A resposta está, curiosamente, numa causa genética, e hoje esquecida, da esquerda: a partilha do emprego e a diminuição do tempo do trabalho.

 Há uns anos estive num debate organizado em que, falando da sustentabilidade da segurança social, o conferencista disse: “se calhar temos de trabalhar mais tempo”. Houve quase um motim no público. Esta experiência repetiu-se há dias num debate; um dos participantes disse o mesmo e duas ou três pessoas saíram imediatamente da sala.

O que se passa, julgo eu, é que tanto o primeiro como o segundo orador gostam do que fazem. A hipótese de ter de trabalhar mais uns tempos é contigente, mas não é uma contingência terrível. A maior parte das pessoas, no entanto, detestam aquilo que fazem. Quando não detestam aquilo que fazem, detestam o lugar, os colegas, a forma como é feito, a quantidade de tempo que têm de passar naquilo, o facto de outro alguém (o patrão, a empresa ou, no caso dos funcionários públicos, o estado) ter a faca e o queijo na mão. Mais ainda: estas pessoas descontaram para a segurança social durante 40 anos ou mais. Com os seus descontos, parece-lhes que chega para a reforma deles; quanto ao resto, não suportam nem ouvir falar.

Eu — que gosto daquilo que faço — compreendo-os perfeitamente. O ar do tempo criou um debate em que “é inevitável” que se faça uma escolha: ou as pessoas trabalham mais tempo, ou não há dinheiro para pagar as pensões. E, de repente, são as pessoas que trabalharam dos dezassete anos aos sessenta e três e sempre descontaram que têm de pagar por isso? E ainda por cima dizem-lhes que a culpa é deles por viverem mais tempo? Então qual é a solução: trabalhar até morrer?

Entalada por este debate está a esquerda, que historicamente é a defensora das classes trabalhadoras, hoje chamadas de classes baixas e médias nos países desenvolvidos. Se a esquerda não tem nada para propor a estas pessoas senão a) a falência do estado social ou b) trabalhar mais tempo, em trabalhos que as pessoas detestam, sob regras determinadas a bel-prazer dos patrões— para que servirá então a esquerda?

A resposta está, curiosamente, numa causa genética, e hoje esquecida, da esquerda: a partilha do emprego e a diminuição do tempo do trabalho.

As pressões do capitalismo criaram uma realidade binária em que ou uma pessoa trabalha demasiadas horas, ou está desempregada e recebe um subsídio. Isto é tanto verdade nos países em que o estado regula o mercado de trabalho, tornando-o mais rígido, como naqueles em que ele os desregula, dando aos patrões a possibilidade de espremer um trabalhador até à última gota porque ali ao lado estão milhares de desempregados.

E se, em vez disso, o papel das políticas públicas fosse possibilitar a partilha de trabalho? Há muita gente que não se pode dar ao luxo de largar o emprego mas, em determinadas fases da vida, gostaria de trabalhar menos: para cuidar de um bébé, de um idoso ou de um deficiente; para se formar e aprender; para tentar realizar um projeto antigo. Na reforma, que divide o tempo em que se trabalha demais do tempo em que se está inativo, passa-se o mesmo. Muita gente não se importaria de trabalhar até mais tarde — se tivesse começado a fazer mais cedo as coisas de que gosta.

De caminho, a segurança social precisaria menos de apoiar milhões de desempregados — e mais de apoiar a transição, a formação e a partilha do tempo.

Boas férias.

4 thoughts to “Partilhar o tempo

  • Pois somos um país que espera por milagres, vive no efeito placebo do milagre diário, respira milagres, anseia por milagres e anda no seio de milagres, miraculosamente diz-se orfão de milagres

    Pois, partilhar implica ceder, o que numa espécie gregária, altamente territorializada e hierárquica como todos os primatas é uma mudança maior do que passar do liberalismo político ou económico ao nacional socialismo económico ou político ou aos planos quinquenais em quatro anos e picos e se possível em dois e meio.
    1º Demograficamente uma população envelhecida como a japonesa nos anos 70 ou a portuguesa algures desde os 90, permitia-se manter uma quantidade de reformados octagenários e nonagenários, porque em abono da verdade eram reformas miseráveis e o pessoal era mais restrito nas suas queixas e mais frugal no seu estylo de vita.

