Que estranho mundo este, em que as ferramentas das democracias podem transformar a democracia em mera ferramenta. Em quepodemos seguir acontecimentos em direto, em três lugares diferentes, e não determinar nada do que se passa onde estamos. Onde as democracias e as ditaduras estão a ficar demasiado parecidas. Antes, quando ocorria um crime, o normal era que a investigação se centrasse nos suspeitos. Como um suspeito poderia ser inocente ou culpado, era sempre possível que um inocente fosse investigado por engano. Hoje isso mudou. O novo paradigma é investigar toda a gente, inocentes ou culpados, antes de serem suspeitos de um crime. Desta forma, 99,99% das pessoas investigadas são não apenas inocentes, mas nem sequer suspeitas. Mas há mais: o medo e a tecnologia permitiram que toda a gente passe a ser investigada mesmo sem ter havido crime. Todas as nossas chamadas telefónicas. Todas as nossas mensagens de email. Toda a nossa atividade na rede. Todas as nossas transações financeiras. Todas as nossas viagens de avião. Tudo isto (e mais) é sujeito a processos analíticos sistemáticos, garimpo de dados e deteção de padrões. Se alguma coisa chama a atenção, podemos passar para uma lista negra ou uma vigilância acrescida sem sequer dar por isso. Quando foi que assinámos a autorização para que isto fosse feito? Quando foi que concordámos? Estávamos distraídos?