Tudo igual, com a diferença de já não ser preciso justificá-lo. Já não acontece “para nosso bem”. Acontece porque sim.

Lembram-se? No primeiro ato desta história diziam-nos algo assim: é preciso deixar os ricos contentes e todos ganharemos com isso. Por “ricos” entendia-se uma série de eufemismos: os “grandes empresários”, as “companhias mais dinâmicas”, os “investidores arrojados”, etc. Esta gente precisava de um especialíssimo ambiente para poder prosperar: um ambiente onde nada os contrariasse e, ainda assim, se criassem regras especiais para os atrair, seduzir e manter felizes. Era necessário que pagassem menos impostos do que nós todos, como era necessário que nos pudessem despedir com mais facilidade. Era necessário que o estado gastasse menos dinheiro connosco; a classe média (e até a classe baixa) compensariam a perda através do cartão de crédito, das dívidas em geral, e do empréstimo para continuar os estudos.

E foi assim que os estados — em princípio feitos de cidadãos como você e eu — e os governos eleitos pela maioria de nós passaram décadas preocupando-se principalmente em mimar uma minoria em detrimento da maioria. Em “detrimento” não, peço perdão! Para nosso bem: era o tempo de metáforas como “se fizermos crescer o bolo haverá mais para toda a gente” ou “é preciso criar riqueza para depois a distribuir” ou “se chover para os mais ricos acaba por pingar para todos”. Para bem das pedras que aguentavam a base da pirâmide era necessário que chovesse apenas na pedra lá do topo; alguma coisa haveria de escorrer por aí abaixo.

Alguém perguntava se em vez de criar riqueza para depois a distribuir não haveria forma de, desde logo, criar riqueza de forma mais distribuída. Mas não era escutado. Para perguntar como criar riqueza bastava a opinião dos ricos.

***

O segundo ato foi quando este belo mundo implodiu. Afinal, deixar a alta finança sem regulação não garante crescimento infinito. Afinal, despedir gente para aumentar valor em bolsa não é melhor do que ter empresas sólidas com produtos que as pessoas queiram. Afinal, as pessoas que faziam “gestão de risco” não sabiam que os preços das casas não sobem para sempre. Afinal, toda a gente percebeu que o bolo tinha diminuído e não aumentado.

E foi então que tivemos de os salvar.

Sem a ajuda pública o sistema financeiro teria colapsado após setembro de 2008. Os bancos, tal como os conhecemos, não existiriam se não os tivéssemos salvo. Para isso gastámos o dinheiro que deveria ter ido para os nossos hospitais, escolas, jardins e bibliotecas.

O terceiro ato faz de tudo isto uma obra-prima do teatro do absurdo. Porque o terceiro ato é igualzinho ao primeiro: os altos executivos continuam a ter os mesmos bónus que tinham antes, os lucros dos bancos que nós salvámos continuam a pagar menos impostos do que nós pagamos e o sistema financeiro não teve ainda reforma que se visse. Tudo igual, com a diferença de já não ser preciso justificá-lo. Já não acontece “para nosso bem”. Acontece porque sim.

Para lançar sal na ferida, no quarto ato regressam reputados economistas que não previram a crise e descobrem que o estado está falido. E dizem-nos que para salvar o estado precisamos de “medidas radicais”, entre as quais se conta baixar os salários da classe média em cerca de quinze por cento ou mais, naturalmente que para nosso bem. Parafraseando uma crónica recente de Daniel Oliveira no Expresso: se eu disser “os ricos que paguem a crise” sou um populista irresponsável; se eu disser “os pobres que paguem a crise” sou um lúcido realista.

E assim chegamos ao quinto ato. É aquele que não está escrito ainda.

[do Público]

5 thoughts to “Os pobres que paguem a crise

  • José Luiz Sarmento

    Rui Tavares:

    Esta sua análise cola muito bem, infelizmente, com a realidade no nosso tempo, mas desperta também, a quem souber um pouco de História, uma sensação de deja vu. O início do século XXI está a revelar-se muito parecido com o início do século XX – até nos chavões usados pelos economistas do regime para defender o indefensável.

    O quinto acto será, provavelmente, a catástrofe.

  • Maria Estácio

    Curiosamente,os séculos XX/XXI são os primeiros a pôr, cara a cara, NOVOS desafios,questões e perspectivas diferentes de serem vistas e colocadas,pq assim elas o são.E de novas possibilidades. Tb de reflexão para ‘o estado das coisas’ que nos deveriam levar à justa constrição e limites,para os obscenamente ricos do planeta(onde me incluo,com água na torneira,sem guerra,mas liberdade e igualdade ‘jurídica’,de acção e pensamento,mais escola,saúde,habitação,pão,mesmo qd deficientes e a precisar de reforma),para adequarmos a mão a este mundo exangue e em perigo como nunca esteve. É quase ocioso lembrar a capacidade material(e mental)de nos destruirmos e aos recursos disponíveis (e partilháveis),literalmente;enfrentamos epidemias,tráficos,fugitivos e escorraçados,numa mobilidade,quantidade e qualidade nunca vistas(e a ter de ser enfrentadas,global e irrecusavelmente). E quando o ‘espírito’ precisa de aprender,nada como a ‘matéria’ para o lembrar e lhe inclinar o nariz. E embora já saiba que a vida e os acontecimentos não são totalmente controláveis,se cruzarmos definitivamente os braços,não nos queixemos da catástrofe.

  • Maria Estácio

    Claro que esse ‘limite’ ou reconfiguração e questionamento da nossa vidinha de ricos(como alguns já começaram a dizer e a fazer),pressupõe ‘um conhecimento,uma visão e uma sensibilidade ao mundo’ (como sempre acontece,aliás). Temos de ver e rever as fundações de mt coisa,a começar pelas regras em q assenta o comércio,nosso e mundial,do qual extraímos bastos benefícios. Considero as reflexões de R.T. tudo menos dejá vu. Antes um olhar novo ou,
    pelo menos,atento,problematizador e consciente da novidade,velhice e complexidade do mundo,suas dificuldades e possibilidades,tal como se apresentam hoje.

  • Maria Estácio

    Claro q no antepenúltimo texto,na 3ª/4ª linhas,onde se lê ‘q nos deveriam levar’,deve ler-se ‘deveria’

  • Maria Estácio

    Desviei-me do tema e sei dos dramas e pobreza(a vários níveis)q grassam no ‘mundo rico’.

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