Pessoas

O problema de tratar países como pessoas é que, pouco depois, começamos a tratar as pessoas como formigas que pudessem ser pisadas. O problema de tratar países como pessoas é que, pouco depois, começamos a tratar as pessoas como formigas que pudessem ser pisadas. Isso é sobretudo assim quando falamos de guerra: “a Áustria-Hungria exigiu”, “a França rearmou-se”, “a Alemanha violou a neutralidade da Bélgica”. E nós? E as pessoas como nós, naquele agosto de 1914? Os alemães viviam numa sociedade estruturada pelo militarismo prussiano; os franceses, para constituir um “exército republicano”, instituíram um serviço militar obrigatório que, às vésperas da guerra, ampliaram para três anos; quanto aos ingleses, dispunham de um exército profissional e tiveram de começar a alistar voluntários.

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A ficção da “ficção do bem comum”

Quem quer ser acusado de vaidade por se devotar ao bem comum? Mais vale adotar uma posição de discreta passividade a partir da qual criticar a vaidade de terceiros. Folheando ao acaso “Ricos e Pobres no Alentejo”, de José Cutileiro, encontro a seguinte frase sobre o poder local: “A dificuldade em encontrar alguém disposto a aceitar a presidência da edilidade resultava de várias razões. Em primeiro lugar, a maior parte das pessoas considerava que os afazeres particulares preenchiam totalmente a sua capacidade de actuação e que a devoção ao bem comum era uma ficção inventada por quantos desfrutavam dos atributos externos do Poder e destinada a encobrir a sua vaidade. Em segundo lugar, devido à complexidade e multiplicidade dos problemas submetidos à Câmara, acreditava-se que o presidente precisava de muita diplomacia para não ferir as susceptibilidades de parentes e amigos. Em contrapartida, dado que era forçoso tomarem-se decisões independentemente das suas consequências de ordem pessoal, o indivíduo que ocupava o cargo ficava imediatamente à mercê das críticas que toda a gente, incluindo os amigos, se apressaria a dirigir-lhe”. Estas observações têm quase cinquenta anos. Entretanto, muito mudou.

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Nada é inelutável

Quase cem anos depois, é ainda difícil de entender como foi acontecer isto. E quanto mais difícil de entender é, mais importante se torna. No dia 7 de agosto de 1914, há 99 anos, deu-se uma rara sessão do Congresso da República Portuguesa. O Senado e a Câmara dos Deputados fizeram a sua reunião conjunta no hemiciclo desta, que hoje conhecemos como o plenário da Assembleia da República, para analisar a situação da Europa e preparar a posição de Portugal na guerra que tinha começado poucos dias antes. Bernardino Machado, então chefe do governo, visitara na véspera o presidente Manuel de Arriaga, em Buarcos, e regressara para um Conselho de Ministros extraordinário onde se discutira a resolução que viria a ser aprovada unanimemente pelo Congresso: “Artigo 1º — São conferidas ao poder executivo as faculdades necessarias para, na atual conjuntura, garantir a ordem em todo o paiz e salvaguardar os interesses nacionaes, bem como para ocorrer a quaesquer emergencias extraordinarias, de caracter economico e financeiro. § unico — O poder executivo dará conta ao Congresso, na sua primeira reunião, do uso que tiver feito d’estas faculdades. Artigo 2º — Fica revogada a legislação em contrario.” E pronto. No Congresso, contudo, os políticos tinham sido menos lacónicos, tal como os jornalistas, no dia seguinte: “para nós, portuguezes, a guerra entre a Alemanha e a França tem esta clara significação: são duas civilisações opostas que se chocam, uma baseada n’um principio autocratico, retrogrado, condenado pela nossa epoca, outra, firmando-se na liberdade […]. O predominio da Alemanha sobre a França equivaleria, ninguem o pode negar, á mais tremenda reação contra o espirito novo, que pouco a pouco, vae produzindo a sua formidavel obra transformando. A França, vitoriosa, seria, pelo contrario, a consagração de toda a sua obra de humanitarismo”, escrevia o século, que titulava a toda a página: “DIA DE GLORIA PARA PORTUGAL, O DE HONTEM”. O país não estava ainda em guerra, mas não havia dúvidas sobre o lado que escolheria. E, no entanto…

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Riem-se na sua cara

Riem-se, porque eles um dia disseram: “sabem o que é preciso, para fazer política a sério?” — “abrir um banco”.  Escrevo estas linhas numa aldeia ribatejana de fim de estrada, onde só se escuta a camioneta da carreira, até ao dia em que acabarem com isso também. E, no entanto, até aqui os ouço. Riem-se na minha cara. Riem-se na cara de todos os intelectuais, bem intencionados, politizados desde a nascença, que passaram a vida a dizer aos amigos: “sabes o que era bom, para mudar o mundo?” — “abrir uma editora”, “abrir um jornal”, “abrir uma universidade”, “criar um partido”, “fundar um centro de estudos”. Riem-se, porque eles um dia disseram: “sabem o que é preciso, para fazer política a sério?” — “abrir um banco”. E a partir daí foi só rir. Riram-se na sua cara quando fundaram o BPN, como uma espécie de Herdade da Coelha das instituições financeiras, um lugar confortável para quem tinha estado no PSD e no governo do Professor Cavaco.

