Claro-escuro

Turistas na Fontana di Trevi [março 2010] Caravaggio deu dramatismo à sua Itália dramática; Hopper subtraiu triunfalismo aos seus EUA triunfalistas. Roma. — Uma multidão espera às portas das Escuderias do Quirinal, duas horas de fila, para poder ver reunidas duas dezenas de quadros de Caravaggio, uma ocasião rara. Caravaggio não pintou muito. A vida intervinha sempre e não era uma vida fácil num tempo fácil. Quando se tornou famoso, por volta de 1600, era tempo de fogueiras. Queimaram Giordano Bruno numa praça ali abaixo, o Campo dei Fiori. Caravaggio, enquanto durou 38 anos, jogou muito, fornicou muito, matou um homem, fugiu para cada vez mais longe — Nápoles, a Sicília, Malta. Acho que ele era do género que se pergunta “e se?”

Read more
Boletim de Estrasburgo

À distância vejo que uma questão continua a pipocar de quando em vez na corrida sobre a liderança do PSD. Segundo o debate entre Pedro Passos Coelho e Paulo Rangel, continua em jogo saber se o discurso deste último no Parlamento Europeu sobre o caso PT/TVI, faz agora cerca de um mês. Afinal, de que se tratou? Foi uma corajosa defesa da liberdade de imprensa, como sugerem os apoiantes de Paulo Rangel, alertando a Europa para o que se estava a passar em Portugal? Ou foi uma irresponsabilidade, como insinua Pedro Passos Coelho e o PS, fazer tal discurso quando Portugal estava sob o olhar das agências de rating, colocando assim em risco a nossa economia? Pessoas que sabem que estou no Parlamento Europeu perguntam-me isto. A minha resposta é: nem uma coisa nem outra.

Read more
Corte uma perna

Pois é: os salários são um custo. Mas também são uma fonte de procura. “Quer perder vinte quilos de uma vez?” — diz a velha anedota, e responde: “corte uma perna!” Nesta altura do campeonato já não espanta que a opinião dominante no nosso país seja uma versão desta anedota em teoria económica. Vários economistas, tão vociferantes quanto insistentes, pretendem que Portugal precisa de medidas radicais para resolver os seus problemas do défice e da dívida. A solução proposta, com ar de quem não faz mais do que anunciar o inevitável, é cortar nos salários dos portugueses. Que tal dez por cento para começar? À primeira vista, faz sentido.

Read more
Está lá tudo

O país tem cidadãos suficientes para que as coisas sejam bem feitas. Só que ninguém os quer ouvir. Chamo a vossa atenção para uma reportagem de cinco minutos que passou em 2008 no programa “Biosfera” da RTP2. Pus uma reprodução dela no meu blogue (http://ruitavares.net) e há várias outras a correr pela internet. O tema dessa reportagem é o efeito das intempéries nas ribeiras da Ilha da Madeira, nomeadamente em caso de chuvadas concentradas e muito abundantes. A razão por que gostaria que vissem esse vídeo é muito simples: está lá tudo. Nas palavras claríssimas de uma porta-voz da organização ambientalista Quercus e de um professor de Geologia da Universidade da Madeira, está explicado que as chuvadas como as que ocorreram há uma semana na Madeira são pouco frequentes, sim, mas descritas e conhecidas e esperadas. A formação das enxurradas de lama que todos vimos em imagem real aparece pedagogicamente narrada através de uma animação. E indicam-se alguns princípios de planeamento defensivo: à volta das ribeiras, sugere o professor de Geologia, devem construir-se jardins e parques, “que também são precisos e são fáceis de evacuar”; manda o simples bom senso que se deva evitar a construção de infraestruturas, algumas das quais importantes (hospitais, quartéis de bombeiros) nas proximidades das ribeiras.

Read more
Que ganhamos nós com isto?

Mas sim, é possível que a negação chegue. Se o cansaço nos vencer. Era fim de 1995, inícios de 1996, e eu era voluntário na primeira campanha de Jorge Sampaio nas presidenciais, contra Cavaco Silva. Estávamos reunidos numa sala a imaginar quem aceitaria manifestar o seu apoio ao nosso candidato no jornal de campanha. Entre vários telefonemas, lembrámo-nos de ligar a um futebolista internacional da “geração de ouro”. Depois de lhe dizermos ao que vínhamos, a resposta dele foi: “olha, vou dizer-te o mesmo que já disse ao outro candidato: e que ganho eu com isso?” Há gente assim. Que nunca deixa de fazer o seu cálculo de ganhos e perdas e tomar as suas decisões estritamente por esta bitola. Há gente assim em todas as profissões. Nos políticos também. Gente capaz de dizer: “olha lá, tu não me apoiaste, que ganho eu em apoiar-te a ti?”. Talvez tenha mesmo que haver gente assim, não sei. Mas sei que a sorte deles é que o resto da gente não é assim.

Read more
Está aqui tudo, não é?

Tranquilamente, atempadamente, sem populismos. Este país tem cidadãos suficientes para que as coisas se façam bem. Mas todo os nosso sistema deliberativo está feito às avessas, sem democracia, no maior dos desprezos pelo bem público.

