A vida de um independente não é fácil, quando aceita representar um partido — e eu nunca esperei que fosse.

Há pouco mais de dois anos escrevi neste jornal um texto com o título “Um apoio, uma aposta, uma aprendizagem”. Nele anunciava as razões da minha candidatura ao Parlamento Europeu, como independente nas listas do Bloco de Esquerda.

Circunstâncias muito recentes obrigaram-me a revisitar esse texto. Declarei ontem, por razões que foram públicas, não me ser possível manter confiança pessoal e política em Francisco Louçã e, em consequência, não poder permanecer na delegação do partido que ele lidera.

Tenho orgulho em ter feito parte da última candidatura europeia do BE e em nela ter dado o meu melhor. Com o Miguel Portas e a Marisa Matias construímos um discurso europeísta de esquerda em que a justiça económica, a ecologia e as liberdades democráticas eram igualmente cruciais. O resultado que obtivemos foi o melhor de sempre do BE, e eu fui inesperadamente eleito; mas eu teria sempre apoiado aquela candidatura que deu esperanças às pessoas de que uma esquerda diferente e aberta tivesse finalmente chegado à maturidade, e que isso serviria para mudar o país e a Europa. A única esperança, aliás, que me move a fazer política.

A vida de um independente não é fácil, quando aceita representar um partido — e eu nunca esperei que fosse. Logo no dia a seguir às eleições (literalmente, acreditem) entramos no percurso que Sá Fernandes celebrizou. Primeiro, o independente faz falta. Depois, o independente começa a não dar jeito. E, finalmente, abre-se a caça ao independente.

Num caso como o meu, de alguém que escreve o que pensa duas vezes por semana, sob o olhar do público, as coisas não ficam mais fáceis. Se acontece discordar do partido, é normal e legítimo que o partido não goste. Mais estranho é apoiar o partido — como eu fiz com o BE nas últimas eleições — e sentir reforçar-se a discreta mas eficaz ostracização que já se vinha exercendo desde 2010.

Quando a ostracização não chega, passa-se à insinuação. A nota que Francisco Louçã publicou no seu facebook e que me envolveu é, nesse peculiar, um clássico. Começa por dizer que um jornalista foi “levado ao engano” por mim (aquela voz passiva sabe muito: evita dizer que eu “enganei”). Segue confessando “curiosidade por coincidências tão estranhas” de que eu estaria na origem. E acaba já proclamando “falsidades” de quem quer “refazer a história”. Anos de purgas condensados em três parágrafos, por alguém que, evidentemente, não quis pegar num telefone para saber do seu deputado que tudo aquilo era mentira. Há um dever de lealdade entre o líder de um partido e os deputados desse partido. Esse dever foi quebrado, e não foi por mim.

Curiosamente, é quando Louçã reconhece a custo o “erro da Troika” que os esforços para purgar os mensageiros que primeiro o avisaram desse erro redobram. Mas quem conhece estas coisas não se surpreende. O chefe dá um sinal ambíguo, os acólitos tratarão do resto. Isto parece-se demasiado com a velha esquerda.

Onde me derem liberdade, eu darei o meu melhor. Esta frase, eu não escrevi agora. Foi a frase com que terminei o meu texto de apresentação de candidatura.

Antes tinha escrito também: “quem se candidata em democracia tem sempre uma hipótese, mais ou menos realista, de ser eleito. Se isso acontecer, tenho intenção de levar muito a sério o mandato. Não é novidade para ninguém que, ao nível europeu, a burocracia está a ganhar à democracia. Ora, a qualidade da democracia europeia será aquela que nós estivermos dispostos a conquistar, e não a conquistaremos sem risco nem esforço”.

Não mudaria, naquele texto, uma só letra. Fiz bem em voltar a lê-lo, e ouso pedir-vos que o releiam também. Nele encontrei o compromisso — comigo e convosco — que tenho o dever de cumprir.

