Mas sim, é possível que a negação chegue. Se o cansaço nos vencer.

Era fim de 1995, inícios de 1996, e eu era voluntário na primeira campanha de Jorge Sampaio nas presidenciais, contra Cavaco Silva. Estávamos reunidos numa sala a imaginar quem aceitaria manifestar o seu apoio ao nosso candidato no jornal de campanha. Entre vários telefonemas, lembrámo-nos de ligar a um futebolista internacional da “geração de ouro”. Depois de lhe dizermos ao que vínhamos, a resposta dele foi: “olha, vou dizer-te o mesmo que já disse ao outro candidato: e que ganho eu com isso?”

Há gente assim. Que nunca deixa de fazer o seu cálculo de ganhos e perdas e tomar as suas decisões estritamente por esta bitola. Há gente assim em todas as profissões. Nos políticos também. Gente capaz de dizer: “olha lá, tu não me apoiaste, que ganho eu em apoiar-te a ti?”.

Talvez tenha mesmo que haver gente assim, não sei. Mas sei que a sorte deles é que o resto da gente não é assim. O resto da gente faz as suas escolhas por outras razões, das mais nobres à mais patetas; por lealdade, por teimosia, por ingenuidade, por cansaço, por idealismo, por tudo o que quiserem. A maior parte da gente demora muito até finalmente conseguir perguntar-se, e mesmo assim com dificuldade, “mas que ganho eu com isto?”.

Lembrei-me disto ao ver a entrevista de José Sócrates a Miguel Sousa Tavares. Estamos a chegar ao momento de saturação. O momento em que os portugueses se vão perguntar “que ganhamos nós com isto”.

***

Não sabemos é qual será a resposta. José Sócrates aposta em que os portugueses se perguntem “mas que ganhamos nós em ter o primeiro-ministro arrastado na lama?” e que respondam “mas que chatice; deixem lá o homem governar!”.

Há uma semana descrevi aquilo que “teoricamente” Sócrates precisaria de fazer para sobreviver. E foi mesmo isso que ele fez: negar tudo. Porém, não escapou a muitos que negou de uma maneira estranha, numa espécie de negação sem desmentido. Porque faz sempre questão de dizer que “ninguém da PT” o informou? Eis um negação que não desmente, deixando em aberto que alguém de fora da PT o tenha informado antecipadamente sobre o negócio de compra da TVI; poderia ter sido Armando Vara, ou qualquer outra pessoa, desde que fosse “ninguém da PT”.

Mas sim, é possível que a negação chegue. Se o cansaço nos vencer pode ser que nos perguntemos, daqui a uns tempos, “mas que ganhamos nós em querer saber esta história?” A economia está má, o governo está frágil — deixa para lá.

***

Mas também é possível que, perante as contradições e as teimosas suspeitas, as sucessivas negações do primeiro-ministro, as sucessivas manchetes do bom jornalismo e do muito mau jornalismo, as sucessivas pouco esclarecedoras audições no parlamento — ou esperemos que perante uma mais definitiva e esclarecedora comissão de inquérito — os portugueses se perguntem antes “que ganhamos nós com este martírio? valerá a pena aguentá-lo?”

Mesmo entre os apoiantes de Sócrates, já há quem se pergunte “que ganhamos nós” em defender o indefensável, em negar as notícias e agarrar-nos às formalidades. Se no PS há políticos, alguns deles perguntam-se já se Sócrates faria o mesmo por eles. Outros fazem talvez as contas ao que perde o PS, e é substancial: perde a possibilidade de reclamar uma herança histórica e de protestar quando outro governo tentar controlar a imprensa. Perde a credibilidade e a elevação moral que ainda tinha.

E talvez seja essa a pergunta certa. Talvez devêssemos perguntar-nos antes que perdemos nós com tudo isto.

Eu tenho uma resposta. Mas é possível que não vos agrade: perdemos já toda a inocência, e dentro em breve perderemos até a esperança de nos lembrarmos como ela era.

9 thoughts to “Que ganhamos nós com isto?

  • Nuno Resende

    O que mais chateia, no meio de tudo isto, é que há que telefone a futebolistas para ganhar eleições, ou para angariar votos.

