E agora tudo se desfaz. Três países do euro já lá vão sem que a União saiba o que fazer à sua moeda. O FMI um dia destes deveria abster-se de intervir fragmentos da União enquanto a União não decidir sobre o que quer ser.

A maior parte das pessoas procura termos de comparação em vida para o que vai acontecendo. Vidas longas, ou mesmo vidas de jovens adultos, viram suceder coisas suficientes para nos irmos guiando. Quando o que vivemos não chega, procuramos termos de comparação nas coisas que nos contaram, ou procuramos na história longa, registada nos livros.
Esta é a forma que temos para agarrar no presente contínuo. Sem termos de comparação, não conseguimos tração sobre os nossos próprios tempos.
Em situação normais, isto não é grave. Somos suavemente impelidos para o futuro e — embora as tecnologias, as personagens e as modas mudem — a linha de tendência parece fazer sentido. Em situações anormais, acontece o que acontece a um carro na lama. Experimentamos explicações, ideologias e líderes como quem mete tábuas debaixo das rodas, à procura de uma que resulte. Deslizamos, rodamos no vazio; e quanto mais nos esforçamos, mais nos afundamos.
Este não é um problema da economia nem da política; é um problema da cognição humana, sem a qual não se resolve a economia nem a política pela nossa agência. Nós precisamos de entender para resolver. Caso contrário, as crises, os conflitos e as guerras acabam por resolver por nós — e contra nós.
Não é para alarmar, mas este parece ser um desses tempos. O que está a acontecer não nos puxa para o futuro — para o “futuro” em que acreditámos nas últimas décadas — mas para um passado de que não reconhecemos bem as feições. Esta crise já nos pareceu os anos 70, a Grande Depressão, o pré-Guerra e a crise de 1870. Com os factos em cima da mesa, a gravidade não parece comparável, exceto numa coisa: o presente e a memória — os termos de comparação — estão inconciliáveis.
Outra coisa que se comporta de forma muito diferente em tempos normais e em tempos de crise: a mediocridade.
Em tempos normais, a mediocridade é apenas ruído de fundo. Conformamo-nos a ela, como um tributo que se paga a tempos banais.
Foi assim que na União Europeia nos conformámos à mediocridade, e nos tornámos no continente das meias-medidas. O Euro foi feito pela metade. Schengen foi feito pela metade. A Carta dos Direitos Fundamentais é implementada pela metade. A Constituição foi feita pela metade. A democracia nem pela metade foi feita.
E agora tudo se isto se desfaz. Três países do euro já lá vão sem que a União saiba o que fazer à sua moeda (vivendo em Portugal, esqueçam os termos de comparação com as vindas passadas do FMI; isto é muito maior do que nós). O FMI um dia destes deveria abster-se de intervir fragmentos da União enquanto a União não decidir sobre o que quer ser. Itália e a França entretêm-se a desfazer Schengen por causa de vinte mil deslocados de guerra (a Tunísia recebeu mais de duzentos mil da Líbia).
Não há melhor exemplo, contudo, do que a própria presidência da União: a Hungria. Durante o seu mandato, a Hungria já conseguiu reinventar um sistema de censura (sob a passividade da Comissão, desde que este fosse limitado aos húngeros) e reescrever a Constituição contra a oposição e os países vizinhos (sob a indiferença envergonhada dos outros países da UE). Em troca, não fizeram nada pelos refugiados (embora tenham sido o primeiro país do mundo a ser objeto de uma ação concertada para auxílio dos seus refugiados) e têm como grande proposta a construção de uma Grande Muralha europeia para censurar conteúdos na internet.
Isto não augura nada de bom. Em tempos como este, a mediocridade não atrai só mediocridade; atrai perigo. A mesquinhez atrai vingança. O egoísmo atrai destruição.

One thought to “Tempos sem tração”

  • Nuno Rebelo

    Tal qual, Rui.

    Não queria começar pelo fim, mas quase se torna inevitável: pegando em palavras do Daniel Oliveira, num artigo escrito, creio, há duas semanas no Expresso, dá mesmo vontade de pegar nas palavras dele: “União Europeia? Foi uma boa ideia”.

    Não me agrada de todo olhar para a (des)União Europeia como assunto pré encerrado nem gostaria de a contemplar melancolicamente como os trabalhadores de um estaleiro naval em momento de encerramento olham para o seu desmantelamento. Mas a verdade que nos rodeia faz-nos difícil a tarefa de fugir a isso e vislumbrar atitudes, medidas, ideias que possam aparecer a breve trecho no espaço da União e que despertem o espírito ou pelo menos um certo espírito da União é apenas matéria abaixo do sonhável.

    E são essas duas palavras, Rui, aquelas que saltam em bold, tamanho enorme e a neon: egoísmo e mesquinhez. Quer-se direitos, não se quer deveres. Quer-se ir buscar à Europa o que ela nos pode dar de bom, internamente, mas não se quer dar àquela o que pode ser para o bem comum (oh, conceito tão arredado nos dias que correm…). É assim que os países pensam.

    Ou se avança rapidamente para o federalismo ou se cria uma argamassa qualquer que se despeje vigorosamente por todos os membros e que confira alguma viabilidade à Europa nos moldes em que ela se apresenta agora.

    Mas a tomar-se a opção do federalismo que se faça com ponderação para não cometer o erro que se cometeu (vemos agora) com uma entrada nada ponderada no €.

    Assim não sendo, convoque-se uma comissão liquidatária, mas de outro país, que em Portugal as ditas andam também de candeias às avessas.

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