então? Mais espancamentos?

Espancar a economia significa, é bom lembrar, espancar indiretamente as pessoas. Cortar-lhes nos salários, aumentar-lhes os transportes, diminuir-lhes as redes de segurança em caso de desemprego ou doença, cortar-lhes os sonhos na educação ou no ensino superior, cada vez mais caro. Fazê-lo sem certeza dos resultados está na fronteira entre a futilidade e a crueldade.

Para analisar o acordo, precisamos de olhar para o conteúdo e para o contexto.

No conteúdo o acordo é duro, duríssimo até, mas levemente menos irrealista nas previsões do que nos casos grego e irlandês. Com dois fracassos no saco, a troica admite à partida uma recessão prolongada, e dá-nos mais um ano para atingir os objetivos covnvencionados.

A partir daí, o contexto é que é determinante — e o contexto está todo errado, condenando a prazo o exercício. Na verdade, nada do que fizerem Sócrates ou Passos Coelho poderá mudar o facto de que é o euro que está em crise. Dilacerantes eventos se anunciam para a moeda única nos próximos tempos. Há estranhas reuniões secretas, depois confirmadas. Na agenda estaria a saída da Grécia — depois negada. Basta uma reestruturação da dívida para que a crise chegue à Espanha.

As nossas culpas (e são muitas: um país desigual, uma elite predadora, uma estrutura fiscal desonesta) toldam-nos a vista de tal forma que não nos deixam ver esta diferença entre conteúdo e contexto, com prevalência para o segundo. Talvez uma metáfora ajude.

O que nos sugerem que façamos à contas portuguesas, e por extensão à nossa economia e sociedade, é o equivalente a pedir-nos que arrumemos os pratos de outra maneira no armário. Vamos esquecer por momentos se concordamos ou não com a nova arrumação: isso é o conteúdo.

O problema é que o soalho da casa está torto. O soalho é a zona euro. Quanto mais se entorta mais impossível fica arrumar o nosso armário. Na sala há 16 armários, alguns exercendo um peso sobre o soalho que faz afastarem-se as tábuas onde deveríamos pôr os pés. Os planos de há seis meses já não resolvem os problemas de agora, e os planos de agora arriscam-se a piorar os problemas de daqui a seis meses.

É que entretanto já não é só o soalho que está torto. As vigas do teto afastam-se, as paredes perdem o prumo. A casa é a União Europeia, e os seus pilares são o euro, Schengen, a estratégia 2020 (meu Zeus, onde já vai ela…) — todos em crise. Os alicerces da casa estão sobre um pântano de bancocracia e indecisão política.

A casa é o contexto. Vai ser preciso refazer-lhe os pilares, que deveriam passar a ser: coesão, integração, solidariedade e crescimento (ou emprego). E reconstruir tudo sobre o terreno firme da democracia.

Enquanto isto não for feito andaremos correndo à volta do armário, apontando histericamente uns para os outros, enquanto tudo se quebra lá dentro.

2 thoughts to “Conteúdo e contexto

  • Luís L. Tavares

    Bom dia. Estou de acordo com a análise mas quero fazer uma precisão técnica na sua metáfora. Ao construir uma casa começa-se (sempre) pelas fundações (alicerces)após o que vêm os pilares, vigas, etc.
    No seu artigo parece começar pelos pilares (coesão, integração…) e só depois vem o terreno firme da democracia o que não é possível na construção.
    Neste caso, a ordem dos factores não é arbitrária: como sair disto?
    Assina “um leitor assíduo” das suas crónicas políticas.

  • Jorge Mendes

    Bom dia

    Gostei de ler as metáforas como refere e estou totalmente de acordo. Parece-me que começamos a entender a tão falada “nova ordem” como uma inevitabilidade. Cá por mim já a entendo e aceito à bastante tempo. Como muito bem diz o problema está no euro e nos pressupostos onde assenta. Estão todos errados e como muito bem vamos assistindo, a desagregação da EU é inevitável. Só não sabemos quando.

    Os povos têm tendência (histórica)a separar-se…

    Um militante do BE lamentando a sua saída

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