  • Maria Estácio

    Sócrates é,para mim, um ‘caso’ conf(-st)rangedor e ‘perigoso’,nomeadamente pela atracção q exerce-u(pelo menos ao princípio)até em gente de direita,tendo o condão de avivar o pior q há nas pessoas(q é o ‘mais fácil’),em termos do autoritarismo,mesquinhez e tiranete q nos pode habitar e só precisa de oportunidade para se revelar,aos níveis humano e ‘institucional’. Penso q sempre mentiu(mesmo antes de ser eleito pela 1ª vez,qd já tinha obrigação de estar na posse de dados q não lhe permitiriam dizer e prometer o q n poderia nem cumpriria dp–secundado pelas técnicas,seriíssimas e oportunas avliações de Constâncio,do qual tinha boa impressão tal como de tantos outros,mas q a perderam,a meus olhos,neste contexto e ‘ambiente’).
    Tudo se foi confirmando,helas,e se mais n houvesse,ao longo da prestação do director do Expresso,ontem,na ‘casa da democracia’.
    ‘Não nos deixarmos levar’ é um esforço pessoal e crítico de in-divíduos diferenciados e conscientes,tarefa inacacabável e indelegável de exigência e vigilância,interior e exterior.

  • Maria Estácio

    Claro q são esses esforço e indivíduos o q é requerido para as tb necessárias instituições,associações ou qq tipo de grupos q resistam à mediocridade e xico-espertismo,propiciando,desenvolvendo e implantando toda uma ‘educação’ e tarefas conducentes a uma consciência,organização e realização de ‘polìticas’ mais ‘racionais’ e justas.

  • jP

    dizem que só se deixa enganar quem quer. que os políticos são um reflexo de um povo. e são-no… por isso quem mais culpa tem que “nós”? fomos “nós” (portugueses) que o pusemos lá.

    cumps

    PS:. A Blitz parecia hoje um pouco mais vazia… não é uma alteração para manter pois não?

  • Maria Estácio

    Na antepenúltima linha e seguinte,do meu antepenúltmo texto,deve ler-se :’…de in-divíduos diferenciados,comuns e solidários,tarefa…’
    Concordo em absoluto com jP e é esse ‘nós’ q é preciso trabalhar e elevar,dentro e fora de nós. Mas não desesperemos,que, assim como não há um Portugal profundo único e generalizável, há,pelo contrário, mt qualidade e diversidade entre os portugueses (o mau é ‘pacífico’).

  • Tiago Coen

    Caro Rui Tavares, não podia estar mais de acordo!
    A inocência foi o que se perdeu já, sem dúvida. Antes tivesse sido a ignorância!

  • Persa

    EMAUDIO … CASA PIA … FACE OCULTA (o Triangulo das Bermudas não desaparecerá tão cedo) – o Partido da Sucata precisa de um formalista como Aguiar ou de um “homem de bastidores” como Coelho.

    Rangel é imprevisível.

    Tenham medo sucateiros – Tenham muito medo.

  • Luís Simões

    Estes jogadores são coerentes: na política como no futebol, assinam pelo clube ou partido que lhes dá mais. Não existe amor a camisolas, nem a cores partidárias, muito menos a projectos políticos. Eu compreendo, a política tem tão má fama que o simples contacto e associação com políticos lhes pode diminuir o «prestígio». Lembram-se que há uns anos Luís Figo ameaçou abandonar a selecção nacional porque a onda de más exibições desta lhe poderiam retirar «prestígio». Para estes senhores, formados na cultura do selvagem capitalismo futebolístico, a cidadania e o serviço público são conceitos espúrios. O que não dá prestígio nem dinheiro é irrelevante, como é óbvio. O maior problema é existirem staffs partidários dispostos entrar nesta espécie de caciquismo mediático. Quantos votos para o PS o apoio de Figo terá angariado? Se foram poucos é patético, se foram muitos é ainda mais preocupante… Cada vez gosto mais de Marcos Perestrello, génio da matemática com consciência social. É que esta m**** dava mesmo para muitos subsídios de desemprego…

  • Ana Marques

    A resposta à pergunta feita ao futebolista e a nós deveria ser: NADA!
    Não temos de ganhar nada. Devemos agir por dever. Penso que nesta sociedade anda a fazer muita falta ler Filosofia. Neste caso Kant. Kant para todos nós que temos de nos sacrificar por termos um 1º ministro com o nome arrastado na lama. Porque tem de ser. Porque a verdade não pode ser escondida só porque dava muito jeito. Temos de agir por dever moral. Muito antes de agir por dever legal.
    Alguém devia oferecer a “Crítica da Rzão Prática” ao Figo mas receio que ele prefira a Caras.

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