Sermão do Inocêncio

Perante a falta de resposta dos responsáveis, uma cornucópia de informação essencial para a nossa história apanha pó nos armazéns quando poderia estar em livre acesso. É este o problema: incúria, falta de continuidade editorial e de memória institucional. No início do século XIX nasceu em Lisboa um homem chamado Inocêncio Francisco da Silva, um simples amanuense que tinha uma ambição simples: reunir num dicionário todas as informações sobre todos os autores de língua portuguesa. Quando morreu, em 1876, a sua missão foi continuada por um simples tipógrafo chamado Pedro Venceslau de Brito Aranha. O Dicionário Bibliográfico Português, muitas vezes chamado apenas por “o Inocêncio”, ficou um autêntico monumento para a história da cultura, não só em Portugal e no Brasil, mas também para a Ásia e a África lusófonas. Os seus 23 volumes tornaram-se raros e caros e, mesmo quando reeditados pela Imprensa Nacional, difíceis de adquirir e guardar pela maior parte das pessoas que deles teriam necessidade. Nos fins do século XX conheci um grupo de gente a quem a Comissão dos Descobrimentos deu a tarefa de digitalizar, rever e recuperar para um simples CD-rom todo o Inocêncio, e para CDs da mesma coleção toda a Bibliotheca Luzitana

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Consequências voluntárias: o fim do estado social europeu

Um dos maiores intelectuais vivos faz uma reflexão realista e sucinta a respeito da Europa atual. Vale a pena ganhar “5 minutos com Noam Chomsky” nesta leitura. Entretanto, deixo convosco algumas linhas de pensamento que se fazem emergentes nos dias que correm. “Europe’s policies make sense only on one assumption: that the goal is to try and undermine and unravel the welfare state.” “The eurozone, in my view, is a positive development in general, but it’s being handled in a way that is undermining the promise it should have. I think it’s widely agreed that there has to be more political union. You can’t have a system in which countries cannot control their own currencies and have austerity imposed on them, when they can’t carry out the measures that any other country would carry out if it were in economic crisis. That’s just an impossible situation and it has to be dealt with.”  

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Europa não, Portugal nunca

Mas não são os grandes subversivos que dão cabo das sociedades acomodadas e sofisticadas como as europeias. São os grandes conformados, e os grandes conformistas, que o fazem. No dia em que a corte, vendo chegar a Lisboa as tropas de Napoleão, se meteu nos barcos para o Rio de Janeiro, a Rainha Dona Maria (que estava louca há quase vinte anos) dizia: “não vão tão rápido, vão pensar que estamos a fugir!” Esta é a melhor descrição que me vem à mente para os acontecimentos no Partido Socialista durante as últimas semanas, desde que Seguro perguntou “qual é a pressa?” de marcar diretas e congresso até ao momento em que marcou diretas e congresso para o mais rápido possível.

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Uma ideia invulgar: o governo para as pessoas

Estive a ver o Estado da União pronunciado na madrugada do dia 12 deste mês por Barack Obama, no Congresso dos EUA. Abstraindo das diferenças culturais, formais e políticas, há uma grande diferença entre o que se passa neste momento nos EUA, como no Brasil, a outra grande federação do Ocidente, e o que se passa na Europa. Barack Obama ainda trabalha com base num pressuposto hoje invulgar no nosso continente e no nosso país: o que se deve governar para as pessoas. Governar para as pessoas vem antes de se governar para as abstrações dogmáticas dos mercados, ou para as convenções do “compacto fiscal” e outras. Governar para as pessoas, e não contra elas, parece evidente — mas por que é que não se faz aqui? Governar para as pessoas pode significar aumentar o salário mínimo para um “salário de vida”. Pode significar criar um plano para as regiões deprimidas, baseado em criar quinze núcleos de altas tecnologias e interligá-los. Pode significar até tentar coisas que, no quadro americano, dificilmente resultam — como baixar propinas, suprimir armas ou diminuir as filas para votar. Mas, ao menos, porra, o presidente no discurso do Estado da União, ainda se lembra que é para as pessoas que governa. Não diz, como Pedro Passos Coelho, que o desemprego está mal e vai ficar pior. Não fica de braços cruzados perante o Congresso como Durão Barroso fica perante o Conselho. Um dia, e espero que não seja muito tarde, ouviremos um Estado da União assim em Bruxelas, um Estado da República assim em Lisboa. Não precisa de ser tão ensaiado, não precisa de ter os seus momentos pirosos e os seus momentos comoventes, não precisa de ser um espectáculo nem precisa de ser articulado por um tipo tão talentoso nem bem parecido. Basta que um dia os nossos governos acordem e percebam que têm de governar para os cidadãos. Corrijo: que nós cidadãos os façamos acordar, para que não façam mais de desentendidos.

