O facilitismo do facilitismo

O dificultês é a conversa que estes governantes usam para ocultar que desistiram. Ou às vezes pior. Há uns anos iniciou-se uma voga no ataque ao ensino público que andava sempre em torno da ideia de facilitismo; o grande sucesso dessa voga foi a criação de uma palavra nova, o eduquês, que seria uma linguagem burocrática complicada que ocultava o facilitismo. Retoricamente é um dispositivo brilhante. O problema é que é  facilitista. E tal como no seu espelho, este discurso está encoberto por um tipo específico de linguagem. Chamemos-lhe o “dificultês”. O dificultês é sucesso garantido. Nós bem gostaríamos de criar mais emprego jovem mas, dadas as dificuldades do país, o melhor é emigrar. Nós bem gostaríamos de fazer

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O Pintas e o Professor

 Se isto fosse a rua lá do bairro, Relvas seria o pintas, sempre excitadiço; Gaspar seria o professor Pardal, um bocado esquisito, cromo que ficou fechado em casa a ler, usando um sentido de humor que o pessoal não apanha bem, mas — no que importa — o gajo deve ser mesmo um ás, pá. Nota Medeiros Ferreira o erro que cometeu Pedro Passos Coelho ao deixar concentrar a implementação de políticas económicas nas mãos do ministro das finanças: “Os fundos serão a única alavanca para o crescimento do PIB em Portugal nos próximos dois anos. A coincidência no mesmo ministro monetarista de duas metas diferenciadas — a do equilíbrio orçamental e a do crescimento económico — vai matar a necessária tensão entre propósitos da governação do país. A gestão dessa ponderação caberia a um verdadeiro primeiro-ministro”. Isto é verdade:

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Não, ainda não acabou

Os líderes europeus saem agora das cimeiras para declarar que estão descansados e que a crise finalmente acabou. Não, não é verdade — e as condições estão criadas para que ela seja pior ainda. Se ainda tivéssemos capacidade para o escândalo, isto deveria chegar. Num único dia de dezembro passado o Banco Central Europeu disponibilizou 500 mil milhões de euros em empréstimos para os bancos europeus. Isto é mais do que o que foi emprestado à Grécia, à Irlanda e a Portugal em dois anos. Num único dia de março, o Banco Central Europeu decidiu reforçar a dose e os bancos europeus não se fizeram rogados: de assentada, tomaram mais de 500 mil milhões de novos empréstimos. E quem não o faria? O juro era de um por cento. Aos países pedem-se juros cinco vezes maiores, e mais. Como bem sabemos, um país que recebe um empréstimo é obrigado a tomar medidas de austeridade, quer elas funcionem quer não. Com os bancos, passa-se o contrário: o Banco Central Europeu esforça-se por deixar claro que aqueles empréstimos são sem condições, que os prazos de pagamento foram triplicados e que, para os obter, qualquer garantia serve.

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Como as coisas funcionam

Aquilo de que precisamos mais do que nunca, num jornal, é uma explicação de como as coisas funcionam. As pessoas já sabem das notícias, já ouviram os comentários, mas continuam a querer tentar entender como funcionam as coisas.  O recém-falecido fundador da Apple, Steve Jobs, dizia sobre o design: “as pessoas, na sua maioria, cometem o erro de pensar que o design é aquilo que uma coisa parece. Mas o design não é só o que as coisas parecem. O design é como as coisas funcionam.” Vamos usar o exemplo que o leitor tem agora nas mãos: o desenho deste jornal é hoje diferente. Mas um desenho diferente não é importante por si, mas porque permite coisas diferentes. Aquilo que lemos com os olhos — o desenho — é o que nos permite ler o mundo com a cabeça. Para que serve um jornal?

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No dia das doenças raras

A maior parte dos medicamentos não custa milhares de euros a produzir. O que custa é pagar os preços que as grandes farmacêuticas se permitem exigir, por deterem monopólios que os estados lhes concederam (as patentes). Em Portugal já toda a gente ouviu falar da doença dos pezinhos: uma doença rara, endémica em localidades costeiras do Norte (Póvoa do Varzim, Vila do Conde, Caxinas), que se manifesta em geral por volta dos vinte anos, e cujos primeiros sintomas são as dores nas pernas. A doença dos pezinhos, ou paramiloidose, vai degradando as suas vítimas até atingir o coração e os rins. A doença, a menos de um transplante de fígado, é fatal. Estas são as más notícias. A boa notícia é que

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As bruxas da desconfiança

Quando desenharam a moeda única, os pais e mães do euro poderiam ter escolhido fazer uma jangada. Mas olharam para o rio de águas calmas à sua frente e disseram “vamos só amarrar-nos a todos com uma corda e atravessar a vau”. Num magistral estudo de “oito séculos de insanidade financeira” sugestivamente intitulado Desta Vez é Diferente — a expressão que nos deve deixar em sobressalto quando a ouvimos de alguém que vai fazer um negócio, pois é certo e sabido que quando se entra no convencimento de que nada vai dar errado porque “desta vez é diferente” o que acontece é que estamos ao virar de uma esquina para o colapso — os professores de economia Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, escrevendo logo a seguir ao colapso financeiro de 2008, têm a páginas 288 um curioso gráfico dos países que estão prestes a “diplomar-se”. E o que significa esse diplomar-se, para um país?

