É da natureza humana acreditar que haja necessariamente uma estratégia nesta crise ou um plano de contingência pronto a entrar em marcha contra o pior, quando chegar o momento. E se não for assim? 

O novo governo espanhol, eleito ontem, pede aos mercados que lhe concedam “ao menos meia hora” para dar início à austeridade com que espera tornar o país mais competitivo, diminuindo as suas importações e aumentando as suas exportações. Mas há um problema: o principal destino para as exportações espanholas é a França, cujo governo quer importar menos. E o terceiro destino das exportações espanholas é Portugal, cujo governo quer, além de “empobrecer o país”, importar menos e exportar mais. Ora, o primeiro destino das exportações portuguesas é Espanha, cujo governo quer importar menos e exportar mais. Expliquem-me como é suposto que isto dê resultado.

A Itália também promete austeridade. Mas tem um problema: os juros da sua dívida chegaram a um nível em que a dívida aumenta sempre em proporção da sua economia, com austeridade ou sem ela (já agora: a França é o primeiro destino das suas exportações italianas).

Em meia dúzia de anos talvez fosse possível mudar os destinos de exportações destes países (para a China! para a China!). Mas a Itália e a Espanha não têm meia-dúzia de anos. Talvez nem sequer meia-dúzia de meses. Quanto durará a agonia depende do Banco Central Europeu, que a contragosto compra alguma dívida destes países para os juros não entrarem em espiral mas se recusa a tornar as dívidas sustentáveis.

Ambos os países estão com a corda na garganta, o primeiro já sufocando, o segundo capaz de respirar por mais um pouco. O BCE é como alguém que vendo um enforcado se dispõe de vez em quando a segurá-lo pelas pernas mas se recusa a desatar-lhe o nó da corda.

Mesmo antes de a Itália entrar em incumprimento, os bancos franceses sentirão o peso de toda a dívida italiana que trazem acumulada. A França perderá o seu precioso AAA e os fundos de pensões e investimentos mais sérios serão forçados a desembaraçar-se da dívida francesa e passá-la aos especuladores. Toda a lógica do Fundo Especial de Estabilização Financeira ruirá nesse momento, mas toda a gente terá mais com que se preocupar, porque o próprio euro estará em perigo.

Não está escrito em lado nenhum que o contágio se faça, como até agora, país a país e dando à União Europeia algum tempo para respirar e encenar as suas cimeiras. Tanto a Itália como a Espanha eram, individualmente, demasiado grandes para resgatar; um cenário em que estes dois países sejam contagiados em simultâneo é demasiado grande para precaver. A consciência de que assim é trará uma segunda depressão, mais veloz e mais forte do que qualquer reação.

É da natureza humana acreditar que haja necessariamente uma estratégia nesta crise ou um plano de contingência pronto a entrar em marcha contra o pior, quando chegar o momento.

E se não for assim? E se tivermos subestimado a mistura de teimosia, ganância e estupidez tão peculiar ao governo dos assuntos humanos? O que nos leva a crer que, no pior momento, os responsáveis façam o que for necessário? Quantos “piores momentos” não passaram já sem que eles tivessem agido? Se houvesse alguma estratégia por detrás de tudo isto, teríamos porventura chegado aonde chegámos?

A hipótese alternativa é que, como no livro de Saramago, à cegueira de um se siga a cegueira de todos. Os acontecimentos dos últimos dois anos parecem dar-lhe razão e talvez já tenha até chegado o momento em que cada um, preso ao seu interesse imediato, arraste os outros para o abismo de que todos não conseguirão sair.

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