Pois é: os salários são um custo. Mas também são uma fonte de procura.

“Quer perder vinte quilos de uma vez?” — diz a velha anedota, e responde: “corte uma perna!”

Nesta altura do campeonato já não espanta que a opinião dominante no nosso país seja uma versão desta anedota em teoria económica. Vários economistas, tão vociferantes quanto insistentes, pretendem que Portugal precisa de medidas radicais para resolver os seus problemas do défice e da dívida. A solução proposta, com ar de quem não faz mais do que anunciar o inevitável, é cortar nos salários dos portugueses. Que tal dez por cento para começar?

À primeira vista, faz sentido. Se eu cortar uma perna, perco vinte quilos, e de um momento para o outro. Excelente! Mas se eu cortar uma perna, passarei a ter uma vida mais sedentária. Terei mais dificuldades para fazer exercício; é possível que perca a força de vontade e me deprima; é possível que me vingue comendo hambúrgueres. Em resumo, posso acabar com mais peso do que no início.

Se nós cortamos os salários, também parece que resolvemos o problema da dívida pública de uma vez só. Os salários da função pública ficam mais fáceis de pagar com uma proporção menor do orçamento do Estado — logo, menos défice — logo, menos dívida pública ao longo do tempo. E a dívida externa? Bem: os cortes de salários em geral, e baixa do consumo que eles arrastam, fará com que compremos menos ao estrangeiro e equilibrará — talvez com um pouco de magia negra — a nossa balança com o estrangeiro. Menos importações e, com os salários baixos, exportações mais competitivas. O pior é se os estrangeiros seguem a mesma receita. Não se preocupem: exportamos para outro planeta.

***

Mas, tal como se cortarmos uma perna, as coisas não são assim tão simples. Se o salário do cidadão comum for cortado em um terço, é possível que ele deixe de vez de ir almoçar fora. Os donos de tantas tascas e restaurante por esse país adentro tentarão aguentar tanto quanto possível, e acabarão despedindo os empregados de mesa e as cozinheiras. O desemprego aumenta e essas pessoas também deixam de consumir. Pois é: os salários são um custo. Mas também são uma fonte de procura.

Passado algum tempo estamos, como a pessoa que cortou uma perna para perder peso, mais fracos e com menos capacidade de resistir. Se calhar, até com mais peso: é que à crise do défice e da dívida agravam-se a crise de emprego e a crise de procura. À recessão segue-se uma depressão, com deflação à mistura, o que significa que o valor da dívida aumenta em termos reais.

Quer isto dizer que o défice não é sério e a dívida não é para pagar? Não. Quer apenas dizer que eu confiaria mais em quem me dissesse: se é realismo que queres, vais demorar bastante tempo a pagar essa dívida. E vais precisar de toda a disciplina e toda a força de trabalho disponível. Vais precisar também de igualdade na repartição de fardos e benefícios: tudo a fazer exercício. Caso contrário, teremos apenas uma transferência de gordura de baixo para cima.

É que os mesmos empresários que hoje querem uma diminuição de salários irão mais tarde sofrer com a contração do consumo. E aí não terão o mínimo pejo em exigir ao estado “ajudas para a exportação”, “balões de ar para o setor” e a satisfação de outras necessidades semelhantes. O défice deixará então de ser uma preocupação; o dinheiro que não se gastou com o assalariado antes será gasto com o patrão depois — a empresa estará em risco de falência, ameaçada, e de cabeça perdida — e estaremos de novo endividados.

Endividados — e com uma perna a menos.

[do Público]

18 thoughts to “Corte uma perna

  • José Luiz Sarmento

    Parabéns. O texto é clarinho como água, o que nem sempre é apanágio dos especialistas.

  • causavossa

    Inevitável… e que destino!

  • Ana Marques

    Cortar uma perna é muito radical. Tal como cortar salários. Mas e se os congelarmos? Não será benéfico? Em vez de cortar a perna, que tanta falta faz, se cortassemos meia nádega? É apenas gordura…
    Ou seja, se vivemos num mundo de hiper-consumismo não será bom (para a economia e para a nossa saúde) reduzir nas dispesas supérfluas.
    Num mundo em crise, quando o desemprego aumenta, e é necessário garantir as ajudas sociais, não podemos todos cortar no que é inútil?
    Sabemos que para perder peso temos de fazer exercício durante muito tempo. Não teremos de começar a mexer alguma coisa já?
    O mundo baseado no consumismo não pode parar de repente. temos de continuar a ganhar para gastar para que outros ganhem e possam gastar também e o ciclo rode e continue a rodar. Mas ainda assim parece que a velocidade tem de abrandar um pouco.
    Não percebendo quase nada de economia tenho a sensação de que algo vai ter ficar mais leve.

