Revisitação

A vida de um independente não é fácil, quando aceita representar um partido — e eu nunca esperei que fosse. Há pouco mais de dois anos escrevi neste jornal um texto com o título “Um apoio, uma aposta, uma aprendizagem”. Nele anunciava as razões da minha candidatura ao Parlamento Europeu, como independente nas listas do Bloco de Esquerda. Circunstâncias muito recentes obrigaram-me a revisitar esse texto. Declarei ontem, por razões que foram públicas, não me ser possível manter confiança pessoal e política em Francisco Louçã e, em consequência, não poder permanecer na delegação do partido que ele lidera.

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Um apoio, uma aposta, uma aprendizagem

[Texto no Público — de há dois anos — acerca de por que aceitei ser candidato independente nas listas do BE ao Parlamento Europeu. Deixo-o aqui de novo, em vista dos acontecimentos de hoje, sem mais comentários. Mas com os comentários abertos, para dizerem o que quiserem.] Aqui há tempos o eurodeputado e dirigente do Bloco de Esquerda Miguel Portas perguntou-me se eu aceitaria ser candidato independente às eleições para o Parlamento Europeu, e solicitou-me permissão para apresentar o meu nome aos seus camaradas de partido. Depois de pensar sobre o assunto e aconselhar-me com as pessoas mais próximas, disse-lhe que sim. Ontem a Mesa Nacional do BE aceitou o meu nome como candidato independente, em terceiro lugar na futura lista eleitoral. Nas próximas linhas explicarei, nos termos mais concisos que puder, porque aceitei o convite. Em primeiro lugar, trata-se de um apoio. Votei em Miguel Portas nas últimas europeias. Cinco anos depois, estou contente com o voto que lhe dei. O trabalho dele foi produtivo e acima de tudo construtivo, na proposta de soluções para ultrapassar o impasse constitucional, na oposição à Guerra do Iraque, no seu papel crucial na fundação do Partido da Esquerda Europeia. É menos conhecida a Rede de Reflexão Europeia que ele criou, com a participação de pessoas de diversos campos, da academia à imprensa, da sociedade civil à política. Aceitei participar nessas reuniões, como é meu hábito fazer, e verifiquei que decorriam num ambiente aberto, anti-dogmático e consequente que fica a milhas do que os partidos costumam fazer neste tipo de fóruns. (Foi também aí que conheci Marisa Matias, que será a segunda candidata da lista, e que é uma académica e política promissora com quem será um gosto trabalhar.) Quem se candidata em democracia tem sempre uma hipótese, mais ou menos realista, de ser eleito. Se isso acontecer, tenho intenção de levar muito a sério o mandato. O Parlamento é a instituição mais democrática da União Europeia e o seu papel nestes tempos terá de ser mais decisivo do que nunca. Diante de nós há uma bifurcação entre uma União burocrática e uma União democrática. Não é novidade para ninguém que, ao nível europeu, a burocracia está a ganhar à democracia. Ora, a qualidade da democracia europeia será aquela que nós estivermos dispostos a conquistar, e não a conquistaremos sem risco nem esforço. Nesse sentido, este apoio é também uma aposta. Por último, quando alguém próximo me pergunta o que iria eu fazer para o Parlamento Europeu, a minha resposta é “aprender”. Talvez não seja a resposta mais “política” mas é certamente a mais sincera. Aprender é aquilo que sempre mais gostei de fazer. Aprender em público é o que eu tenho feito nos últimos anos. O que vou escrevendo nos jornais ou dizendo na televisão não são opiniões fechadas; são momentos dessa aprendizagem em público. O Parlamento Europeu é provavelmente um dos melhores lugares no mundo para continuar a fazê-lo e tudo o que eu aprender será devolvido ao debate público e, por essa via, aos cidadãos. É portanto um apoio, uma aposta e uma aprendizagem. Esta crise não é igual às outras e não vai deixar tudo igual como antes. Por isso quero incluir aqui algumas palavras sobre a mudança. Há quem ache — são os conservadores de direita, mas também de esquerda — que se deve resistir à mudança. Há também quem ache — na “terceira via” do centro-esquerda, como no centro-direita— que temos de nos limitar a “gerir” a mudança e adaptar-nos a ela. Há ainda a posição bizarra, mas partilhada à esquerda e à direita com resultados muito opostos, de quem acha que nós não temos parte nesta história: de um lado estão convencidos que o “mercado” é tão eficiente que devemos deixar tudo a seu cargo; do outro lado estão ainda à espera que as “contradições do capitalismo” e os “limites do sistema” nos resolvam os problemas por nós. Não concordo com nenhuma destas posições atrás descritas. O nosso papel, do meu ponto de vista, deve ser o de compreender a mudança e nunca fugir a essa obrigação intelectual. Politicamente, porém, o nosso papel deve ser mais profundo ainda. Tentarei resumi-lo numa expressão um pouco arrevesada: é mudar a própria mudança. Que quero dizer com isto? Que não temos de aceitar a chantagem do inevitável nem contentar-nos com medidas meramente epidérmicas — para não dizer cosméticas. Pelo contrário, a própria ideia de democracia parte do pressuposto de que é possível tomar em conjunto decisões fundamentais e transformadoras. À esquerda, “mudar a mudança” quer também dizer que o discurso “alternativo” não pode ser sempre igual nem estar reduzido às mesmas fórmulas se, em vez de ficar à margem, quisermos aproveitar as energias da mudança para a redirigir no sentido da justiça social e dos nossos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. Uma última palavra sobre as consequências pessoais desta decisão. Espero que as linhas que acabei de escrever tenham dado uma boa indicação de que continuarei a ser o que já era e a fazer aquilo que gosto de fazer: ser um independente de esquerda, historiador de formação e vocação, que escreve para ser lido aqui neste jornal ou onde me derem liberdade. Depois de ter pensado sobre o assunto, entendi com alívio que as decisões sobre o que vai acontecer cabem agora a outros: aos eleitores nas próximas eleições, à direcção do Público nas páginas deste jornal, e à direcção da SIC-notícias na estação televisiva onde colaboro. A minha única decisão é esta: onde me derem liberdade, darei o meu melhor.

