Arquivo mensal para November, 2011

A crise do euro é uma crise do euro

Claro que é do contágio! Porque o euro não é suficientemente robusto, e porque se recusaram a criar-lhe os anti-corpos adequados (como os eurobonds) contra as infeções oportunistas, e de oportunistas.

No tutano, há só duas posições no debate sobre esta crise. O resto — os swaps e os eurobonds, o FEEF e a troika, o Merkozy e o Gaspar — é ilustração. A discussão era a mesma há quase dois anos, e é a mesma agora.

Há quase dois anos, tínhamos de um lado os que diziam: esta é uma crise do euro (a chamada posição “sistémica”). Do outro lado, tínhamos os que respondiam: isto não é uma crise do euro, mas apenas um problema na Grécia (a “dívida soberana”).

Aqueles que defendiam a segunda posição levaram um banho de realidade. Onde diziam que “isto” era só um problema da Grécia passaram a dizer: “o euro não está em crise; isto é só um problema de Grécia e da Irlanda”. Logo depois: “o euro não está em crise; isto é só um problema da Grécia, da Irlanda e de Portugal”. Depois: “o euro não está em crise; isto é só um problema da Grécia, da Irlanda, de Portugal e da Itália”. “Ah, e da Espanha, também”.

Mas calma, gente!, que o euro, como nós sabemos, não está em crise: isto agora é só um problema da Grécia, da Irlanda, de Portugal, da Itália, da Espanha. E da Bélgica. Da França. Da Áustria. Até da Holanda. Da Finlândia também. E — oh diabo — da Alemanha. Continuar a ler ‘A crise do euro é uma crise do euro’

A verdadeira crise

Em cada três jovens, um está desempregado, outro está precário, e duvido que o terceiro esteja a fazer aquilo para que foi formado. Comparado com isto, os juros da dívida, a banca falida, e o euro a desmanchar-se podem ser a crise imediata. Mas não são a crise verdadeira.

Protesto Geração à Rasca - 12 de Março de 2011

Por que está tudo a estourar ao mesmo tempo? Essa era a pergunta do início do ano. Tinha rebentado uma revolução na Tunísia antes do Natal, logo seguida por uma no Egito, no Bahrain, na Líbia, na Síria, e revoltas em Marrocos e na Jordânia, pelo menos. Qual era a explicação? No dia 5 de fevereiro um jornalista da BBC chamado Paul Mason tentou achar uma resposta e escreveu um texto com vinte razões, todas interessantes e discutíveis. A primeira é a crucial:

“Na raiz de tudo isto está um novo tipo sociológico: o licenciado sem futuro”.

Hmm. Vale a pena explorar esta ideia Continuar a ler ‘A verdadeira crise’

Saudando a greve geral – o apoio dos cientistas sociais

Um conjunto de cientistas sociais – o número já vai em 150, e é de destacar destacar a diversidade disciplinar, de instituições, de origem e de política, a par do reconhecimento de qualidade científica que geralmente granjearam (e, talvez não totalmente irrelevante, todos os vencedores do Prémio Sedas Nunes são signatários) – subscreveram o texto “Em defesa da dignidade, do trabalho e dos estado social, apoiamos a greve geral”, e eu também.

Deixo-vos aqui em baixo o documento, bem como a lista dos nomes já incluídos.

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A cegueira

É da natureza humana acreditar que haja necessariamente uma estratégia nesta crise ou um plano de contingência pronto a entrar em marcha contra o pior, quando chegar o momento. E se não for assim? 

O novo governo espanhol, eleito ontem, pede aos mercados que lhe concedam “ao menos meia hora” para dar início à austeridade com que espera tornar o país mais competitivo, diminuindo as suas importações e aumentando as suas exportações. Mas há um problema: o principal destino para as exportações espanholas é a França, cujo governo quer importar menos. E o terceiro destino das exportações espanholas é Portugal, cujo governo quer, além de “empobrecer o país”, importar menos e exportar mais. Ora, o primeiro destino das exportações portuguesas é Espanha, cujo governo quer importar menos e exportar mais. Expliquem-me como é suposto que isto dê resultado.

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O Secretariado de Propaganda Nacional

Se para os portugueses João Duque recomenda a ignorância, para os estrangeiros tem uma receita simples: que os enganemos.

Por onde começar? O líder do grupo de trabalho sobre a RTP, João Duque, defende que os portugueses tenham o mínimo de informação possível sobre o que se passa no mundo, e que o mundo tenha informação falsificada e pouco credível sobre o que se passa em Portugal.