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Uma vitória dos direitos fundamentais

Há alguns dias publiquei aqui a notícia do processo que mantinha arguida Bárbara Bulhosa, editora da Tinta-da-China e Rafael Marques, autor do livro “Diamantes de Sangue”. Sobre isso venho dizer-vos, com grande alegria, que ainda há um reino dos direitos fundamentais, a que o poder do dinheiro, das armas, e o poder do poder cru não chegam. Esta não é só uma vitória para o Rafael Marques, a Tinta da China e todos os seus muitos amigos, mas uma vitória para todos nós: «O Ministério Público concluiu, dos elementos recolhidos nos autos, que a publicação do livro “Diamantes de Sangue” se enquadra no legítimo exercício de um direito fundamental, a liberdade de informação e de expressão, constitucionalmente protegido, que no caso concreto se sobrepõe a outros direitos»

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O passaporte da liberdade

Vale a pena tirar alguns minutos para ver este discurso do presidente tunisino Moncef Marzouki, pronunciado no Parlamento Europeu na semana passada. Um discurso de realismo e idealismo, sem fugir a nenhum assunto difícil desde o assassinato de Cokri Belaïd (que tinha ocorrido nessa mesma manhã) até ao fundamentalismo salafista, mas sem admitir qualquer queda no cinismo ou qualquer abandono das nossas responsabilidades como vizinhos e defensores dos direitos humanos, acabando com uma comovente homenagem ao seu orientador académico, judeu, e uma rememoração do holocausto essencial e rara entre os políticos muçulmanos. O melhor discurso que já ouvi no hemiciclo de Estrasburgo. As poucas palavras que aqui deixo não lhe fazem justiça. Abaixo assista ao discurso em português: Moncef Marzouki – Parlamento Europeu 06.02.2013   Ou ainda, assista ao discurso na versão original: Moncef Marzouki – Parlamento Europeu 06.02.2013

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Le problème du fromage

Acima de tudo, pouco disto chegará a ser política comunitária sem uma democracia europeia com eleição do executivo da União. Diz–se que um político português de primeira linha, no tempo em que andava nas juventudes partidárias, foi convidado a visitar a uma capital francófona para um encontro do movimento europeu. A certa altura, calhou-lhe fazer um discurso, soporífero como era seu hábito, e quando viu que o público estava aborrecido de morte, tentou dar um sobressalto às suas palavras , espetando o dedo no ar e gritando: “il faut résoudre le problème du fromage!” Os ouvintes ficaram perplexos: o queijo?! o problema do queijo?! Qual é o problema do queijo e porque é necessário resolvê-lo? Só quando o bravo homem desceu do palanque foi possível resolver a confusão. Falando em francês, o nosso jovem político tinha querido dizer que era preciso resolver o problema do desemprego, e tinha misturado duas palavras, querendo dizer “chômage”, que significa desemprego, saiu-lhe “fromage”, que se está mesmo a ver que é queijo. No fim de contas, não é vergonha: o discurso foi feito, e vinte anos depois ainda é lembrado. E ficou a lição:

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Sobre os comentários neste blogue

Caros leitores, peço a vossa compreensão para o seguinte: serão apagados os comentários repetidos, às vezes dezenas de vezes, tal como os comentários longos com texto desconexo, tal como os outros comentários cujo efeito é apenas o de destruir qualquer possibilidade de debate nas caixas de comentários deste blogue. Melhor ainda, o comentador que usa todos estes métodos (e que aparentemente é apenas e sempre a mesma pessoa) pode por favor parar com essa prática, poupando assim trabalho a si e aos outros. Tenho tido muita paciência e pouco tempo para lidar com este problema, que já dura há alguns meses, e que se sucede a um outro problema semelhante, que durou bem mais de um ano. A partir de agora, todos estes comentários serão apagados. Agradeço a vossa compreensão.

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Por uma democracia democrática

Começa a ser mais fácil discutir do destino de um cachorro ou da última futilidade de uma celebridade do que intervir eficazmente no futuro do país. Portugal tem um problema financeiro, Portugal sofre de um problema económico, mas Portugal é um problema político. A este Portugal hoje, e já há algum tempo, poderíamos chamar-lhe “um problema democrático”. Como assim? Não é Portugal uma democracia, com liberdade de expressão, partidos políticos e eleições livres? Sim. Mas essa banalidade esconde uma boa metade da verdade: a de um país que ainda não se livrou dos seus medos nem se sacudiu das suas estruturas senhoriais.

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