Arquivo mensal para June, 2013

Uma carta de 2023

The Pleasure Principle (Portrait of Edward James); by René Magritte, 1937

(escrito para o 10º aniversário do Jornal de Negócios, onde me pediram um texto escrito a partir do futuro)

Há dez anos, decidimos não estar no negócio da adivinhação para estar no de fazer as coisas acontecer. Em Portugal e na Europa, essa não foi uma decisão conjunta de um movimento unificado, mas uma tendência geral feita de muitas decisões individuais, influenciadas pelo que se estava a passar no resto do mundo. De repente, o espaço para a democracia estava a estreitar-se e a única maneira de salvar a democracia era empenharmo-nos em ampliá-la.
Bandeiras com o símbolo “2014≠1914” começaram a aparecer nas manifestações europeias. Eram uma exigência de que o ano de 2014 não fosse como o de 1914, ou seja, a primeira vez que os líderes europeus tinham ido para uma Guerra Mundial sem entenderem muito bem porquê mas sem o conseguirem evitar.
Uma rede que juntava universidades e jornais (incluindo o Jornal de Negócios) organizou debates em todos os países da União com os candidatos à presidência da Comissão Europeia. Pessoas comuns exigiam respostas e explicações, os candidatos prometiam e comprometiam-se. Aquelas eleições de 2014, cujo grande tema foi “austeridade: sim ou não?”, acabaram sendo as primeiras em que os europeus tiveram a sensação de escolher um “executivo da União” — um processo que continua a desenvolver-se hoje.
Em 2016 foram os portugueses a surpreender os outros europeus. Continuar a ler ‘Uma carta de 2023’

Perguntas à saída do euro

Há outras perguntas, que deixaremos para futuros debates. Enquanto elas não estiverem respondidas continuará a parecer-me que a melhor via de saída para nós estará sermos uma economia altamente qualificada, e relativamente especializada, dentro da zona euro.

Nesta crónica gostaria de avançar com mais algumas reflexões sobre o debate da saída do euro. Comecemos por recapitular aquestão da “saída do euro sem saída da União”, ou seja, da ideia de que Portugal pode obter um posicionamento igual àquele de usufrui hoje o Reino Unido.

Para clarificar, o que seria necessário para Portugal ter um posicionamento igual ao do Reino Unido? Uma derrogação especial. Não há nenhuma outra maneira. Aqueles que defendem a saída do euro dizem “então negociemo-la”. Mas além de negociá-la é preciso que ela entre nos tratados. Continuar a ler ‘Perguntas à saída do euro’

O inimaginável no poder

Não se responde ao inimaginável com outro inimaginável, mesmo que seja “nosso”. Responde-se ao inimaginável com imaginação, responde-se ao absurdo com realidade, responde-se à estupidez com inteligência, responde-se ao vociferar com ironia, responde-se às banalidades com sentido de humor, ao autoritarismo com pensamento livre.

Esta é dos livros. A um colapso financeiro segue-se uma crise económica e social. A crise seguinte é a dos direitos fundamentais. A crise dos direitos fundamentais traz com ela uma crise do estado de direito. Ambas geram uma crise da democracia. Mas é fácil ver como as coisas não ficam por aqui. Aparecem líderes autoritários, que se apresentam como infalíveis, alimentando-se do desespero das pessoas. Quando estes líderes falham procuram um disfarce para o fracasso, o que não é difícil: pode ser o vizinho do lado, que tem o mesmo problema, o povo de baixo, a casta de cima, os desenraízados, os que não foram na onda. É sempre fácil achar alvos. À alta retórica segue-se a provocação, a jogada de risco e finalmente o conflito. As instituições que supostamente seriam os esteios da paz assistiram a isto justificando-se com a sua impotência e, finalmente, quando a vontade política desaparece, desaparecem elas também.

Gostaria de dizer que desta vez vai ser diferente. Mas até agora temos avançado nesta lista como num manual de instruções para descobrir a verdadeira espessura do fino verniz da civilização.

Nos anos 60 a palavra de ordem era “a imaginação ao poder”. Continuar a ler ‘O inimaginável no poder’

Projeto Ulisses em Lisboa

 

 

Dia 21 de Junho, sexta-feira, organizarei, no quadro do Projeto Ulisses, duas conferências com a presença dos deputados dos Verdes Europeus Daniel Cohn-Bendit e Rebecca Harms, além dos economistas James Galbraith, António Figueiredo e José Reis, de Viriato Soromenho Marques e de Luísa Schmidt.

Com a proposta de avaliar as consequências das políticas de austeridade nos países do sul da Europa, no termo de três décadas de integração, será realizada das 11:00h às 13:30h, a  conferência: “30 anos de Integração Europeia”.

Às 18:30h realiza-se a conferência “Projeto Ulisses – Salvar a Europa através do Sul” , sobre como relançar as economias dos países do sul da Europa, mais afetados pelas políticas de austeridade.

A entrada é gratuita e as conferências contam com tradução e interpretação para português.

Que mundo este

Que estranho mundo este, em que as ferramentas das democracias podem transformar a democracia em mera ferramenta. Em quepodemos seguir acontecimentos em direto, em três lugares diferentes, e não determinar nada do que se passa onde estamos. Onde as democracias e as ditaduras estão a ficar demasiado parecidas.

Antes, quando ocorria um crime, o normal era que a investigação se centrasse nos suspeitos. Como um suspeito poderia ser inocente ou culpado, era sempre possível que um inocente fosse investigado por engano.