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A regra de Juncker

Quando o presidente do Eurogrupo não percebe o que a União anda a fazer, ou percebe bem demais e sabe que isso leva ao desastre, é porque rebentou a bolha. Paul Volcker, antigo presidente do Banco Central americano, disse uma vez que a única coisa útil que os bancos inventaram nos últimos vinte foi a caixa automática. O humilde multibanco, acrescentou Volcker, “dá mesmo muito jeito, evita visitas desnecessárias ao banco e ajuda as pessoas — não consigo pensar em mais nenhuma inovação finaceira de que se possa dizer o mesmo”. Noutra ocasião, Paul Volcker disse que não entendia como funcionavam os derivados financeiros como os “credit default swaps”. Alguém respondeu: se calhar devíamos ter uma “regra de Volcker” — “se o Volcker não entende, não podes vender”.

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Nota

Francisco Louçã publicou ontem, às 23:18, na sua página de facebook, uma nota intitulada “4 são mesmo 4”, na qual comenta artigos que terão aparecido na imprensa (jornais “i” e “Sol”) com a informação errónea de que os quatro fundadores do Bloco de Esquerda fossem Luís Fazenda, Miguel Portas, Francisco Louçã e Daniel Oliveira. Como escreve Louçã, “o Fernando Rosas desaparecia da história”, substituído pelo nome de Daniel Oliveira. Francisco Louçã escreve que o jornalista do primeiro artigo “tinha sido levado ao engano por uma informação de uma conversa com o Rui Tavares”, e notando que a mesma informação errónea terá saído noutro jornal, confessa-se “curioso acerca da coincidência de dois enganos tão estranhos”, concluindo que é “simplesmente uma falsificação a tentativa de retirar o Fernando [Rosas] desta história e de a refazer com novos protagonistas”. O carácter público daquela nota obriga-me a responder também publicamente. Como é evidente, nunca disse a qualquer jornalista, ou a qualquer pessoa, em privado ou em público, que Daniel Oliveira fosse um dos quatro fundadores do Bloco de Esquerda, e jamais omitiria o nome de Fernando Rosas para o substituir fosse por quem fosse. Conheço muito bem a história da fundação do Bloco de Esquerda e já conhecia na época vários dos seus protagonistas. Nunca mentiria nem levaria alguém “ao engano” sobre ela, porque simplesmente é coisa que nunca faço. Ponto final, parágrafo. Adicionalmente, lamento a aparente leviandade com que Francisco Louçã extrapola em público sobre a sua curiosidade “acerca da coincidência de dois enganos tão estranhos”, ligando-a um deputado eleito em listas do seu partido, sem ter feito o mais fácil que seria telefonar a esse deputado para procurar satisfazer essa curiosidade. Mas Francisco Louçã vai mais longe, utilizando num contexto em que citou o meu nome termos e expressões como “falsificação” e “tentativa de refazer a história” que para um historiador como eu têm implicações tão graves que não podem simplesmente passar em claro. Eu não sou, caro Francisco Louçã, dos que refazem a história. E, politicamente, eu não sou daqueles que apagam um camarada da fotografia para lá pôr outro. Orgulho-me de ter sido aluno de Fernando Rosas e tenho por ele enorme respeito pessoal e profissional. Com ele e com outros aprendi