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Pim-pam-pum

Uma guerra na Europa era, para a França, a oportunidade de ajustar contas com a Alemanha e recuperar as províncias perdidas da Alsácia e da Lorena, uma obsessão não-declarada na qual os nacionalistas deviam “pensar o tempo todo, mas nunca falar”, como sintetizara vinte anos antes o político Léon Gambetta. A França, ou pelo menos uma parte dela, ansiava pela guerra. Mas, por causa do caso Henriette Caillaux, não a viu chegar. Em 22 março de 1914 uma senhora elegante, com as mãos agasalhadas dentro de um regalo de pele, entrou no gabinete do diretor do jornal “Le Figaro”, um homem chamado Gaston Calmette. “Sabe por que razão estou aqui?”, perguntou ela. “Não faço ideia”, disse ele. E foi aí que ela mostrou uma das mãos, brandindo um revólver. Ele levou seis tiros e já não passou dessa noite. Ela ficou a aguardar julgamento como a ré mais famosa de França. Acontece que a França estava em campanha eleitoral e ela, Henriette Caillaux, era mulher do mais que provável Primeiro-ministro, Joseph Caillaux, líder do Partido Radical, homem a quem o “Figaro” perseguia publicando as cartas de amor que escrevera à atual mulher quando ainda estava casado com outra.

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Há 99 anos

“Tenhamos bem presente sempre o bom exemplo do Japão, e para confronto, o da Turquia” – Jaime Leote do Rego, oficial da marinha e governador de São Tomé e Príncipe acabado de regressar a Lisboa, há 99 anos. Há noventa e nove anos uma carreira política podia implicar três coisas: entrar no partido republicano, escrever n’O Século, e participar em duelos. Para um cavalheiro de quarenta e seis anos chamado Jaime Leote do Rego, oficial da marinha e governador de São Tomé e Príncipe acabado de regressar a Lisboa, as três foram verdade. O duelo à espada deu-se na Estrada da Ameixoeira, contra o seu companheiro d’armas Nunes Ribeiro. O seu primeiro congresso do Partido Republicano foi na Figueira da Foz, onde ouviu falar Afonso Costa sobre defesa nacional. A publicação n’O Século foi consequência dessa experiência. Numa crónica de 20 de maio de 1914, destacada na primeira página, a três colunas, Leote do Rego proclamava:  “obtido o equilibrio financeiro, torna-se urgente reorganizar o exercito e a marinha, a fim de que o paiz seja respeitado e a Republica prestigiosa”. O que me chamou a atenção, porém, foi a comparação entre nações que se segue, abreviada.

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Elixir d’amor

O nosso doutor Dulcamara é, evidentemente, o Professor Cavaco Silva. Antes de fugir para as Ilhas Selvagens, Cavaco deixou uma garrafinha de elixir d’amor a António José Seguro, para tomar nas eleições antecipadas de daqui a um ano. Depois de voltar, tirou-lhe a garrafinha da mão e disse que as eleições só teriam lugar daqui a dois anos. Na prática foi como se passasse o elixir para Pedro Passos Coelho (na ópera, o Sargento Belcore). Esta é uma crónica guardada já há bastante tempo. Estava escrito nas estrelas que ela haveria de estar escrita nestas páginas, e com o protagonista que se verá. Vamos ver se consigo contar a história: segundo uma ópera de Donizetti, morava numa aldeia do País Basco um desinteressante camponês chamado Nemorino. Nemorino estava apaixonado pela rica proprietária Adina, que por sua vez estava enamorada do aventuroso sargento Belcore. Nemorino sofria com a indiferença que as mulheres em geral lhe demonstravam, mas um dia passa lá pela aldeia um curandeiro que se intitula médico e chama a si mesmo doutor Dulcamara, e que vai propagandeando as suas mezinhas aos camponeses (“Escutai!, escutai!, ó rústicos!”, canta ele) e impinge a Nemorino um “elixir d’amor” que o tornará irresistível ao sexo oposto. O ingénuo Nemorino vai arranjar dinheiro, faz a transação e toma o misterioso elixir. Entretanto a aldeia toma conhecimento de que um tio de Nemorino morreu, e lhe deixará toda a herança. As mulheres da aldeia mudam rapidamente de atitude e passam a tentar seduzir Nemorino. Ignorando que é herdeiro de um avultado testamento, Nemorino pensa: “este elixir é mesmo bom!” Em política com “p” minúsculo, o elixir de amor é a proximidade ao poder.

