A loucura não existe fora da sociedade nem se trata de uma forma binária, louco ou não-louco. Há uma gradação, há momentos e há tipos de loucura. No Verão passado, quando o assassino Anders Breivik matou na Noruega mais de setenta pessoas, na sua maioria adolescentes, passei dois dias lendo o seu compêndio de mais de duas mil páginas com elucubrações contra o multiculturalismo, descrições da preparação do seu atentado e uma enxurrada de recriminações aos muçulmanos, aos sociais-democratas e à esquerda em geral. Desde então a opinião de que esse assassino era um louco acabou por se tornar dominante. Tanto quanto sei, foi até validada num primeiro momento pelo sistema judicial norueguês, o que gerou controvérsia e levar ao pedido de uma segunda avaliação psiquiátrica do assassino. A sociedade procura uma resposta a essa pergunta — é louco ou não é louco — como se ela fosse o fim do assunto. E, no entanto, ela é só o início.