Bayoneting – Yue Minjun.

Riem-se, porque eles um dia disseram: “sabem o que é preciso, para fazer política a sério?” — “abrir um banco”. 

Escrevo estas linhas numa aldeia ribatejana de fim de estrada, onde só se escuta a camioneta da carreira, até ao dia em que acabarem com isso também. E, no entanto, até aqui os ouço. Riem-se na minha cara. Riem-se na cara de todos os intelectuais, bem intencionados, politizados desde a nascença, que passaram a vida a dizer aos amigos: “sabes o que era bom, para mudar o mundo?” — “abrir uma editora”, “abrir um jornal”, “abrir uma universidade”, “criar um partido”, “fundar um centro de estudos”.

Riem-se, porque eles um dia disseram: “sabem o que é preciso, para fazer política a sério?” — “abrir um banco”. E a partir daí foi só rir.

Riram-se na sua cara quando fundaram o BPN, como uma espécie de Herdade da Coelha das instituições financeiras, um lugar confortável para quem tinha estado no PSD e no governo do Professor Cavaco.

Riram-se quando concederam a filhos e esposas empréstimos de milhões que não tinham intenções de jamais reembolsar. Riram-sequando ex-ministros criaram empresas fictícias para comprar as ações do próprio banco.

Riram-se, talvez de nervoso miudinho, quando as coisas começaram a correr mal. Há um mail em que procuram apressadamente novos membros do Conselho: “este, que é do PS”, “aquele, que é amigo do primeiro-ministro”. Os tempos tinham mudado as caras em São Bento, era preciso acautelar as coisas.

Riram-se quando o banco foi à falência. De alívio. Foi você que pagou a conta e eles, bem, desde que não fossem apanhados a matar alguma velhota tudo haveria de correr bem.

Riem-se na cara de todos os adeptos que passam três horas em frente à TV a discutir um penálti mal marcado. Afinal, um lucro de 150% em ações compradas com dinheiro do vendedor e vendidas outras vez ao mesmo é que é “limpinho, limpinho, limpinho”. Mesmo quando se é presidente do Conselho Superior, como o ministro Rui Machete, não há nada para estranhar. Você quando acha 25 euros na algibeira onde pensava ter só 10 euros, estranha? E se forem 25 milhões? E se tiver mais meia-dúzia de conselhos para presidir?

Eles riem-se na cara da classe média, da classe baixa e até da classe alta. Eles não têm medo da luta de classes, porque eles acham isso fora de qualquer cogitação: eles estão para lá de qualquer classe. No mundo deles há regras especiais que são só para eles. Por isso, riem-se de cada pedido de demissão: sabem que a oposição nunca se vai entender para mais do que lhes pedir a demissão.

Riem-se na sua cara, quem quer que você seja. Riem na cara da aposentada de Bragança, do funcionário público de Coimbra, do rapper da Brandoa, do comerciante falido do Porto, do desempregado e do emigrado e do pós-graduado que procura um bilhete low-cost para vir a casa. Riem-se na cara dos que tiveram de mudar de país por não mudar o país. Riem-se na cara dos que mudaram para o outro país, o país do facebook, o país das bocas de café, o país dos manifestos e petições, o país do “eles são todos iguais”, o país da indignação na expectativa.

Riem-se na cara do intelectual bem intencionado que nem sabe sentir raiva direito e que, por causa dos livros de história, tem pruridos em escrever “eles” e “nós”.

Afinal, eles sempre souberam que havia eles e nós.

(Crónica publicada no jornal Público em 05 de Agosto de 2013)

7 thoughts to “Riem-se na sua cara

  • Paulo Guerra

    E riem-se porque os elegemos é reelegemos. Porque votamos como galinhas que insistem em fugir correndo à frente do carro. E têm algum mérito, há que reconhecer: descobriram como poupar no pão – o circo basta-nos.

  • Ana Sofia Guerra

    Excelente. Quando é que este povo acorda?

  • António Saraiva

    Diz lá ó Vladimir: Que fazer?
    Nós poderemos até ter umas ideias…mas os outros, os outros, não são eles, os outros?
    Arrepiante este desespero…

  • Bm

    Ordem na risota:
    Eleições Setembro, boicote.
    a) Boicote geral ou total;
    b) Boicote ao bloco central PS+PSD+CDS.
    Preparar boicote legislativas…

  • Carlos Carvalho

    Caro Rui Tavares,

    Admitindo que tudo isso é verdade (e como seria bom se ainda conseguissemos saber ao menos o que é a verdade), para além de “sentir a raiva direito”, o que nos resta fazer em Portugal em 2013 para gerar “o que era bom, para mudar o mundo?”

    Grato,
    Carlos Carvalho

  • homer

    O P.S. graças ao Só cretino entregou isto ao P.P.D.( Porra Para a Democracia), de maneira que vão todos votar no Inseguro, e esta treta continua na mesma. O pessoal é estúpido, passa a vida a votar nos animais mais animais que os outros animais, e assim o 25 passa à história.
    Ou ainda não repararam que o P.S. diz-se de esquerda, mas passa a vida a colaborar com a direita?

  • santinho

    Há para aí tantos malucos que não têm nada a perder.
    E nunca mais aparece um que comece a dar tiros entre os olhos a estes pulhas.

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