A proposta de Cavaco Silva encerra riscos graves para o regime, precisamente porque “encerra” o regime. A democracia precisa de respiração, e de espaço livre entre os partidos, e não de um sistema dividido em blocos estanques dentro dos quais os partidos não têm margem de manobra.

Escrever o início desta crónica é fácil. Escrevi-o nos últimos tempos não uma, não duas, mas três vezes, a última das quais num ensaio de antevisão sobre os “dilemas de 2013”. Em setembro do ano passado escrevi que “os partidos da oposição devem concordar em encontrar-se e falar, sem precondições”. Em dezembro, numa crónica chamada “Detenham esta catástrofe”, expunha três medidas simples para os partidos da oposição: a primeira era “falarem, sem precondições” (a segunda “enunciar claramente limites a este governo”, a terceira “abrirem-se aos cidadãos e aos eleitores”). Para deixar claro, acrescentava “só há uma precondição: acabar com as precondições”.

Ontem, aconteceu. Pela primeira vez ouvi um líder de um partido da oposição — João Semedo, do Bloco de Esquerda — apelar à realização de reuniões urgentes e “sem condições prévias” entre os partidos da esquerda. Poucas horas depois, o PS aceitou. Até o PCP, que no dia anterior tinha excluído o PS de quaisquer conversas à esquerda, acabou por dizer que não se opunha.

Todas as precauções se impõem. Gato escaldado da água fria tem medo, e ninguém está mais escaldado do que o comum eleitor de esquerda neste país, a quem várias vezes iludiram e desiludiram sucessivamente. Pode ser demasiado tarde, demasiado pouco — e ainda assim prestar-se a aproveitamentos. À hora em que escrevo, a SIC anuncia que Fernando Rosas declarou, à saída da primeira reunião, que “o PS prefere negociar com o PSD e o CDS”. Mas o ineditismo do passo pode fazer escola, e isso é importante.

Ainda assim a pergunta que se impõe é a seguinte: custava muito?

A proposta de Cavaco Silva encerra riscos graves para o regime, precisamente porque “encerra” o regime. A democracia precisa de respiração, e de espaço livre entre os partidos, e não de um sistema dividido em blocos estanques dentro dos quais os partidos não têm margem de manobra. Essa homogeneização dos partidos do sistema foi o que sucedeu na Grécia e na Itália, e em Portugal arrisco-me a dizer que este efeito seria ainda mais grave. Poderia o país não descambar imediatamente para o populismo demagógico, mas o descrédito dos partidos e dos políticos perante os eleitores seria provavelmente irremediável.

A decisão sobre o que pode acontecer à nossa IIª República (recuso-me a chamar “república” à ditadura, por isso esta é para mim a “Segunda República”) está, quase previsivelmente, nas mãos do partido que se tornou o “pivot” dela: o PS. Não digo isto no modelo da invectiva comum à esquerda: “o PS tem de escolher o seu lado, etc.” Não: a questão sobre o lado em que o o PS deve estar é importante, e para quem leu a primeira parte desta crónica não terá dúvidas sobre qual é a minha preferência.

A questão do PS é de certa forma mais simples: o PS deve escolher se quer manter a sua autonomia e margem de manobra enquanto partido central do sistema (veja-se como qualquer solução terá de passar por ele) ou se aceita amarrar-se a um acordo que o ancorará sem apelo nem agravo a um bloco de direita. Se escolher mal, o PS joga o seu próprio futuro com o da república em que ele foi sempre central.

Infelizmente estou pessimista. Cavaco Silva pôs o sistema num tal caos que estamos dependentes do sentido de responsabilidade dos partidos. Se é assim, tenha medo, muito medo.

(Crónica publicada no jornal Público em 17 de Julho de 2013)

6 thoughts to “Momentos decisivos

  • Francisco

    O Senhor Deputado deve ser instruido certo? Então se se recusa chamar à II República, 2ª (nunca IIª), então nunca deveria chamar à I República, 1ª… Pois o Estado Novo era mais democrático que a I República, liberal. E óbviamente a II República, uma república corporativista, era uma república, tão dictatorial como a 1ª e lentamente a IV República, a República europeista nascida em 1995, está a ficar tão autocrática, tão distante da população como as I, II Repúblicas….

  • A.Küttner

    Responsabilidade dos partidos???

    Não a têm!

  • A.Küttner

    Tem que haver uma total renovaçao de todos os partidos/ovimetos “instalados” e da comunicaçao social que lhes anda a reboque!

    MUDAR, MUDAR, MUDAR, MUDAR!

    JÁ!

  • Eloise

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