Um caminho perigoso

Não, isto não foi um remendo improvisado em resposta a uma decisão do Tribunal Constitucional. As novas medidas anunciadas por Pedro Passos Coelho nascem de uma ideia, a única que ele tem: temos de empobrecer para ficar mais competitivos. É uma ideia cruel, obtusa e que vai falhar; mas é simples e constante. Analisemos essa ideia do ponto de vista económico, primeiro, e político, depois. Roubar aos pobres para dar aos ricos tem uma história tão longa que nem é notícia. A transferência de rendimentos do trabalho para o capital foi a normalidade das últimas décadas. Mas o que o fez o governo agora surpreende pela magnitude e pelo fanatismo da decisão: nunca a transferência de dinheiro do trabalhador (que vê aumentada a sua contribuição para a Segurança Social) para o patrão (que a vê diminuída, e em muito) foi tão rápida e massiva.

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Mais Europa, pois

Os países da União brincam com o destino uns dos outros sem entenderem que estão brincando com o seu próprio destino. Coitadas das palavras. São as primeiras vítimas dos líderes europeus. Usam e abusam delas até não significarem mais nada. Para um alemão, “solidariedade” quer dizer “lá vêm os chatos do Sul pedir-me dinheiro”. Para um grego, “solidariedade” quer dizer “lá vêm os chatos dos alemães impor-me sacrifícios”. Para certos políticos, “federalismo” é uma palavra vazia para parecer modernaço; para outros, “federalismo” é uma palavra vazia para meter medo; em nenhum dos casos tem o seu significado original de descentralização e democracia — Sarkozy até a usava como sinónimo de intergovernamentalismo, o seu exato oposto. Quando todas as palavras faltam, diz-se que é preciso “mais Europa”, uma coisa que não quer dizer rigorosamente nada: podemos precisar de mais democracia, mais integração, mais coesão — coisas que se sabe o que significam. Mais Europa, não sei o que é.

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Governo, não dono

Não, o governo não é dono do estado. Não, “estado” e “público” são duas coisas diferentes.  Claro, há quem defenda que o setor privado é sempre o melhor. É uma opinião tão legítima como o seu contrário. O que já não é tão legítimo é que os defensores dessa opinião se permitam agir com base numa total incompreensão do que significa, para que serve, e de forma se distingue, o setor público. É isso que faz a diferença entre reconhecer o predomínio de uma geração de neoliberalismo e deplorar os efeitos da incultura que essa geração nos legou. Essa incultura vive no primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, em Miguel Relvas, mas também na Juventude Popular do CDS/PP que na passada semana pediu (e depois obteve) a demissão do Conselho de Administração da RTP. Depois de termos vivido o apogeu da cultura neoliberal, estamos agora a viver o apogeu da incultura neoliberal: gente que não faz a mínima ideia das diferenças entre governo, estado e res publica.

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Final alternativo

Não, caro leitor, não é isso que a Lei de Gresham diz: ela diz que moeda má expulsa a boa “quando a taxa de câmbio é fixa”. Neste caso, a taxa de câmbio seria flutuante — a ideia é mesmo essa.  Como uma grande série televisiva depois do recesso estival, a crise da zona euro regressa para a sua terceira temporada, e todo o mundo ansioso para saber a resposta às grandes questões: irá a Grécia sair? que acontecerá à Espanha e Itália? este Hollande é melhor do que aquele Sarkozy? irá finalmente a Merkel apaixonar-se pelo Eurobond? Em antecipação, ofereço nesta crónica uma espécie de quebra-cabeças para dois problemas de longo prazo da União Europeia e do euro — os problemas de curto prazo continuam a ser os mais difíceis — com proposta de solução.

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Aos papéis

Nós não queremos “voltar a ter” serviço público de televisão — nós queremos é não perder aquele que temos! Na passada semana um consultor do governo chamado António Borges apareceu com um plano, não para privatizar a RTP, mas (para ser mais preciso) acabar com ela, cortá-la aos pedaços, enterrá-la no fundo do quintal e pagar renda a um capataz para lhe administrar a herança. Passado uns dias, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho ainda não veio esclarecer se isto é só uma brincadeira de mau gosto ou se é para ver se pega. Mas, não temei: António José Seguro, líder do maior partido da oposição, já disse que “quando o PS for governo voltará a existir serviço público de televisão”. Fantástico.

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Mineirinhos

Cinquenta anos e uns meses depois, a polícia sul-africana matou mais de trinta mineiros da empresa Lonmin, na localidade de Marikana. Nós vimos, na televisão, na internet. E depois, tal como Clarice Lispector, fomos à nossa vida.  Em 1962 a polícia brasileira matou um homem a quem chamavam Mineirinho, José Rosa de Miranda, com 13 tiros. Tinha vinte e oito anos, uma medalha de São Jorge ao peito e, no dia seguinte, a escritora Clarice Lispector leu sobre o homicídio no jornal. Os treze tiros e a medalha de São Jorge chamaram a sua atenção. Nasceu-lhe uma pergunta: “como não amá-lo, se ele viveu até ao décimo terceiro tiro o que eu dormia?” Clarice Lispector foi uma das melhores de sempre a escrever, pelo menos na nossa língua. Era também uma pessoa que vivia exteriormente bem: ex-mulher de um diplomata, colunista relativamente bem paga na imprensa, dona de uma casa na zona sul do Rio de Janeiro. Perguntou à sua empregada o que achava da morte do Mineirinho. Ela respondeu: “Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho a certeza de que ele já se salvou e entrou no céu”.

