O problema de tratar países como pessoas é que, pouco depois, começamos a tratar as pessoas como formigas que pudessem ser pisadas.

O problema de tratar países como pessoas é que, pouco depois, começamos a tratar as pessoas como formigas que pudessem ser pisadas. Isso é sobretudo assim quando falamos de guerra: “a Áustria-Hungria exigiu”, “a França rearmou-se”, “a Alemanha violou a neutralidade da Bélgica”. E nós? E as pessoas como nós, naquele agosto de 1914?

Os alemães viviam numa sociedade estruturada pelo militarismo prussiano; os franceses, para constituir um “exército republicano”, instituíram um serviço militar obrigatório que, às vésperas da guerra, ampliaram para três anos; quanto aos ingleses, dispunham de um exército profissional e tiveram de começar a alistar voluntários.

No dia 4 de agosto um jovem chamado Reginald Haine, que trabalhava numa mercearia, foi de férias por uns dias e quando regressou ao trabalho almoçou com um amigo que se tinha alistado; tomou a decisão de fazer o mesmo e quando declarou a idade ao sargento de turno (“dezoito anos e um mês!”) este respondeu-lhe “disseste dezanove anos e um mês”? — “Sim, senhor” — “Muito bem, assina aqui” — depois de Reginald ter assinado, o sargento encerrou a conversa: “tens noção de que podes ir para o continente, não é verdade?”.

Para os rapazes de idade militar, ou que parecessem de idade militar, e ficassem em terra, havia vários métodos de persuasão. Havia o tradicional cartaz “I Want You” — “uma coisa fantástica, com um dedo a apontar”, disse um dos alistados, “onde quer que estivesses parecia que o dedo apontava para ti”. As raparigas entregavam penas brancas aos rapazes, o que significava que os consideravam cobardes. “Deram-me uma pena branca quando tinha dezasseis anos, ainda mal tinha saído da escola”, disse mais tarde um sobrevivente chamado Norman Demuth. Ainda havia outro método, no qual as raparigas se aproximavam com um sorriso sedutor na cara, e quando estavam a poucos passos dos rapazes se afastavam com um ar de desprezo sem dizer nada. Este era especialmente eficaz.

No dia 2 de agosto uma multidão reuniu-se na Odeonsplatz de Munique para declarar apoio à decisão do kaiser alemão de se juntar à Áustria numa guerra pan-europeia. Anos mais tarde descobriu-se numa fotografia daquele dias, com milhares de pessoas na praça, uma cara que parecia familiar. Era de um jovem desempregado e diletante que tinha chegado poucos meses antes de Viena: Adolf Hitler. Semanas antes tinha escapado de ser recrutado pelo exército do seu país, a Áustria; mas agora, tomado de entusiasmo, alistou-se no exército alemão, que não lhe perguntou pela nacionalidade. Para o exército, ele era mais um. Para ele, o exército, e a guerra de 14-18, havia de lhe dar um sentido para a vida.

Hoje, dia 21 de agosto de 1914, Bruxelas acordou já ocupada pelo exército alemão. E nos campos da Bélgica recolhem-se os primeiros mortos.

PS: os depoimentos da primeira parte do texto aparecem no livro “Forgotten Voices of the Great War”, de Max Arthur. A história da foto de Munique aparece na biografia de Hitler escrita por Ian Kershaw.

PPS: a semana passada, escrevendo sobre as trincheiras, dei à crónica o título “A pá e as armas”, perdendo uma oportunidade única de lhe chamar “Guerra e pá”. Aos leitores, o meu pedido de desculpas pela desatenção.

(Crónica publicada no jornal Público em 21 de Agosto de 2013)

One thought to “Pessoas”

  • mm

    Aqui, só n concordo com ‘a imagem’ e ‘progressão descendente’ de, se tratarmos os países como pessoas, as pessoas serão como formigas…
    Exactamente, o q penso é q o nosso tempo, nós tb e os políticos, n têm/temos, desgraçadamente, ‘o sentimento’ e a percepção do outro, da urgência de o con-siderar e dialogar, reconhecendo-lhe, ‘a priori’ e efectivamente, a importância da sua existência, ser e dignidade, das suas aspirações, necessidades e desejos, história, física, psíquica e ‘espiritual’ (tb sem aspas) de todas as pessoas e povos, TÃO IMPORTANTES como os nossos!!!
    Mesmo q a gente n lhos reconheça (o q só piora as coisas…).
    Daí ‘a minha imagem’ vária vezes pensada e ‘descoberta’ de q se deveriam tratar os países …como pessoas.

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