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Projeto Ulisses – Apelo a propostas

Projeto Ulisses – Apelo a propostas Realização de um estudo sobre um Projeto Ulisses para o relançamento das economias periféricas da zona euro: 
Portugal — Irlanda — Itália — Grécia — Espanha

. ENTREGA DE PROPOSTAS ATÉ 15 DE SETEMBRO DE 2013 MONTANTE DO APOIO: €10.000 PARA REALIZAÇÃO DO ESTUDO ATÉ 15 DE DEZEMBRO 2013 (com entrega de uma primeira versão aprofundada até 10 de novembro 2013, como condição sine qua non para o financiamento do estudo). APELO A PROPOSTAS I. RESUMO Apela-se a propostas para a realização um estudo sobre um “Projeto Ulisses” para restaurar a sustentabilidade económica na periferia da zona Euro (Portugal – Irlanda – Itália – Grécia – Espanha), um projeto que mobilizaria recursos ociosos e fundos públicos, a nível da União Europeia, para concretizar projetos estratégicos de investimento. O estudo deve repertoriar cenários possíveis para um conceito de plano de “recuperação e relançamento” para estes países (Como deve ser a sua gestão? Centralizada? Descentralizada? Focada em quais setores? Com que custos? Através de que tipo de financiamento?) – Prazo para apresentação de propostas: 15 de setembro, 2013 – Valor a ser concedido: € 10.000 para a realização do estudo – Finalização do estudo até 15 de dezembro 2013 (com entrega de uma primeira versão aprofundada até 10 de novembro 2013, como condição sine qua non para o financiamento do estudo). II. CONCEITO Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha são os países da zona euro atingidos pelos choques assimétricos mais graves de crise económica sistémica do Euro. Foram já forçados a abdicar de décadas de investimentos e cortar despesas em áreas que são vitais para o seu potencial de desenvolvimento, tais como educação, saúde, assistência social e meio ambiente. No caso de persistirem nesse caminho de depreciação, esse países, que chamaremos a partir de agora os “países Ulisses”, ficarão inevitavelmente para trás na senda do desenvolvimento, agravando-se assim as assimetrias na área do euro. Enquanto isso, as atuais perdas em resultado do choque imediato da recessão / depressão e de subsequentes políticas erradas na frente orçamental, vão revelar os seus efeitos bloqueadores de longo prazo na redução permanente da capacidade de produção destes países, em quantidade e qualidade.

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Momentos decisivos

A proposta de Cavaco Silva encerra riscos graves para o regime, precisamente porque “encerra” o regime. A democracia precisa de respiração, e de espaço livre entre os partidos, e não de um sistema dividido em blocos estanques dentro dos quais os partidos não têm margem de manobra. Escrever o início desta crónica é fácil. Escrevi-o nos últimos tempos não uma, não duas, mas três vezes, a última das quais num ensaio de antevisão sobre os “dilemas de 2013”. Em setembro do ano passado escrevi que “os partidos da oposição devem concordar em encontrar-se e falar, sem precondições”. Em dezembro, numa crónica chamada “Detenham esta catástrofe”, expunha três medidas simples para os partidos da oposição: a primeira era “falarem, sem precondições” (a segunda “enunciar claramente limites a este governo”, a terceira “abrirem-se aos cidadãos e aos eleitores”). Para deixar claro, acrescentava “só há uma precondição: acabar com as precondições”.

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Aníbal Catástrofe Silva

Portugal tem até agora escapado a essa degenerescência do regime, mas não há nada na nossa história nem na nossa sociologia que o impeça. Há até muito fator coadjuvante. Um desses fatores é, precisamente, a ação de Cavaco Silva.    Por vezes descreve-se a função do Presidente da República Portuguesa como a de um árbitro, e há de facto ocasiões em que isso é apropriado. Na quarta-feira passada, Cavaco Silva tinha uma tarefa simples: marcar, ou não, um penálti. Se fosse penálti, Cavaco dissolvia a Assembleia da República e convocava eleições antecipadas. Se não fosse penálti, Cavaco reconduzia o governo e seguia o jogo. Se bem entendi, Cavaco optou por marcar um livre indireto dentro da pequena área, antecedido de negociações entre os treinadores dos “três grandes”, excluindo os outros clubes que jogam no mesmo campeonato (tal como no futebol português, a designação de “três grandes” não tem a ver com tamanho nem antiguidade nem bom futebol mas apenas com proximidade e habituação ao poder). Só a formação da barreira é de uma confusão inaudita, e o Presidente já mostrou vários cartões amarelos. Nas bancadas especula-se que a intenção é mesmo essa, expulsar os treinadores ou os capitães de equipa e passar ele a mandar no jogo. Aconteça o que acontecer, vai haver sururu em campo, e fora dele, nos “mercados”. E ainda há quem diga que este é um árbitro muito sabedor. Como é evidente, teria sido mais fácil, mais simples, mais justo e acima de tudo mais compreensível marcar, ou não, penálti. Ah, Portugal, se fosses só um jogo de futebol.

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