  • Paulo Coimbra

    In Defense of Deficits, By James K. Galbraith > http://www.thenation.com/doc/20100322/galbraith

  • serraleixo

    Ana Marques, não me parece que mudar o mundo baseado no consumismo se faça reduzindo os salários das pessoas ou aumentando as taxas de desemprego de uma forma puramente matemática como se apenas de números estivéssemos a falar.
    Temos de arruinar o capitalismo antes que ele nos arruíne a nós. Temos de deixar de acreditar que é possível permitir que uns acumulem riqueza eternamente quando essa riqueza é tão necessária para aliviar a pobreza de outros.
    Porquê aumentar o desfasamento entre os mais ricos e os mais pobres para resolver uma crise gerada pelos primeiros? Se alguém tem de ficar mais magro são os morbidamente obesos e não os famintos.

  • PedroM

    Já agora, transcrevo o que escrevi sobre isto noutro sítio parecido:

    “Uma coisa é dizer que merecem mais e que não é digno receberem salários tão baixos em pleno séc. XXI. Uma questão de dignidade humana, ouvi já dizer a Carvalho da Silva. Tudo bem, não discuto isso. Como nem ele nem o Rui discutirão de certeza que essa dignidade mínima qualquer ser humano a merece, certo? Então está descoberta a solução! O Nobel da Economia para esses economistas já! Basta então aumentar os salários de toda a gente no mundo que mereça essa tal dignidade e já está. Da Nicarágua ao Zimbabué, é só aumentar os salários e está tudo resolvido! Como é que ainda ninguém tinha pensado nisto…
    Nessa lógica de raciocínio, porquê contentar-mo-nos todos com o mínimo? Aposto que todos querem ser ricos, ou não? Aumente-se muito mais então.”

  • João Vasco

    O texto é interessante na medida em que pode trazer algo de novo a quem tem uma perspectiva muito simplista da realidade, e fá-lo de uma forma que dificilmente poderia ser mais convincente.

    Mas é preciso que não nos deixemos enganar. Baixar os salários nem sempre poderia ser uma má medida. Depende de caso para caso. Existe a considerar a procura interna, sim, mas também a competitividade externa. A dívida, o défice, mas também o investimento externo. E por aí fora.

    O pior é que o compromisso entre tudo o que está em jogo não pode ser encontrado apenas com ideias políticas: é preciso conhecer a realidade e fazer contas. E aqui existe outro problema: que contas?

    Se o César das Neves disser que é preciso diminuír os salários, pelo que conheço dele imaginarei logo um apoiante de Misses e Freidman que não levou muita coisa em consideração. Mas se for um dos que assinou o manifesto dos 51, o caso é diferente.
    O ideal era verificar as contas por mim, mas infelizmente não sou especialista na área. Tenho de confiar, usando certas heurísticas que me levam a crer que a pessoa em questão tomou ou não em consideração certos factores.

    Por exemplo, sou algo céptico face ao que diz Francisco Louçã, devido ao facto dele ser tão crítico de todos os aspectos da economia de mercado. Tendo a ter bastante confiança em Paul Krugman, que me parece brilhante, e alguém que pensa pela sua cabeça levando vários aspectos em consideração – ou pelo menos todos os que me parecem relevantes.

    Com isto tudo, a impressão que eu tenho a respeito da necessidade de conter ou não os salários é que… não sei. Todos os especialistas que se pronunciam fazem-no de forma previsível dado aquilo que me parece que tendem a previligiar na análise.

  • Nuno Ferreira

    Caro Rui,

    concordo inteiramente com a sua reflexão, estou cansado desta abordagem liberal das relações sociais e económicas, que em Portugal, têm criado um conjunto de problemas, que vieram acentuar desigualdades e vulnerabilidades estruturais do nosso país.
    Os iluminados económicos que não previram nada relativo à crise, pensam que os papalvos, vão engolir outra vez o sapo, e aceitar pagar outra vez a crise. Mas estes, esquecem-se que estão a empobrecer o país, uma vez que a classe dirigente e corporativa que emana estas belas políticas não sabe como vive a população portuguesa, e muito menos dá o exemplo.
    Falamos em cortes, comecem por cortar as mordomias, os subsidios, o número de assessores, uma vez na vida apertem o cinto, porque se assim não for, qualquer dia só têm o cinto…

  • bolkonski

    Só para dizer que subscrevo na íntegra o comentário do leitor João Vasco. É um comentário que mostra bem que há outros factores a considerar e que as coisas são mais complexas. Também eu no final das contas fico sem saber. Concordo também com o que diz sobre Krugman e FLouçã – de facto, é uma pena que o BE seja tão crítico a TODOS os aspectos da economia de mercado. Aproveito para deixar aqui a todos os possíveis interessados um blog de economia muito bom, de alguem que pensa pela sua própria cabeça (não é meu, nem sequer conheço a pessoa): http://aliastu.blogspot.com/.