a ser historiador e irrepreensível em matéria de facto histórico. Ninguém — nem sequer o líder do partido pelo qual fui eleito — põe em causa, em vão, a boa-fé e honestidade por que me pauto nestas questões. Sou também, nestas matérias, absolutamente impermeável às conveniências políticas de momento. Na véspera de uma Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, teria sido fácil a Francisco Louçã esperar para perguntar, aos muitos amigos e camaradas que tenho entre os que estiveram hoje à sua volta, se eu seria capaz de enveredar por “falsificações” ou “tentativas de refazer a história”. A minha segurança é tal que sei que todos lhe diriam que tal é impossível. No quadro dos difíceis debates que se avizinham para a esquerda portuguesa, é de lamentar que a nota de Francisco Louçã, e a resposta que me vejo forçado a dar-lhe, possam servir de manobra de diversão. Mas a política, e tudo na vida, faz-se respeitando a dignidade das pessoas, agindo com boa-fé e não lançando sobre elas suspeitas em filigrana. O mínimo que espero de Francisco Louçã é que esclareça a confusão que levianamente criou, peça desculpas pelo facto, e retracte o seu texto. Rui Tavares. Bruxelas, sábado 18 de Junho de 2011.

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Bloco: duas ou três coisas que sei sobre ele

Porém o Bloco teve o seu pior resultado, as razões, contudo, não estão nas condições externas, mas num desencontro entre eleitorado e partido sobre aquilo que ele poderia ser. 1. O problema do Bloco nas sondagens não começou com o apoio a Manuel Alegre, nem com a moção de censura, nem com a falta à reunião da troika, nem com os possíveis ziguezagues entre uma coisa e outra. Pedro Magalhães, politólogo e especialista em sondagens, publicou no seu blogue um gráfico no qual as intenções de voto no BE caem quando a campanha de Manuel Alegre começa a correr mal. Mas antes dessa descida o BE tinha também subido com Manuel Alegre, voltando a ser o terceiro maior partido em intenções de voto. O efeito, antes e depois, parece uma pequena montanha num vale não muito profundo. Cujo declive tinha começado no segundo de 2009. Foi aí que parou a imparável tendência de crescimento do BE. Com efeito, o BE passou grande parte de 2009 numa cordilheira,

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Muitos, todos, cada um

A visão que a esquerda tem de si mesma e a que a direita tem de si mesma não se justapõem, elas discordam até nas suas discordâncias. Um blogue de direita, o 31 da Armada, leu a minha última crónica, na qual escrevi que “mais do que uma doutrina ou uma ideologia, a esquerda é a aliança daqueles que não são ricos nem poderosos” e acusa-me de enveredar por uma “caricatura de contornos novecentistas” num texto assinado por João Vacas e ilustrado por uma caricatura de contornos oitocentistas. Vamos começar por uma coisa simples e encontrável em qualquer enciclopédia. A palavra “novecentista” refere-se ao século XX, isto é, aos anos após 1900. A palavra que se refere ao século XIX, cujos anos começam por 1800, é “oitocentista” — e dá-me a forte impressão de que era essa que o nosso bloguer conservador quereria ter usado para me chamar. Agora vamos complicar um bocadinho.