Read more
A enxurrada

E a lição política a tirar destas coisas — no país que viveu 1755 — é que para a próxima temos de nos sair melhor. É um daqueles dias em que escrever sobre algo que não seja a Madeira parece impróprio. Mas também é um daqueles dias em que escrever sobre o que aconteceu na Madeira parece não acrescentar nada. As enxurradas de lama que desceram as montanhas da ilha levando pessoas, pontes, pedaços de edifícios e carros relembraram-nos — numa pausa da relação enjoada entre o Governo da Madeira e o resto da República — que somos todos o mesmo país. E a lição política a tirar destas coisas — no país que viveu 1755 — é que para a próxima temos de nos sair melhor. Para a próxima as cidades podem estar mais bem preparadas e as populações mais protegidas. Há sempre por onde melhorar — para a próxima vez, teremos de garantir que uma calamidade de dimensões semelhantes provocará menos vítimas. Mas isso não acontecerá sem planeamento, sem pôr fim à depredação do território, sem ter uma noção permanente de que existe um bem público e de que é para o preservar que a democracia existe. Um dia,

Read more
Os pobres que paguem a crise

Tudo igual, com a diferença de já não ser preciso justificá-lo. Já não acontece “para nosso bem”. Acontece porque sim. Lembram-se? No primeiro ato desta história diziam-nos algo assim: é preciso deixar os ricos contentes e todos ganharemos com isso. Por “ricos” entendia-se uma série de eufemismos: os “grandes empresários”, as “companhias mais dinâmicas”, os “investidores arrojados”, etc. Esta gente precisava de um especialíssimo ambiente para poder prosperar: um ambiente onde nada os contrariasse e, ainda assim, se criassem regras especiais para os atrair, seduzir e manter felizes. Era necessário que pagassem menos impostos do que nós todos, como era necessário que nos pudessem despedir com mais facilidade. Era necessário que o estado gastasse menos dinheiro connosco; a classe média (e até a classe baixa) compensariam a perda através do cartão de crédito, das dívidas em geral, e do empréstimo para continuar os estudos. E foi assim que os estados — em princípio feitos de cidadãos como você e eu — e os governos eleitos pela maioria de nós passaram décadas preocupando-se principalmente em mimar uma minoria em detrimento da maioria. Em “detrimento” não, peço perdão!

Read more
O fim

Uma história plausível não é nunca suficiente para condenar um cidadão, mas é mais do que suficiente para fazer um primeiro-ministro perder a confiança dos outros cidadãos. Então é assim que Sócrates acaba. Faz sentido. A imprensa foi sempre a sua grande fraqueza e — pelo menos após o “caso da licenciatura” — a sua grande causa de descontrole emocional. Várias vezes ele foi prevenido, mas de nada serviu. E assim se perdeu. Não gosto de ver isto acontecer. Tenho amizade por Sócrates — se é adequado escrevê-lo aqui importa-me agora nada. Sócrates é de centro-esquerda, o que significa que estando eu muito à sua esquerda, significa também que ele não é completamente alheio à minha “família”. Não retiro nenhum prazer da sua queda, e Zeus sabe como já me diverti a ver cair outros políticos. E acima de tudo, sinto-me absolutamente exterior a uma agressiva arena feita de “anti-socráticos” para quem tudo vale desde que atinja em cheio o alvo do seu ódio e de “socráticos” para quem nunca nada se passa de errado, nada é irregular, nada se pode saber nem comentar. Nem esclarecer: se formalmente só há o “nada”, como se pode esclarecer o nada? Para uns nenhuma formalidade vale, para os outros só as formalidades valem. Ouçam, uns e outros:

Read more
Onze perguntas frequentes sobre o acordo SWIFT

Estamos a entrar numa nova era. É agora que se estão a construir as bases de dados do futuro, as práticas policiais do futuro, os usos e abusos de autoridade do futuro. E nós, na maior parte dos casos não damos por isso, porque esta é uma intrusão suave, mas determinada, na nossa esfera pessoal. O acordo SWIFT é um desses casos. Aquilo que começou por espionagem — por saque puro e simples dos nossos dados, perpetrado por um estado estrangeiro, sem nada nos dizer — está agora a transformar-se num acordo mal negociado. E pior: negociado nas nossas costas. Queremos dar uma base de dados com as nossas transferências financeiras europeias aos EUA? Queremos dar às democracias ferramentas que fariam as delícias de uma ditadura? E como será no futuro? E quando descobrirem que os vossos dados no facebook ou as vossas conversas no skype também seriam muito interessantes para a polícia? O Parlamento Europeu tem a grande responsabilidade de travar este acordo SWIFT e voltar à estaca zero, ou a nova era de intrusão e abuso terá começado antes que você dê por isso. Em conjunto com outros deputados no PE, de vários grupos políticos, (a holandesa liberal In’t Veld, o alemão verde Albrecht, e o português “popular” Carlos Coelho) preparei este documento que responde de forma simples às questões mais complicadas sobre o voto de amanhã. 11 Perguntas frequentes sobre o “acordo SWIFT” [Terrorist Finance Tracking Program}] E aqui abaixo em versão texto. Por favor leia e divulgue.

Read more
Skip to content