Quem quer ser acusado de vaidade por se devotar ao bem comum? Mais vale adotar uma posição de discreta passividade a partir da qual criticar a vaidade de terceiros. Folheando ao acaso “Ricos e Pobres no Alentejo”, de José Cutileiro, encontro a seguinte frase sobre o poder local: “A dificuldade em encontrar alguém disposto a aceitar a presidência da edilidade resultava de várias razões. Em primeiro lugar, a maior parte das pessoas considerava que os afazeres particulares preenchiam totalmente a sua capacidade de actuação e que a devoção ao bem comum era uma ficção inventada por quantos desfrutavam dos atributos externos do Poder e destinada a encobrir a sua vaidade. Em segundo lugar, devido à complexidade e multiplicidade dos problemas submetidos à Câmara, acreditava-se que o presidente precisava de muita diplomacia para não ferir as susceptibilidades de parentes e amigos. Em contrapartida, dado que era forçoso tomarem-se decisões independentemente das suas consequências de ordem pessoal, o indivíduo que ocupava o cargo ficava imediatamente à mercê das críticas que toda a gente, incluindo os amigos, se apressaria a dirigir-lhe”. Estas observações têm quase cinquenta anos. Entretanto, muito mudou.