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Partilhar o tempo

A resposta está, curiosamente, numa causa genética, e hoje esquecida, da esquerda: a partilha do emprego e a diminuição do tempo do trabalho.  Há uns anos estive num debate organizado em que, falando da sustentabilidade da segurança social, o conferencista disse: “se calhar temos de trabalhar mais tempo”. Houve quase um motim no público. Esta experiência repetiu-se há dias num debate; um dos participantes disse o mesmo e duas ou três pessoas saíram imediatamente da sala. O que se passa, julgo eu, é que tanto o primeiro como o segundo orador gostam do que fazem. A hipótese de ter de trabalhar mais uns tempos é contigente, mas não é uma contingência terrível. A maior parte das pessoas, no entanto, detestam aquilo que fazem. Quando não detestam aquilo que fazem, detestam o lugar, os colegas, a forma como é feito, a quantidade de tempo que têm de passar naquilo, o facto de outro alguém (o patrão, a empresa ou, no caso dos funcionários públicos, o estado) ter a faca e o queijo na mão. Mais ainda: estas pessoas descontaram para a segurança social durante 40 anos ou mais. Com os seus descontos, parece-lhes que chega para a reforma deles; quanto ao resto, não suportam nem ouvir falar. Eu — que gosto daquilo que faço — compreendo-os perfeitamente.

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Não há milagres

Em janeiro de 1732, um decreto mandou encerrar aquele cemitério onde a fé no empobrecimento como via para a salvação tinha chegado longe demais. Era empobrecimento com redistribuição, o que talvez tenha assustado o poder.  Não duvido de que, ao ouvirem ontem Pedro Passos Coelho discursando no Pontal, uma maioria de portugueses se tenha lembrado de um momento crucial nas relações entre a razão de estado e a religião, ocorrido há 280 anos, e seis meses, em 1732. Para os restantes, segue-se esta sucinta narrativa. Havia em Paris um padre chamado Pâris, François de Pâris, que vivia uma vida ascética entre os pobres de um dos bairros mais pobres da cidade e já por duas vezes tinha dado a esses pobres todo o seu dinheiro (quando entrou na vida religiosa e quando recebeu por herança as propriedades dos seus pais, que vendeu e cujo lucro distribuiu). Tinha inúmeros seguidores e quando morreu aos 39 anos, em 1727, rapidamente foi tomado por santo

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Mentiras verdadeiras

“Dirás ao teu pai, o conde Tolstoi, que caíste. E que quem te levantou foi Fiodor Dostoievski.” Jantei uma vez na casa de um extraordinário russo, na Rússia. A conversa fazia-se num inglês fragmentário, mas expressivo. O seu interminável repertório de histórias subdividia-se em diversas categorias; às melhores ele chamava “true fake”, ou seja “mentiras verdadeiras”, que não eram sequer mentiras mas apenas tão boas que mereceriam sê-lo. Depois vinham as “fake fake”, que eram mentiras mesmo mentiras mas suficiente boas para merecerem ser verdade. Quando as histórias eram tristemente verdadeiras, o meu anfitrião encolhia os ombros, fazia uma cara quase de quem pede desculpas, dizia: “this, my friend, is true-true”. Verdade verdadeira, meu amigo; o mais baixo da escala. Os graus de importância eram pontuados com brindes de vodca. Os temas eram os absurdos da política e as grandes rivalidades literárias, em particular a de Tolstoi e Dostoievski. Os dois grandes escritores admiravam-se em público, invejavam-se em privado e desdenhavam-se no íntimo. Diz-se que uma pessoa pode tender a Tolstoi ou a Dostoievski, nunca a ambos. Os dois nunca se encontraram.

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Uma refundaçao democrática? (6)

O desperdício de gente é o mesmo numa economia injusta e num sistema político capturado. Portugal é um país de exclusão. Exclusão económica e social. Mas também exclusão política. As duas estão ligadas, pois uma democracia da qual os cidadãos estão excluídos não  só não funciona como democracia como não conseguirá trazer justiça e económica e social. É estranho que os partidos que combatem a exclusão económica e social continuem a praticar a exclusão política, a negar que ela existe, ou a comportar-se como se ela fosse um assunto menor. Nas últimas cinco crónicas desta série comecei por descrever como a degradação da democracia não é uma novidade em Portugal, tendo seguido no liberalismo e na república a mesma trajetória de clientelismo, feudalismo e partidocracia que estamos a experimentar agora; em seguida apresentei propostas para a democracia local (eleições primárias abertas) e europeia (eleição do chefe de missão no Conselho); ao chegar ao Parlamento e aos partidos deparamo-nos com dois problemas quase inamovíveis, a saber, um parlamento onde a disciplina partidária pode mais do que a Constituição (na liberdade de voto e mandato), os interesses podem mais do que a obrigação de legislar (com deputados trabalhando para escritórios de advogados) e, finalmente, partidos que partem e repartem uma escolha que não chega bem a ser nossa.

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