(Publicado no jornal Público em 22 de Junho de 2011)

7 thoughts to “Revisitação

  • NR

    Toda esta situação é de lamentar, como acredito que o próprio Rui Tavares lamenta, mas segundo o que aconteceu parece ter sido de facto inevitável. A posição de Louça foi clara, e infeliz. Em relação a ela acho que o próprio Rui já disse o que teria a dizer.
    No entanto, considero que a actual direcção e rumo do BE precisam de ser repensadas, e não o digo apenas pelos resultados eleitorais de 5 de Junho, mas pela sensação que nos últimos tempos tem transparecido de falta de cultura democrática, inclusive com as mais baixas críticas por parte de quem defende uma opinião diferente, logo acusado de amigo do imperialismo, de amigo da direita, de neoliberal deverá faltar pouco… Não é necessário ir muito longe, casos como o de Daniel Oliveira são igualmente demonstrativos do que actualmente sucede com Rui Tavares. Já para não falar de anteriores, como o de José Sá Fernandes e Joana Amaral Dias, ainda que de diferentes contornos.
    A entrevista ontem concedida por Miguel Portas é bastante ilustrativa do que se passa, e de onde destaco a seguinte frase:”A nossa decisão foi culturalmente arrogante e sobrestimou a capacidade de indignação da sociedade portuguesa e subestimou o medo em que a sociedade mergulhou com os níveis de desemprego e insegurança que a atingiram.” Parece existir no BE um rumo de afunilamento, de recusa ao diálogo e ao compromisso com outros sectores da esquerda, de diferentes opiniões. E acreditem que nem falo do PS, pois este PS actual não é de facto de esquerda, ainda que considero que existam no PS sectores e figuras que ainda o sejam, e pretendam encetar diálogo com outras forças políticas como o BE de forma a ganhar mais força. Na minha opinião existe um largo espectro político que fica entre o BE e o PS, cada vez maior devido ao afunilamento e recusa de diálogo por parte do BE ao mesmo tempo que há uma viragem ao centro por parte do PS, e que infelizmente os responsáveis políticos não são capazes de o compreender. O Rui Tavares parece-me ser uma dessas pessoas, claramente de esquerda, com ideias próprias, e que foi um excelente sinal dado pelo BE em 2009 que esse espaço poderia ganhar representação. Daí também se justifica o excelente resultado obtido pelo BE, que tem uma base social não muito representativa na sociedade portuguesa, e que ao ter a humildade democrática de procurar outros caminhos conseguiu um excelente resultado. Nessa eleição em concreto, quer estivesse ou não o Rui Tavares nas listas, o meu voto teria sido BE, mas sem ele o partido nunca teria tido 3 deputados eleitos. Espero que agora, fora do partido, continue politicamente activo, tanto no Parlamento Europeu como fora dele. Parece-me que é capaz de dar um importante contributo.
    Quanto à questão da não renúncia ao lugar de deputado e à mudança para os verdes europeus, considero que Rui Tavares tem toda a legitimidade em tê-lo feito. Em primeiro lugar, é preciso não esquecer que Rui Tavares foi eleito como Independente, e em segundo, como já disse anteriormente, sem Rui Tavares na lista o BE nunca chegaria ao terceiro mandato, que foi conseguido “in extremis”. Se Rui Tavares considera que politicamente se encontra melhor integrado no grupo dos Verdes, essa é uma decisão do próprio. Relativamente as acusações mais rasteiras que tem sido levantadas, dizendo que Rui Tavares está agarrado ao “tacho” e ao salário que ganha como deputado, parece-me dizer muito mais das pessoas que as proferem do que do próprio Rui Tavares.

  • Filipe Falé

    Este episódio é sintomático de uma Era na qual a ética pessoal e o brio profissional sao substituídos, ou incentivados a se-lo, pela escolástica bajulação que corroi a maior parte das nossas instituicoes. Lembro-me de ler o texto de há dois anos e rever-me nele logo só é natural que me reveja na tua resposta. Bem haja e que tenhas a liberdade que todos merecemos.