    Exceptuando o Manel de Oliveira e outros nonagenários e octagenários avançados oriundos da alta burguesia da 1ª república ou da seguinte, a maior parte dos nonagenários e octagenários sobrevivos ou eram pequenos funcionários quarentões ou cinquentões que pouco avançavam no funcionalismo da época ou eram adeptos da casa do povo e da reforma aos 70 com uma pensão esquálida que lhes daria para os restantes 6 ou 7 anos…com sorte 15 ou 23, a comer peixe congelado e a acumular latas de conserva com raticida, para poupar o grão acumulado em sacas
    Ou seja a essas massas mal pagas e mal reformadas nascidas nos anos 20 ou inícios dos anos 30

    sucedeu uma quantidade enorme de reformados do tempo em que salgado zenha se escandalizava com 400 mil funcionários públicos, um número claramente insuficiente para a manutenção do pleno emprego no soa ris tão? ou no cai vai qui estão..

    E essas massas trintonas e quarentonas nos idos de 74
    têm infelizmente 68 a 78 anos e tenham começado a trabalhar aos 18 ou aos 26, quer fossem regentes agrícolas ou regentes escolares a 1 conto de réis no salarazistão usufruem hoje de reformas plenas como técnicos superiores e com aumentos de acordo com a inflação e geralmente acima dela desde que se reformaram aos 58 ou aos 61

    Logo se descontaram mesmo 10% ao ano do seu salário durante 40 ou mesmo 50 anos (ou deveriam ter descontado) para a caixa de aposentações ou similar

    e pressupondo uma capitalização desses a 10% anuais
    (1+0,1) elevado a 40 daria uma multiplicação do PPR inicial
    de 45,25 vezes talvez suportasse um tal sistema durante uns tempos

    ou pondo de outro modo imaginemos 2000$ dos anos 70 equivalentes a
    2000 eurros portanto 2800 eurros já com 13ºmês marcelista acoplado e 14ºem butão ou outro tibetano qualquer

    2800x 40 anos=112000 eurros
    com uma gestão excelente e valorização de 45,25 vezes destes activos
    ou seja o 1º ano com 2800x 45,25 vezes de acumulo
    o 2º com 2800 x (1+0,1)elevado a 39
    …ETC
    E o 40º com apenas 2800 de descontos

    poderia elevar esses magros 112000 eurro-equivalentes

    a vários milhões de equivalentes ácido-base que pagariam perfeitamente o ordenado de uma professora reformada aos 61 ou 62
    ou de um major ou coronel passados à reserva aos 55 ou 58
    (e à reforma aos 70) durante 15 ou 20 anos
    (210 ou 280 meses a 2000 ou 3500 ou 4000 por mês…
    mais 2,5 a 3,5% de aumento anual…para compensar a inflação

    de caminho as sobras desses milhões sabiamente capitalizados
    pagariam o milhão de desempregados e sub-empregados futuros e expectáveis pois pessoal com 2 casas de campo e três apartamentos no all garve não há muitos..e irmões com piscina bué de funda…

    nem todos podemos ser o camarada general gonçalves mendes da maia o lidador..
    nem todos podemos ser democratas despojados que derrubam velhotes mossadeghianos para manter o nível de vida das massas nazionalles

    muita gente gosta de fazer férias e de viver bem
    que uns iranianos miseráveis queiram lixar-lhes os empregos e a gasolina a baixo preço…a gente nã entende

    obviamente é gente sem lei que não respeita con tratos democráticos

    há gente que gosta de dar aulas até aos 70 e após desde que sejam umas horitas por semana ou por mês chamam-se emmeritus
    existem muitos nas unibersidades de verão e nas de inverno

    mineiro que goste de cuspir a pulmonaria em tempo parcial

    ou varejador de azeitonas e apanhador de tomates e alfarrobas
    há uns numa comunidade em espanha têm todos pleno emprego

    e um comissário deputado
    e só trabalham uns meses por ano para terem todos trabalho..
    em portugal nos anos 50 e 60 havia aldeias comunitárias assi…

    porqué que desapareceram assis como as UCP’s dos anos 70…é um grande mistério evolutivo…cAmarada Tavares
    Nã tem uns Miravent Tavares na famelga?
    pois tamém pensei canão…

  • A tempo parcial aqui no burgo temos pintor de slogans, militar na reserva, desempregado com 2 anos de subsídio, eu preferia a tempo parcial ser só ares deus da guerra, ou ao menos sócrates renascido em Paris ou in Bolas de Berlim, mas ser couve de brux

    há 29 anos, mais coisa menos coisa, uma universidade ou instiputo universário do interior fez uma conferência sobre o tema, custou 14600 contos se bem me lembro, dos quais 1200 para os canapés e as estadias numa pensão para convidados, que tinham a alegria de partilhar o espaço ocupado por um embaixador famoso nos annaes da annalidade.

