A sua visão do mundo era cruel e sem compaixão. Os civis mereciam tanto morrer como os militares; dizia combater os infiéis, mas matava também muçulmanos. O dia de glória, para ele, chegou quando matou três mil pessoas ao destruir as duas torres em Nova Iorque que tanto haviam impressionado o seu pai e irmãos como obra de engenharia.

Disseram-me uma vez para nunca me esquecer que todas as vítimas têm família — mas também têm família os criminosos, os perpetradores, os cúmplices, os suicidas, os assassinos em série.
Com Osama bin Laden será fácil lembrá-lo. A sua família era invulgar. O homem mais importante era o pai, um imigrante vindo do Iémen, analfabeto e zarolho, chamado Mohammed bin Laden. Chegado à Arábia Saudita quando ainda não havia país com esse nome, Mohammed bin Laden fez todo o tipo de trabalhos menores na cidade de Jedá, até lhe caber uma empreitada no porto da cidade que, parece, chamou a atenção da Casa de Saud. O dinheiro do petróleo fez dos Saud uma dinastia rica e poderosa. Mohammed bin Laden passou a encarregar-se da construção de edifícios modernos, como aeroportos, e a sua empresa tornou-se num vasto empório — o Saudi Bin Laden Group — com escritórios no reino e fora dele.
Mohammed Bin Laden viria a morrer num desastre de avião. Casou mais de vinte vezes (embora, de acordo com os preceitos da sua religião, só mantivesse quatro esposas em simultâneo, divorciando-se sucessivamente da quarta mulher para casar novamente) e teve cerca de cinquenta filhos, a quem deu um conforto luxuoso, bons estudos e uma vida internacional (leia-se o livro de Steve Coll, Os Bin Laden, ed. Tinta-da-China, para acompanhar a fascinante saga da família).
O mais importante destes filhos era Salem bin Laden, que herdou a presidência das empresas e viria mais tarde a morrer num desastre de avião.
Osama não tinha grande importância na família. Filho número 17, o único de um breve casamento com uma mulher síria de 15 anos a quem por vezes chamavam depreciativamente, “a escrava”.
Quando era criança e adolescente, talvez Osama tenha sabido de um japonês — na verdade americano de pais japoneses — que trabalhava no reino, projetando algumas das obras que empreiteiros como o seu pai construíam — o aeroporto do rei Fahd, o Banco Central Saudita que aparecia até nas notas de um dinar — e que tinha ganho um concurso para construir as duas torres mais altas do mundo, em Nova Iorque. O projeto causou sensação no mundo e no reino; chegaram a trabalhar nele engenheiros sauditas; talvez alguns tenham reparado como o seu desenho era parecido com uma mesquita (esta é a história que conto em O Arquitecto, também editado pela Tinta-da-China).
Osama não tinha ambições menos grandiosas do que o pai ou os irmãos mais importantes do que ele. Tinha-as, de certa forma, maiores ainda, mas às avessas. Estavam na guerra, enendida como interseção da religião e da política. Primeiro contra os russos, tendo como aliados os americanos. Depois contra os americanos, tendo por inimigos os próprios sauditas (deixou de pronunciar o nome do país). Depois contra todos os que não eram seus aliados.
A sua visão do mundo era cruel e sem compaixão. Os civis mereciam tanto morrer como os militares; dizia combater os infiéis, mas matava também muçulmanos. O dia de glória, para ele, chegou quando matou três mil pessoas ao destruir as duas torres em Nova Iorque que tanto haviam impressionado o seu pai e irmãos como obra de engenharia.
Osama também estudou engenharia, mas foi pela destruição que se tornou no Bin Laden mais importante da família e do mundo, numa espécie de bizarra antítese do pai.
A mãe de Osama está ainda viva. Até os assassinos mais condenáveis, aqueles cuja mente não entendemos, aqueles cuja morte chega a ser comemorada, nasceram de um ventre humano. Este é um pensamento óbvio, mas não fútil.

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