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Um debate

“Podemos permitir tudo menos que o euro se torne num instrumento de divisão entre europeus — expressões como «países centrais» e «países periféricos» são de recusar inteiramente”, disse Monti, lembrando que “a Alemanha e a França foram os primeiros responsáveis pelo desrespeito do Pacto de Estabilidade e Crescimento” Há uma semana, a vinda ao Parlamento Europeu em Estrasburgo do Primeiro-Ministro italiano Mario Monti foi um momento inédito na construção de uma esfera democrática europeia e um momento importante no debate público sobre a crise que aflige a União Europeia. Foi um momento inédito na integração democrática europeia porque, em geral, os chefes de governo que se dirigem ao Parlamento Europeu fazem-no apenas quando o seu país assume a Presidência do Conselho. A vinda de Mario Monti, um chefe de governo tecnocrático, marca a posição do Parlamento Europeu enquanto casa da democracia no  continente e lugar onde se deve fazer a discussão sobre a crise.

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Palavras estáticas e dinâmicas

As novas palavras da moda, em Bruxelas, são “solidez e solidariedade”. Ver o carrossel de palavras que tem entretido os políticos desde que esta crise começou é revelador. Quase todos estiveram apaixonados por “austeridade”; fazia-os ser populares dizendo coisas que passavam por supostamente impopulares, e eles não resistiram ao seu charme. De cabeça perdida, fizeram tudo o que a austeridade queria. Meteram-se num buraco, e a nós com eles. Foi assim que começaram a ouvir os comentadores que diziam: “não pode ser só austeridade, é preciso falar também de crescimento”. E eles reuniram-se numa cimeira em Bruxelas, e fizeram a vontade aos comentadores: falaram de crescimento. E depois foram embora. De forma que chegou a vez da solidez e da solidariedade. Ditas em inglês, como é da praxe, mas pensadas como se fossem de duas línguas diferentes.

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Povos e circunstâncias

O Rapto de Europa – Gustave Moreau Europa é nome de mulher. Mas, curiosamente, Europa não era europeia. Europa, a mulher por quem Zeus se encantou, era uma princesa fenícia, ou seja, da região do Líbano. O que significa que Europa era, na verdade, asiática. Além de mulher e estrangeira, Europa foi violada e sequestrada, e trazida para a ilha de Creta. Foi desta história pré-moderna (que parece pós-moderna) que nasceu a ideia de Europa. Nasceu na Grécia, em grego, mas olhando o continente a partir de fora. Só assim poderia ser.

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Manifesto: SOMOS SOLIDÁRIOS COM O POVO DA GRÉCIA

Todos os dias nos chegam imagens e notícias da Grécia e do povo grego em luta contra o cortejo de sacrifícios que lhe tem sido imposto. É clara, naquele país, a crescente fractura entre os cidadãos e o poder político, em torno da invocada necessidade de cada vez maiores sacrifícios para que a dívida seja paga e o défice orçamental reduzido. Acentuam-se a tensão e a violência, tornando ainda mais difícil o diálogo indispensável à procura de soluções mais justas e partilhadas para a situação existente. Avolumam-se o isolamento e a discriminação da Grécia, fortemente acentuados pelo discurso dominante dos principais dirigentes europeus e da comunicação social. A preocupação doméstica em sublinhar que “não somos a Grécia” é, no mínimo, chocante no seio da União Europeia, onde mais se esperaria compreensão e solidariedade e, sobretudo, desajustada quando se sabe que a crise não é só grega mas europeia. Face à agudização das tensões políticas e sociais na Grécia, os signatários apelam à solidariedade com o povo grego e à criação de condições que permitam respostas democráticas e consistentes de uma Europa solidária aos problemas sociais e aos direitos das pessoas. Lisboa, 15 de Fevereiro de 2012 (assinaturas:) Mário Soares Mário Ruivo Alfredo Caldeira Ana Gomes Ana Lúcia Amaral Anselmo Borges António de Almeida Santos António Reis Boaventura Sousa Santos Diana Andringa Eduardo Lourenço Isabel Allegro Isabel Moreira D. Januário Torgal Ferreira José Barata Moura José Castro Caldas José Manuel Pureza José Manuel Tengarrinha José Mattoso José Medeiros Ferreira José Reis José Soeiro Manuel Carvalho da Silva Maria de Jesus Barroso Soares Maria Eduarda Gonçalves Paula Gil Pedro Delgado Alves Rui Tavares Sandra Monteiro Simonetta Luz Afonso Vasco Lourenço Vítor Ramalho

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