Se isto fosse a rua lá do bairro, Relvas seria o pintas, sempre excitadiço; Gaspar seria o professor Pardal, um bocado esquisito, cromo que ficou fechado em casa a ler, usando um sentido de humor que o pessoal não apanha bem, mas — no que importa — o gajo deve ser mesmo um ás, pá.

Nota Medeiros Ferreira o erro que cometeu Pedro Passos Coelho ao deixar concentrar a implementação de políticas económicas nas mãos do ministro das finanças: “Os fundos serão a única alavanca para o crescimento do PIB em Portugal nos próximos dois anos. A coincidência no mesmo ministro monetarista de duas metas diferenciadas — a do equilíbrio orçamental e a do crescimento económico — vai matar a necessária tensão entre propósitos da governação do país. A gestão dessa ponderação caberia a um verdadeiro primeiro-ministro”.

Isto é verdade: em geral, um governo vive da resolução entre necessidades opostas que só o primeiro-ministro pode resolver. Se a necessidade de controlar as contas e a necessidade de ajudar a economia a crescer são deixadas com o mesmo ministro isto significa que há um lado inteiro do governo que se resolve nos confins de uma só mente. E essa mente não é a de Pedro Passos Coelho, mas a de Vítor Gaspar.

Curiosamente, o que aconteceu vem acrescentar-se ao facto de já haver um outro primeiro-ministro “bis” que trata de tudo o que é pasta mais política do governo: Miguel Relvas. Este é em tudo o contrário do que é Vítor Gaspar. Miguel Relvas tem um passado muito mais parecido com o de Pedro Passos Coelho (político desde a juventude partidária, licenciatura feita tardiamente, aparelhista profissional que teceu, a partir dos bancos do parlamento, dos encontros do partido e dos corredores das empresas uma rede internacional de contactos de negócios) com uma característica: Gaspar parece demasiado aquilo que é, disfarça pouco, e entusiasma-se muito: um desenrascado notável.

Gaspar é para Relvas aquilo que ele e Passos Coelho não podem ser. Se isto fosse a rua lá do bairro, Relvas seria o pintas, sempre excitadiço; Gaspar seria o professor Pardal, um bocado esquisito, cromo que ficou fechado em casa a ler, usando um sentido de humor que o pessoal não apanha bem, mas — no que importa — o gajo deve ser mesmo um ás, pá. Não que o pessoal tenha forma de saber mesmo se ele é um ás, mas lá que parece, lá isso parece. E como os acontecimentos ultrapassam o pessoal, é melhor garantir que há um Gaspar aos comandos daquilo que a gente não entende.

Já naquilo que o pessoal entende, ou julga que entende, Relvas toma conta da bola. Ele acha que sabe que os adeptos de futebol portugueses não podem ser racistas, e di-lo; ele acha que o melhor é o pessoal emigrar, e di-lo; ele esquece-se que a RTP dá lucro, e acha que é melhor privatizá-la; mas enquanto não o faz talvez um programa em Angola até não calhe mal.

A questão é saber quanto tempo isto é sustentável. Não o digo por Passos Coelho, que parece estar satisfeito assim: é primeiro-ministro, que mais poderia querer do que ter um pintas para desenrascar o governo e um professor Pardal para lidar com os senhores de Bruxelas. Não o digo por Paulo Portas, que ficará feliz com quantas mais figuras folclóricas e vice-primeiro-ministros Pedro Passos Coelho lhe puser à frente, para o escudar dos disparates que forem acontecendo.

Digo-o pela própria dinâmica entre estas duas metades do governo, a dupla que nos governa em conjunto com a troika, no pelouro de Gaspar, e com as redes clientelares do país e ultramar, pelouro de Relvas.

4 thoughts to “O Pintas e o Professor

  • Joao amaral

    Caro Rui Tavares
    Apesar de não o conhecer, envio-lhe os meus parabéns:
    1) apesar de simbólica a instituição das bolas é um indicio de caracter;
    2) o insistir na aplicação do acordo ortográfico mostra que é possível escrever bom português, ao contrário do que outros “velhos de Restelo” dizem.;
    3) aprecio de uma forma sentida como DPhil in Mathematics pela University of Oxford, que um historiador seja capaz de citar números de forma mais correcta que um ministro que e diz “matemático”

    Um abraço

    João amaral

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Se calhar seria possivel dispensar todo este Governo,Ministros, Secretários, Secretarias, Automoveis, Agua, Luz….etc……… e ficaria só a Troika, era mais uma poupança, menos gente sempre a falar e a nada dizer.

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Assim, não vamos lá!!!!!!!!

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Parabens Rui Tavares pelo que continua a bem escrever.

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