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Uma constatação

Ninguém é de esquerda só por dizer que é de esquerda, olha para o que eles fazem e não para o que eles dizem. É, apesar de tudo, injusto dizer que a esquerda portuguesa não consiga estar de acordo. Para dar um exemplo, perguntemos por que não consegue a esquerda portuguesa convergir e a resposta vem pronta: a culpa é do outro partido. O Partido Socialista dirá, como quem constata uma evidência, que PCP e Bloco estão arrinconados numa confortável posição de protesto e que evitam, ao mínimo pretexto, implicar-se numa governação do país que seja pragmática. Bloco e PCP dirão que o PS deriva para o centro quando está no governo, quando não aplica medidas que parecem ter saído direitinhas do manual da direita. Apontam para o legado de Sócrates e perguntam se alguém no seu perfeito juízo poderia esperar que fossem eles a salvá-lo.

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Período de reflexão

Teremos governo de direita, com um programa que fará o cavaquismo parecer um oásis social, e para durar oito anos. Não tenho ilusões. Ontem acabou de se confirmar uma viragem histórica em Portugal, e eu estou do lado perdedor. O país chegou a estas eleições exangue e entregue às mãos impiedosas da troika. Simbolicamente, bateu já no fundo, ou pensa que bateu — a julgar pelo exemplo da Grécia e da Irlanda, este fundo não tem fundo. Socialmente, aproximam-se tempos duríssimos; politicamente, a descrença vai ser amplificada pelos sucessivos falhanços em chegar às metas do memorando; culturalmente, no sentido mais profundo, Portugal vai esvair-se. Esvair-se em crença num futuro desenvolvido, europeu e próspero. E esvair-se em gente que ainda tenha sonhos. Desculpem, quem está do lado perdedor deveria começar por falar dos vencedores.

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Um ressurgimento

Um projeto político precisa de idealismo para marcar a diferença em relação ao que existe. E pragmatismo porque terá de construir uma maioria, e essa maioria só se faz com os que são diferentes de nós. Costuma dizer-se que toda a política é local — ou seja, que uma eleição se ganha ou perde pelo mais paroquial preconceito. Mesmo que fosse verdade, deveríamos fazer política para que se torne mentira. Considerem a seguinte história. Há uns anos, a província italiana da Puglia preparava-se para eleger um governador. Região conservadora, pobre, há anos nas mãos dos clientelismo e da versão local da mafia, a Sacra Corona Unita. A esquerda, como sempre, dividida. Os caciques já tinham as suas escolhas em mente e os aparelhos partidários em campo. Mas houve uma ideia simples que se intrometeu.

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Fora do tempo e do espaço

Há ainda formas de, no jornalismo, descrever, resumir, interpretar. Creio que a isso até se chama, salvo erro, fazer jornalismo. Liguei o aparelho na RTP1. Segunda parte do Manchester-Barcelona, uma boa surpresa, tinha-me esquecido do jogo. Esperei pelo Telejornal. O país a uma semana de uma eleição, num momento crítico, etc. — vocês sabem a história. A primeira notícia do Telejornal foi sobre o jogo de futebol que eu tinha acabado de ver. Era uma final europeia, tudo bem, mas a notícia era redundante: o jogo tinha acabado 30 segundos antes, que diabo, naquele mesmo canal. Não me lembro de quais eram as notícias seguintes. As chuvadas, um acidente, essas coisas. Sobre a campanha havia primeiro uma peça sobre o lado íntimo, ou lá o que era, de Pedro Passos Coelho: o candidato explicava que nunca foi gordo, que não gostava de se sentar na relva porque lhe doía o rabo, etc. Tive pena dele; é preciso paciência para fazer aquele papel e ouvir aquelas perguntas, sempre com o mesmo sorriso na cara. Depois veio uma peça sobre Julio Iglesias

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