Arquivo mensal para Agosto, 2013

“A água é um direito humano”

Apelo para ação: a iniciativa cidadã europeia “A água é um direito humano” está a 3.000 assinaturas de conseguir o seu objetivo em Portugal. Objetivo: propor à Comissão Europeia uma legislação de implementação do direito humano à água e ao saneamento, promovendo o fornecimento desses dois elementos como serviços públicos essenciais para todos. Pelo caminho, tal legislação contribuiria para firmar de uma vez por todas o princípio de que a água, sendo um bem comum não pode ser privatizada. Apoiem esta incitava enviando o formulário preenchido (que pode ser adquirido no link abaixo, juntamente com mais informações) para: Iniciativa Cidadania Europeia “Água é um direito humano” – STAL (Jorge Fael) – Rua D. Luis I – 20 F, 1249 – 126 Lisboa ou Sindel (José Emilio Viana), Rua da Madalena, 75 – 3º, 1100-318 Lisboa .

A água é um direito humano

 

Europe at heart

Aos estudantes de cinema, amadores ou entusiastas do cinema e mais ou menos entusiastas do projeto europeu: dêem aqui uma olhada no concurso “Europe at heart”, uma iniciativa dos Verdes Europeus que visa a produção de curta-metragens realizadas pelos cidadãos sobre a Europa nas suas diversas facetas. Mais informações no link  abaixo.

Europe at heart

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To all film-makers, either students or just plain enthusiasts, check out the film competition”Europe at heart.” — an initiative by The Greens in the European Parliament with a view to collect short films made by citizens about the manyfold aspects of the European project. More information below.

Europe at heart

Pessoas

O problema de tratar países como pessoas é que, pouco depois, começamos a tratar as pessoas como formigas que pudessem ser pisadas.

O problema de tratar países como pessoas é que, pouco depois, começamos a tratar as pessoas como formigas que pudessem ser pisadas. Isso é sobretudo assim quando falamos de guerra: “a Áustria-Hungria exigiu”, “a França rearmou-se”, “a Alemanha violou a neutralidade da Bélgica”. E nós? E as pessoas como nós, naquele agosto de 1914?

Os alemães viviam numa sociedade estruturada pelo militarismo prussiano; os franceses, para constituir um “exército republicano”, instituíram um serviço militar obrigatório que, às vésperas da guerra, ampliaram para três anos; quanto aos ingleses, dispunham de um exército profissional e tiveram de começar a alistar voluntários. Continuar a ler ‘Pessoas’

A ficção da “ficção do bem comum”

Quem quer ser acusado de vaidade por se devotar ao bem comum? Mais vale adotar uma posição de discreta passividade a partir da qual criticar a vaidade de terceiros.

Folheando ao acaso “Ricos e Pobres no Alentejo”, de José Cutileiro, encontro a seguinte frase sobre o poder local:

“A dificuldade em encontrar alguém disposto a aceitar a presidência da edilidade resultava de várias razões. Em primeiro lugar, a maior parte das pessoas considerava que os afazeres particulares preenchiam totalmente a sua capacidade de actuação e que a devoção ao bem comum era uma ficção inventada por quantos desfrutavam dos atributos externos do Poder e destinada a encobrir a sua vaidade. Em segundo lugar, devido à complexidade e multiplicidade dos problemas submetidos à Câmara, acreditava-se que o presidente precisava de muita diplomacia para não ferir as susceptibilidades de parentes e amigos. Em contrapartida, dado que era forçoso tomarem-se decisões independentemente das suas consequências de ordem pessoal, o indivíduo que ocupava o cargo ficava imediatamente à mercê das críticas que toda a gente, incluindo os amigos, se apressaria a dirigir-lhe”.

Estas observações têm quase cinquenta anos. Entretanto, muito mudou. Continuar a ler ‘A ficção da “ficção do bem comum”’

Nada é inelutável

Quase cem anos depois, é ainda difícil de entender como foi acontecer isto. E quanto mais difícil de entender é, mais importante se torna.