    O orador principal, era um desses com emprego a tempo parcial, dava 6 horas de aulas por mês e estirava os penantes numa vice-reitoria?
    pseudo-reitoria? durante umas 4 horas diárias com hora e meia para almoço, por vezes meia-horita para pequeno almoço, o pressuposto era distribuir umas quantas horas por cada professor, aumentando o nº de professores e assim o nºde pensadores/investigadores, potenciando o racio de alunos professores que era de 25 para 2,19
    ou seja 219 profes (mais 25 convidados e extra) davam para 2500 alunos
    ou seja um racio de 1 professor para 11, qualquer coisa alunos

    1/11 ou coisa assim, mas não havia professores suficientes à altura para fazer racios, pressuponho.

    Resumindo: pretendia-se arranjar mais uns centos de professores, para darem cadeiras interessantes como tautaulogia do tautau em caloiras bem alcoolizadas, ou abusologia de menores de 17 anos ainda não considerada crime mas sim tutoria especializada.

    O problema era trabalhar menos e receber mais, um problema relativamente complexo, mas facilmente simplificado pelas grandes mentes deste país recém saído do propedêutico laboral.

    Eu — que gosto daquilo que faço (bolas e quem nã gostava de fazer o que faz…e já agora faz o quê? ê tamém gostava de ser embaixadore politik ou inconómik de putogal em qualquer lado…até em aveiras de cima ou em berinjel mesmo a ganhar a miséria de 200 aeurrios per diem— compreendo-os perfeitamente.

    O ar do tempo (ó tempora ó mores, até o tempo tá cheio de ar
    criou um debate em que “é inevitável” que se faça uma escolha: ou as pessoas trabalham ou não

    cá por mim voto por não
    que dei um jeito ás costas…e vou entrar de baixa logo que possa

    dantes inda dava pra ficar 6 ou 7 anos de baixa

    é um retrocesso civilizacional…
    Beringel nã tem auto-estrada é um retrocesso civilizacional
    Uma cigana de raça pura de beringel mais escura cuma indiana anda atrás dum arraçado de cigano e feirante…é um retrocesso cibilizacional

    Cidade sitiada vamos à luta armada
    Eu gostava de ser rebolucionário a tempo parcial
    mas vamos lutar contra quem?
    contra a bófia já andamos há anos..e nã dá guito de jeito

    De caminho, a segurança social precisaria menos de apoiar milhões de desempregados
    Milhões? Bolas tamos eurropeístas hoje (anteontem) ahn..
    o desemprego a tempo parcial é uma opção de vida

    todo o militar na reserva territorial (ou na pré-reforma até perfazer os 70 anos da praxe em 10 ou 15 anos) sabe-o bem

    é que limpar esgotos como ocupação parcial
    ou escrever slogans que iluminem o universo e lugares afins

    acho que não
    ser chulo a tempo parcial isse a gente alinha
    mas o estado tem de fornecer as garinas (ou garinos) ou póneis…

    e olha que há 30 anos a maioria dos choruméis a coser botas ou a fazer cortes de tecido nã adescontava nada
    de resto se a empresa pagava a 90 dias já era uma sorte…

    e o pessoal nas vindimas a 100 mél réis semanais inda descontava menos há 40 anos se adescontavam adeviam ser lisboetas ou outros da caixa geral das aposentações

    e olha que nã era muito purque no ministério do professorado
    a caixa de previdência do ministério da educação

    distribui anualmente de resultados do exercício 20.000 eurros de reforço do subsídio de enterramento para 16000 gaijos e gaijaS
    cada um arrecebe quando quinar entre 80 a 120 aeurrios

    ser presidente da mesa da assembleia geral ordinária ou extra-ordinária da caixa de previdência do Ministérium da educa a são para reunir na 1ª con voca são ou na 2ª uma hora mais tarde por falta dos 16000 associADos no 4º ou no 2º andar do nº45 da praça dom pedro IV
    era um emprego parcial que 99,999% do pessoal fazia com gosto
    claro há sempre 0,0001% de preguiçosos que nem um trabalho destes queriam

  • O probrema é a maior parte dos trabalhos cagente gosta de fazer

    Já tarem todos tomados né
    E há trabalhos chatos pô

    E trabalhos que dão cabo da saúde a bem da exportação

    polir pedra e cortar celulose pra fazer pasta…é bué de divertido
    mas só pró gaijo do chainsaw ou chain saw massakre

  • Manda a vontade que me prende ao QRENe d'EL ReY DOM MANEL AO SEGuNDO

    bou leixar de oracular per qui y leixar os messias boltarem a pôre ovus aqui neste local imaginário onde se vai quem se vem ou cousa assi

    a indústria química e betuminosa faz maravilhas à saúde

    é commo o anúncio de 1922…pedras salgadas as thermas mais radio activas de portucale..
    o que se faz por gosto…
    e se a pessoa gosta de roubar as outras?
    uma cleptomaníaca que gosta de plata platão e só crates?

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