  • paulo

    O independente começa a não dar jeito quando pactua com negócios corruptos e com grave prejuízo para o erário público como foi o caso de Sá Fernandes que estava a favor do célebre negócio dos contentores.
    Com negócios daqueles o independente começa a não dar jeito.
    Relativamente à sua situação apenas usou um pretexto para sair,só se esqueceu de abandonar o parlamento Europeu já que foi eleito pelo BE como independente e sempre votou de forma livre e independente,logo se não tem condições para continuar ponha o lugar à disposição ou para a próxima concorre às eleições num partido próprio.
    Louçã cometeu uma atitude indesculpável,mas você não ficou atrás já que antes de Louçã falar já negociava com os verdes.
    Se por acaso se associar ao PS no futuro todos irão pensar que usou o BE como trampolim e lembre-se que o PS é a antítese de tudo que diz defender.

  • paulo

    “NR” o PS de centro?O PS em matéria económica é claramente de centro direita,mais direita do que centro.Este PS governou mais à direita do que qualquer governo do PSD.Hoje, é claramente um partido de direita como o PT inglês.A ala esquerda do PS social democrata devia integrar-se no BE e fazerem um novo partido.Aí sim, Portugal tinha futuro.Nenhum partido de esquerda podia dialogar com este PS já que este virou tanto à direita, de forma irredutível que o diálogo tornou-se impossível.
    Já se esqueceu como o PS tratou o Manuel Alegre?
    O Rui devia primeiro ter falado com o Louçã em privado e tentar negociar uma situação satisfatória para ambos que nunca passaria pela demissão do Rui que é uma grande valia no partido.

  • José mestre

    O que o Paulo disse eu subscrevo.
    E só posso lamentar – e não estou a ser irónico – a falta de coerência do Rui Tavares.
    E já agora, confesso, vai entristecer-me quando num futuro próximo o vir a colaborar com o PS- como eu queria estar enganado. Não por uma questão pessoal, mas pelo isso demonstra da fragilidade da Esquerda portuguesa.

    Saúde e Fraternidade

  • Paulo Antunes

    Meu caro Rui Tavares: em primeiro lugar obrigado por ter aceite o meu pedido de amizade formulado depois de toda esta trapalhada em que está envolvido. Tomei essa iniciativa por querer, ou pelo menos tentar, compreender as suas razões. Em primeiro lugar deixe que lhe diga que o conheci através do acompanhar das primárias americanas, no jornal publico. Partilhava da sua esperança e o seu posicionamento, motivo pelo qual me agradou a sua presença na lista do BE nas europeias, mesmo sabendo que era independente, visto que através de pessoas como o rui o BE era fiel ao seu proposito de acrescentar esquerda à esquerda. E da mesma forma que fiquei satisfeito com a sua eleição, me desagrada o processo e as causas que invoca para ter abandonado o barco do bloco a meio e numa altura dificil…Penso que não esteve bem Rui e pensou mais em si do que no projecto colectivo que o Rui aceitou integrar. Já nem falo nas razões por si invocadas e personalizadas no FL, como se não existisse mais bloco para alêm do Louça… Pergunto eu, a pessoa mais importante no seu processo de inclusão nas listas do BE, não se chama Miguel Portas? e para além do louça e Miguel não existem outros militantes e simpatizantes do BE que mereciam outro respeito seu!!! desculpe mas era isto que lhe queria dizer. Vou continuar naturalmente a acompanhar os seus textos e desejar que eu estaja enganado no que hoje penso deste processo… abraço

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Felicito-o Rui Tavares, pela posiçao digna e coerente que assumiu. Parabens.

    Nota-se, constata-se que a assim continuar, não está de mdo algum a “servir-se, agarrado ao tacho”. Parabens.
    Força! Continue.

    Um abraço.

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