Que estranho mundo este, em que as ferramentas das democracias podem transformar a democracia em mera ferramenta. Em quepodemos seguir acontecimentos em direto, em três lugares diferentes, e não determinar nada do que se passa onde estamos. Onde as democracias e as ditaduras estão a ficar demasiado parecidas.

Antes, quando ocorria um crime, o normal era que a investigação se centrasse nos suspeitos. Como um suspeito poderia ser inocente ou culpado, era sempre possível que um inocente fosse investigado por engano.

Hoje isso mudou. O novo paradigma é investigar toda a gente, inocentes ou culpados, antes de serem suspeitos de um crime. Desta forma, 99,99% das pessoas investigadas são não apenas inocentes, mas nem sequer suspeitas. Mas há mais: o medo e a tecnologia permitiram que toda a gente passe a ser investigada mesmo sem ter havido crime. Todas as nossas chamadas telefónicas. Todas as nossas mensagens de email. Toda a nossa atividade na rede. Todas as nossas transações financeiras. Todas as nossas viagens de avião. Tudo isto (e mais) é sujeito a processos analíticos sistemáticos, garimpo de dados e deteção de padrões. Se alguma coisa chama a atenção, podemos passar para uma lista negra ou uma vigilância acrescida sem sequer dar por isso.

Quando foi que assinámos a autorização para que isto fosse feito? Quando foi que concordámos? Estávamos distraídos?

Não. Fomos tanto parte desta deliberação quanto os turcos decidiram que um dos últimos parques no centro de Istambul iria ser substituído por um centro comercial. Fomos tanto parte desta deliberação quanto os gregos decidiram que a sua televisão e rádio públicas iriam suspender as transmissões para poupar dinheiro. Ou seja: não fomos parte.

E, no entanto, enquanto escrevo isto, a polícia turca despeja gás lacrimogéneo sobre os manifestantes que tentam resistir no centro de Istambul. Milhares de gregos começam a concentrar-se junto à televisão público, incrédulos de que a transmissão vá mesmo ser interrompida à meia-noite. Ainda não se sabe como isto vai acabar.

E algures num hotel em Hong-Kong, um homem de 29 anos chamado Edward Snowden aguarda de forma aparentemente tranquilaque o venham prender, extraditar e reduzir a sua vida a pouco ou quase nada. Foi ele que revelou documentos comprovando aquilo de que há muito se suspeitava: que a Agência Nacional de Segurança norte-americana (NSA, na sigla original) intercepta todas as comunicações possíveis, em todo o mundo, com poucas cautelas constitucionais para com os cidadãos dos EUA, e absolutamente nenhumas barreiras de proteção de dados para os cidadãos estrangeiros como nós.

Agora há quem lhe chame traidor e há quem lhe chame herói, mas na única entrevista dada até agora por Snowden ele dá a única explicação para o seu ato que eu preciso de subscrever: “deveria ser o público a tomar estas decisões”. O medo e a tecnologia não podem tomar decisões por nós.

Que estranho mundo este, em que as ferramentas das democracias podem transformar a democracia em mera ferramenta. Em quepodemos seguir acontecimentos em direto, em três lugares diferentes, e não determinar nada do que se passa onde estamos. Onde as democracias e as ditaduras estão a ficar demasiado parecidas.

Não nos enganemos. No tempo de Nelson Mandela as coisas eram mais difíceis, muito mais, mas mais simples também. No mundoem que vamos ter de nos habituar a viver sem Mandela, as coisas são mais fáceis — centenas de milhar de pessoas poderiam ter feito o que fez Snowden, diminuindo o custo individual do ato — mas inventamos sempre maneira de as complicar. Porque não é o medo, nem é a tecnologia, que são as forças motrizes do que está a acontecer. Essas são, ainda, a indiferença e falta de solidariedade.

(Crónica publicada no jornal Público em 12 de Junho de 2013)

2 thoughts to “Que mundo este

  • Samuel Viana

    A ironia foi Snowden ter de se exilar num país que não é uma Democracia, para fugir de um país que supostamente se arenga em dizer que é o “campeão da liberdade”. Antigamente, costumava ser ao contrário, ou seja, os lutadores contra as ditaduras refugiavam-se em países livres… até neste ponto isso mudou !

  • Gonçalo Veiga

    Gostei da reflexão.

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