As dívidas públicas só aumentaram depois da crise, em consequência da crise. Logo, não podem ter sido a causa. São a febre, e não a doença.

Ao ministro Vítor Gaspar, que mencionou as “condições meteorológicas” como uma das causas do pouco investimento na construção civil e do permanente atraso da recuperação económica, quem deu a melhor resposta foi Clint Eastwood, num velho filme de caubóis chamado “O Rebelde do Kansas”:

“Não me mijem pelas costas abaixo para depois me dizerem que está a chover”.

Não é chuva, nem é vento, o que está a empurrar a economia para baixo. Gente é, certamente. A chuva não bate assim.

As políticas contracionárias, levadas a cabo por ministros como Vítor Gaspar, são contracionárias. E não respondem às verdadeiras causas da crise.

Considerem um discurso recente do português mais poderoso da União Europeia, o número dois do Banco Central Europeu, Vítor Constâncio. Falando em Atenas no passado 23 de maio, sobre as causas e transmissão da atual crise, Constâncio foi taxativo: a dívida pública não foi a causa da crise.

Em primeiro lugar, países que tinham dívida pública muito baixa, e em tendência descendente, como Espanha e Irlanda, acabaram por ter uma crise difícil. Países que não respeitaram os limites do deficit, como Alemanha e França, têm-na passado incólumes. Em segundo lugar, e mais importante, mesmo em países como Itália e Portugal a dívida estava a descer antes da crise, e na Grécia (com os números verdadeiros) a dívida estava a aumentar pouco. As dívidas públicas só aumentaram depois da crise, em consequência da crise. Logo, não podem ter sido a causa. São a febre, e não a doença.

Já a dívida privada, essa sim, aumentou significativamente antes da crise nos países que viriam depois a “rebentar”: Grécia (217%), Irlanda (101%), Espanha (75,2%) e Portugal (49%). E este endividamento é, em larga medida, catapultado pelo aumento de atividade interbancária europeia, para lá das fronteiras nacionais, potenciado pela introdução do euro.

Numa palavra, foram os bancos.

Nos anos 90 os bancos europeus, em particular do centro, encheram os periféricos de crédito fácil como parte das suas estratégias de crescimento. O comportamento não era muito diferente dos seus colegas dos EUA, em cujos produtos tóxicos os bancos europeus se alambazaram. A liberdade de circulação de capitais não deixou os estados controlarem este processo. Quando a bolha rebentou nos EUA, os bancos europeus estavam expostos, e os dos países periféricos fragilizados dos dois lados, dos seus clientes, e dos seus credores. Os bancos foram salvos pelos estados e, em troca, mantiveram as torneiras da economia fechadas. Com privados desempregados, e empresas a falir, os estados tiveram que entrar com os subsídios de desemprego e aguentar a descida na recolha de impostos.

A melhor parte do discurso de Vítor Constâncio vem depois. É aquela em que ele diz, após falar do desemprego jovem: “não obstante tudo isto, agora não é o momento para mudar de rumo”. Juro que esta é uma citação à letra. Por outras palavras: as políticas atuais foram baseadas num diagnóstico errado, não foram eficazes, provocaram sofrimento desnecessário e agravaram o problema. Vamos ter mais do mesmo, se faz favor.
Esta chuva, afinal, vem dos bancos e dos seus aliados políticos. E, como notaria de imediato Clint Eastwood, tem um sabor ácido.

(Crónica publicada no jornal Público em 10 de Junho de 2013)

7 thoughts to “O preço da chuva mijona

  • alexandre

    Grande Vítor Constâncio ! O melhor que o Banco de Portugal já teve!

    Veja-se no consulado do Sr. Pinto de Sousa de 2005 a 2009 !

    Grandes “resultados” :

    BPN, BPP, BCP, etc….

    Faz tanta falta para salvar Portugal, que saudades…..

    Alexandre

  • Raul peixoto

    O grupo dos Verdes no Parlamento Europeu está contra o tratado de livre comércio com os EUA devido a isso implicar a inundação no mercado Europeu de transgénicos ( que comprovadamente provocam cancro e destróiem ecossistemas e as sementes naturais através da contaminação) e produtos alimentares cheios de doses altíssimas de agrotóxicos que provocam cancro.
    O Rui Tavares sabia disto? E pode explicar melhor o que se passa nesta negociação?

    Agradecia uma resposta.
    Obrigado

  • carlos reis

    Gostaria de perguntar ao Sr Rui Peixoto que estudos científicos são esses que comprovam que plantas transgénicas provocam cancro. Aagradecia por favor que deixasse aqui os autores, o título do estudo e a revista científica onde foram publicados.
    Já agora também gostaria de saber de que forma as plantas transgénicas, nomeadamente o milho, destrói as sementes “naturais”. Desde já o meu muito obrigado

  • Dr. Cupretinho de Obama

    A DIREITA OU A ESQUERDA POUCA PROPENSÃO TÊM PARA RESOLVER PROBLEMAS

    TÊM GRANDE CAPACIDADE PARA DISCUTIREM SOBRE PICUINHICES

    SEM CHEGAREM A LADO NENHUM

    RODANDO INCESSANTEMENTE NUMA DAS INUMERÁVEIS ROTUNDAS

    A ÚNICA COISA QUE CONSTRUIRAM EM CONJUNTO

    OU CON JUNTO

    PINGAM PALAVRAS NUMEROSAS SOBRE COISA NENHUMA

    DISCUTEM AFINCADAMENTE SOBRE TODOS OS VERBOS

    DISCUTEM SOBRE EMOÇÕES E FOGEM DOS FACTOS

    COSPEM VÍRGULAS E PONTOS FINAIS

    SOBRE FRASES SEM SENTIDO OU DE SENTIDO ÚNICO

    TENTAM CONSEGUIR (OU CON SEGUIR) EMPATIA COM AS MASSAS MOLES

    QUE TORNAM AS DITAS DURAS

    OU AS DITADURAS EM MASSAS MOLES
    AS DÍVIDAS PÚBICAS QUAIS LOMBRIGAS ESTAVAM ALAPADAS NOS INTESTINOS DO ESTADO ASS SOCIAL OU A S.S. OCIO ALL OCIDENTAL UM DESSES…
    19 de Junho de 2013 at 1:47

  • Dr. Cupretinho de Obama

    escudos? uso-os para forrar o lixo

  • Ricardo

    Neste assunto da crise e o caminho a nao seguir estou inteiramente com o Rui Tavares.

    No caso dos transgénicos, subscrevo o pedido de fontes para se poder ler sobre o que diz. Especialmente ao nível de trans-contaminaçao, uma vez que a maioria das sementes vem com o chamado Terminator Gene (ao qual Os Verdes se opoem devido ao elemento social de obrigar os agricultores a invariavelmente terem de comprar a totalidade das sementes que necessitam).

    E no que à trans-contaminaçao diz respeito, ainda nao tenho cloroplastos por comer muitas verduras, nem chifres por comer bifes de vaca mal passados. Espero nao ser o único…

  • Ricardo

    Sobre o que diz o Raul, entenda-se…

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