  • Alice Samara

    Muito bom Rui (aproveito para mandar um olá). Gostei imenso, é de uma clareza fantástica.

  • João Sebastião

    Somos todos responsáveis…
    As reduções de custo e os cortes orçamentais vão sempre para o mesmo lado… para o lado de quem trabalha e de quem tem menos… as mordomias excessivas e terceiro-mundistas dos nossos governantes, desde o Presidente da JF ao Presidente da República, passando pelos Institutos, criados para driblar o défice e o Tribunal de Contas, e juntando os prémios dos gestores das empresas participadas pelo estado, esses sim são sorvedouros de dinheiro e recursos, mas aí ninguém se atreve a ‘tocar’.
    Desde os anos 90 Portugal tem-se tornado um país de desequilíbrios cada vez maiores. A culpa não é só de quem nos governa. A culpa é de todos nós que não somos exigentes e tudo deixamos passar.
    O ataque à escola pública não é inocente, bem como não tem sido inocente todo o ataque à função pública! A escola pública de qualidade deveria ser a pedra basilar do nosso progresso, permitindo, e sem excepção, o acesso ao saber e preparando para a cidadania, criando uma sociedade mais preparada e menos desnivelada.
    Estamos adormecidos, achamos que não temos de ser interventivos e permitimos que tudo nos tirem e que tudo façam até que chegará o dia em que nada restará.

  • Rui Zink

    Meu caro, tens a certeza de que é “uma velha anedota”? É que eu estava convencido de que tinha saído da minha cabeça… em 2003. E mais tarde uma cabeça “parecida” (a do Gonçalo) chegou a idêntica conclusão, não por plágio mas porque o jogo lógico “estava lá”, sobretudo para quem estava a par das minas em Angola. A brincadeira foi pela segunda vez reimpressa na antologia de humor do Nuno Artur Silva, salvo erro em 2008. Também pode acontecer que, sem querer, me tenha limitado a descobrir a pólvora, não seria a primeira. mas estou curioso. Podes esclarecer?

  • Rui Tavares

    Caro Rui, claro que posso esclarecer. A primeira vez que vi escrita esta piada foi num livro do Geluck, serie le Chat, há certamente mais de dez anos. Desde então já repeti a piada a amigos para aí dezenas de vezes, mas também já a ouvi contada de forma independente por outros (não sei se leitores do Geluck, mas duvido). É possível que seja simplesmente uma velha punchline que anda para aí às voltas há muito tempo. Mas via Geluck tenho a certeza.

    Abraço

    Rui

  • Rui Tavares

    Frase do Geluck:

    Si vous voulez perdre 10kg en un jour sans exercice et sans régime, faites-vous couper une jambe.
    Philippe Geluck

  • Vera Justino

    Olá, Rui! Aqui Vera, a do R/C. Desculpa ter tomado este caminho, mas preciso de te fazer uma perguntinha. E não tenho o teu endereço de mail. Não tem nada a ver com o condomínio! Tem mais a ver com “Um barco, um cavalo, uma nuvem, um porco”. Mas nem por isso. 🙂
    bj

  • Augusto Küttner de Magalhaes

    Hoje 10 de março de 2010 Rui Tavares, tem uma EXCELENTE CRONICA NO PÚBLICO.
    Faz-nos entender o que é a antes Ordem do dia no Parlamento Europeu e não significado anti-nacional do que Paulo Rangel disse sobre o disse que disse da compra da TVI por Socrates ou seus amigos.
    Gostei sinceramnte do esclarecimento, dado que não conhecia este fucionamento.

  • Augusto Küttner de Magalhaes

    Penso que cada vez que as Pessoas que têm alguma notoriedade pública, conseguem esclarecer-nos naquilo que por vezes desconhecemos é do maximo intreresse, e por vezes, tantas vezes isso não acontece dado cada um ter que segui directivas e só essas.
    Mudar, para melhorWhy not????Força! Seja quem for e de onde possa vir.

    Gostei e repito 10.março no Público.

    Deve ser dos 20 anos do PUBLICO estes dias tudo TEM SIDO MUITO MUITO BOM NO PÚBLICO.

  • eureka, achei

    os salarios sao uma m… porque os malditos gananciosos so pensam no rabo deles

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