É isto, não é? Em declarações que fez ontem, João Duque disse: “Internamente, não vemos necessidade de a televisão de serviço público estar a fazer concorrência e a ter um tipo de atitude que tem a mesma lógica da actividade privada”. Nesse pressuposto defendeu o fim dos debates políticos e resumir a informação ao mínimo essencial no canal de serviço público que restar, porque “há sempre subjetividade sobre o que é uma notícia seca, objetiva” e o “o que se pretende é minimizar essa subjetividade.” Continuar a ler ‘O Secretariado de Propaganda Nacional’

Brincando com o fogo

“O incêndio tem agora vários focos. O pânico generalizou-se e ninguém se entende.”

Imagine-se uma rua. Vinte e sete casas espalhadas ao longo dela, das quais dez são vivendas; outras dezassete têm paredes meias. O incêndio começou numa destas, onde o vizinho grego guardava papel velho e toda a espécie de tralha, sem dizer nada a ninguém. Num instante as chamas já eram maiores do que o homem.

Não era suposto aquilo acontecer: na Comissão de Moradores todos tinham prometido limitar as quantidades de papel e madeira em casa. Mas e agora?

Algumas das casas mais ricas tinham reservatórios de água e os transeuntes correram a bater à porta da vizinha alemã. “Agora não posso”, disse ela, “tenho visitas” Continuar a ler ‘Brincando com o fogo’

Crónica de uma revolução anunciada

Lembremo-nos de que uma democracia só morre quando os cidadãos não a defendem.

Há um provérbio alemão que diz: “As revoluções anunciadas nunca acontecem”. É uma pena. Porque nós precisamos de uma revolução. Mas para ela acontecer, é necessário anunciá-la: uma revolução democrática na União Europeia.

Sem essa revolução, a União Europeia irá dilacerar-se debaixo dos nossos olhos, num processo que poderá levar atrás as democracias nacionais.

Já está a acontecer, e não é bonito. Continuar a ler ‘Crónica de uma revolução anunciada’

Oh, Zeus!

Telegrama. De: Dilma. Para: Merkozy. Texto: “inventem outra”.

Dá espasmos ler uma entrevista como a de António José Seguro ao Expresso deste sábado. Espasmos. António José Seguro vai abster-se no votação inicial do orçamento de estado e avisa já que se vai abster na votação final. Mas o que Seguro queria mesmo era poder votar a favor. É preciso controlar os espasmos, chegar ao fim da resposta seguinte. “Este não é o meu orçamento”, diz, “mas este é o meu país”. Precisamente: é este país que vai ser objeto deste orçamento. Costuma dizer-se do PCP ou do Bloco que não seriam capazes de votar a favor de nenhum orçamento. Seguro resume-se a isto: não há orçamento que ele seja capaz de votar contra. A meio, lá aparece um lampejo de lucidez: “os portugueses foram muito claros: querem o PS na oposição, deram-lhe 28%”. Pois foi. E sabes para que foi, Tó-Zé? PARA FAZER OPOSIÇÃO.

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Memorando para uma oposição consequente: “lixem-nos com equidade” não é um bom slogan. Continuar a ler ‘Oh, Zeus!’

Estritamente confidencial

 O remendo — perdão, a “solução abrangente” — que inventaram desta vez não durou sequer uma semana.

Há uma semana, tive o cuidado de voltar à minha mesa para recolher um maço de folhas esquecido que tinha a menção, em letras garrafais, de “ESTRITAMENTE CONFIDENCIAL”.

Não precisava de me ter preocupado. Na mesa ao lado, uma colega tinha deixado para trás o mesmo documento. Duas mesas abaixo, lá estava outro exemplar. Olhando em volta, o mesmo documento secreto pipocava aqui e ali. À entrada de uma reunião, assistentes tinham distribuído dezenas deles. E isto aconteceu apenas depois do documento ter aparecido em milhares de blogues e em tudo o que era jornal do mundo.

Esse documento era a avaliação do plano de resgate da Grécia feito pela própria troica Continuar a ler ‘Estritamente confidencial’

O público

Para muita gente, “público” é o que é do estado, e o estado é simplesmente o governo. Nada mais errado. 

Uma das grandes coisas que este jornal tem é o seu nome, escolhido pelo seu primeiro diretor, Vicente Jorge Silva. Presumo que ele tenha tido de levar a cabo um persistente trabalho de persuasão, porque “Público” é um daqueles nomes que só parece evidente depois de não ter parecido evidente durante bastante tempo. Sei que foi assim quando o jornal apareceu, com um nome que não era de jornal, e que depois se tornou num clássico instantâneo (o cabeçalho original, de Henrique Cayatte, com as letras muitos chegadas umas às outras como os fustes de uma colunata num templo greco-romano, ajudavam a dar-lhe essa dignidade).

O nome era bom porque “o público” está para a nossa sociedade como o oxigénio está para os nossos organismos. Continuar a ler ‘O público’