No dia 7 de agosto de 1914, há 99 anos, deu-se uma rara sessão do Congresso da República Portuguesa. O Senado e a Câmara dos Deputados fizeram a sua reunião conjunta no hemiciclo desta, que hoje conhecemos como o plenário da Assembleia da República, para analisar a situação da Europa e preparar a posição de Portugal na guerra que tinha começado poucos dias antes. Bernardino Machado, então chefe do governo, visitara na véspera o presidente Manuel de Arriaga, em Buarcos, e regressara para um Conselho de Ministros extraordinário onde se discutira a resolução que viria a ser aprovada unanimemente pelo Congresso: “Artigo 1º — São conferidas ao poder executivo as faculdades necessarias para, na atual conjuntura, garantir a ordem em todo o paiz e salvaguardar os interesses nacionaes, bem como para ocorrer a quaesquer emergencias extraordinarias, de caracter economico e financeiro. § unico — O poder executivo dará conta ao Congresso, na sua primeira reunião, do uso que tiver feito d’estas faculdades. Artigo 2º — Fica revogada a legislação em contrario.” E pronto. No Congresso, contudo, os políticos tinham sido menos lacónicos, tal como os jornalistas, no dia seguinte: “para nós, portuguezes, a guerra entre a Alemanha e a França tem esta clara significação: são duas civilisações opostas que se chocam, uma baseada n’um principio autocratico, retrogrado, condenado pela nossa epoca, outra, firmando-se na liberdade […]. O predominio da Alemanha sobre a França equivaleria, ninguem o pode negar, á mais tremenda reação contra o espirito novo, que pouco a pouco, vae produzindo a sua formidavel obra transformando. A França, vitoriosa, seria, pelo contrario, a consagração de toda a sua obra de humanitarismo”, escrevia o século, que titulava a toda a página: “DIA DE GLORIA PARA PORTUGAL, O DE HONTEM”. O país não estava ainda em guerra, mas não havia dúvidas sobre o lado que escolheria. E, no entanto… Continuar a ler ‘Nada é inelutável’

Riem-se na sua cara

Bayoneting – Yue Minjun.

Riem-se, porque eles um dia disseram: “sabem o que é preciso, para fazer política a sério?” — “abrir um banco”. 

Escrevo estas linhas numa aldeia ribatejana de fim de estrada, onde só se escuta a camioneta da carreira, até ao dia em que acabarem com isso também. E, no entanto, até aqui os ouço. Riem-se na minha cara. Riem-se na cara de todos os intelectuais, bem intencionados, politizados desde a nascença, que passaram a vida a dizer aos amigos: “sabes o que era bom, para mudar o mundo?” — “abrir uma editora”, “abrir um jornal”, “abrir uma universidade”, “criar um partido”, “fundar um centro de estudos”.

Riem-se, porque eles um dia disseram: “sabem o que é preciso, para fazer política a sério?” — “abrir um banco”. E a partir daí foi só rir.

Riram-se na sua cara quando fundaram o BPN, como uma espécie de Herdade da Coelha das instituições financeiras, um lugar confortável para quem tinha estado no PSD e no governo do Professor Cavaco. Continuar a ler ‘Riem-se na sua cara’

Pim-pam-pum

Uma guerra na Europa era, para a França, a oportunidade de ajustar contas com a Alemanha e recuperar as províncias perdidas da Alsácia e da Lorena, uma obsessão não-declarada na qual os nacionalistas deviam “pensar o tempo todo, mas nunca falar”, como sintetizara vinte anos antes o político Léon Gambetta. A França, ou pelo menos uma parte dela, ansiava pela guerra. Mas, por causa do caso Henriette Caillaux, não a viu chegar.

Em 22 março de 1914 uma senhora elegante, com as mãos agasalhadas dentro de um regalo de pele, entrou no gabinete do diretor do jornal “Le Figaro”, um homem chamado Gaston Calmette. “Sabe por que razão estou aqui?”, perguntou ela. “Não faço ideia”, disse ele. E foi aí que ela mostrou uma das mãos, brandindo um revólver. Ele levou seis tiros e já não passou dessa noite. Ela ficou a aguardar julgamento como a ré mais famosa de França.

Acontece que a França estava em campanha eleitoral e ela, Henriette Caillaux, era mulher do mais que provável Primeiro-ministro, Joseph Caillaux, líder do Partido Radical, homem a quem o “Figaro” perseguia publicando as cartas de amor que escrevera à atual mulher quando ainda estava casado com outra. Continuar a ler ‘Pim-pam-pum’

Há 99 anos

“Tenhamos bem presente sempre o bom exemplo do Japão, e para confronto, o da Turquia” – Jaime Leote do Rego, oficial da marinha e governador de São Tomé e Príncipe acabado de regressar a Lisboa, há 99 anos.

Há noventa e nove anos uma carreira política podia implicar três coisas: entrar no partido republicano, escrever n’O Século, e participar em duelos.

Para um cavalheiro de quarenta e seis anos chamado Jaime Leote do Rego, oficial da marinha e governador de São Tomé e Príncipe acabado de regressar a Lisboa, as três foram verdade. O duelo à espada deu-se na Estrada da Ameixoeira, contra o seu companheiro d’armas Nunes Ribeiro. O seu primeiro congresso do Partido Republicano foi na Figueira da Foz, onde ouviu falar Afonso Costa sobre defesa nacional. A publicação n’O Século foi consequência dessa experiência. Numa crónica de 20 de maio de 1914, destacada na primeira página, a três colunas, Leote do Rego proclamava:  “obtido o equilibrio financeiro, torna-se urgente reorganizar o exercito e a marinha, a fim de que o paiz seja respeitado e a Republica prestigiosa”.

O que me chamou a atenção, porém, foi a comparação entre nações que se segue, abreviada.

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