Hoje isso mudou. O novo paradigma é investigar toda a gente, inocentes ou culpados, antes de serem suspeitos de um crime. Desta forma, 99,99% das pessoas investigadas são não apenas inocentes, mas nem sequer suspeitas. Mas há mais: o medo e a tecnologia permitiram que toda a gente passe a ser investigada mesmo sem ter havido crime. Todas as nossas chamadas telefónicas. Todas as nossas mensagens de email. Toda a nossa atividade na rede. Todas as nossas transações financeiras. Todas as nossas viagens de avião. Tudo isto (e mais) é sujeito a processos analíticos sistemáticos, garimpo de dados e deteção de padrões. Se alguma coisa chama a atenção, podemos passar para uma lista negra ou uma vigilância acrescida sem sequer dar por isso.

Quando foi que assinámos a autorização para que isto fosse feito? Quando foi que concordámos? Estávamos distraídos? Continuar a ler ‘Que mundo este’

O preço da chuva mijona

As dívidas públicas só aumentaram depois da crise, em consequência da crise. Logo, não podem ter sido a causa. São a febre, e não a doença.

Ao ministro Vítor Gaspar, que mencionou as “condições meteorológicas” como uma das causas do pouco investimento na construção civil e do permanente atraso da recuperação económica, quem deu a melhor resposta foi Clint Eastwood, num velho filme de caubóis chamado “O Rebelde do Kansas”:

“Não me mijem pelas costas abaixo para depois me dizerem que está a chover”.

Não é chuva, nem é vento, o que está a empurrar a economia para baixo. Gente é, certamente. A chuva não bate assim.

As políticas contracionárias, levadas a cabo por ministros como Vítor Gaspar, são contracionárias. E não respondem às verdadeiras causas da crise.

Considerem um discurso recente do português mais poderoso da União Europeia, o número dois do Banco Central Europeu, Vítor Constâncio. Falando em Atenas no passado 23 de maio, sobre as causas e transmissão da atual crise, Constâncio foi taxativo: a dívida pública não foi a causa da crise. Continuar a ler ‘O preço da chuva mijona’

Sobre o fecho da emissora pública grega

Daniel Cohn-Bendit questionou hoje em Estrasburgo o comissário Olli Rehn sobre fecho da emissora pública grega. Como se pode ver no vídeo, a Comissão não conseguiu nem desfazer o equívoco nem assumir responsabilidades, enquanto parte da troika, neste escândalo. Rehn foi vaiado, e não houve ninguém na sala que o aplaudisse. Continuamos sem perceber o papel da Comissão no meio deste gravíssimo problema.


(versão original)


(versão em português)

#resistanbul

Esta crise dos direitos fundamentais já aí está. A dificuldade está em que, dado o seu caráter proteico, é difícil aos cidadãos identificarem-na e encontrarem formas de a combater. Mas quando a imaginação coletiva se concentra numa causa, como sucedeu em Istambul, o movimento extravasa facilmente os acontecimentos iniciais. 

Para quem acha que só economia é política, a Turquia será um caso bicudo. Não há país da OCDE que tenha crescido mais nos últimos anos: a taxa média de crescimento nos últimos três anos tem andado à volta dos sete por cento, o que é ainda mais notável se pensarmos que a economia dos parceiros europeus tem estado estagnada; a inflação é baixa em comparação histórica, o desemprego baixo em comparação geográfica.

Mas nem só de pão vivem os turcos; ninguém vive. Os turcos querem liberdade, qualidade de vida e respeito pelas pessoas. Continuar a ler ‘#resistanbul’

Somos todos gregos

As notícias do encerramento da televisão pública grega são absolutamente chocantes. Espero que acordem a Europa toda. A existência de uma televisão pública há muito que entrou no consenso social e político europeu como uma pedra angular da democracia, do direito à informação e do acesso à cultura. Há dezenas de anos de resoluções das instituições da UE e do Conselho da Europa para o provar. Que isto possa ser posto em causa de forma tão brutal só demonstra que há incendiários à solta no poder. O governo grego irá arrepender-se muito rapidamente (mas isso tem pouca importância porque não acredito que sobreviva). Fica para registo o comunicado da comissão da trabalhadores da RTP: somos todos gregos. Esta crueldade tem de parar.

Clique na foto para ler o comunicado.

somos todos gregos

Apelo a propostas

Realização de um estudo sobre um Projeto Ulisses para o relançamento das economias periféricas da zona euro

Portugal ­— Irlanda — Itália — Grécia — Espanha

ENTREGA DE PROPOSTAS ATÉ 5 DE JULHO DE 2013

MONTANTE DO APOIO: €10.000 PARA REALIZAÇÃO DO ESTUDO ATÉ 30 DE SETEMBRO

 

APELO A PROPOSTAS

Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha têm sido identificados como os PIIGS e foram submetidos a um tratamento de choque após a eclosão da crise em 2008. Têm sido considerados como os doentes da Europa e apontados como a razão da fraqueza do euro. Muitas medidas ad hoc foram testadas para endireitar as economias destes países, mas até agora não houve um plano abrangente e multifacetado para o seu desenvolvimento, que devia vir de dentro e envolver a União, os governos, o cidadãos e grupos da sociedade civil destas regiões. Este é o objetivo do Projeto Ulisses.

A execução do Projeto Ulisses no contexto institucional da União Europeia é possível se definido um programa específico de recuperação e financiamento das economias em questão, incluindo o enfoque nas questões ambientalistas.

Pretende-se uma aproximação a meios de investimento inclusos, com particular incidência sobre estes países e suas questões regionais. Quer-se delinear um projecto de investimento capaz captar projetos de investimento, estabelecer o crédito de joint ventures e providenciar assistência técnica na coordenação do apoio aos problemas das economias.

Continuar a ler ‘Apelo a propostas’