Pode haver, isso sim, sociedades com graus de segurança razoáveis — desde que alicerçadas precisamente no respeito dos direitos fundamentais. Quando uma ideia nasce torta, dificilmente se endireita. Mas enquanto ninguém dá por isso, podemos construir um edifício em cima dela. A ideia de que vos quero falar parece sensata; já a ouvi pronunciada dezenas ou centenas de vezes por ministros, comissários europeus, altos-funcionários da administração dos EUA e académicos vários: “temos de achar um meio termo entre os direitos fundamentais e a segurança dos cidadãos”. Eles parecem sempre todos muito responsáveis quando dizem isto; mas isso não os livra de estar errados. A imagem por detrás desta frase é a de que há um sistema de vasos comunicantes entre A (os direitos, liberdades e garantias) e B (a segurança). Se tirarmos um bocadinho de um lado, — assim vai implícito —, ganharemos um bocadinho do outro. Como todos queremos segurança em concreto e em imediato, aceitamos conceder liberdade que naquele momento é apenas abstrata e adiada. Em primeiro lugar, isto não é verdade.