Não se responde ao inimaginável com outro inimaginável, mesmo que seja “nosso”. Responde-se ao inimaginável com imaginação, responde-se ao absurdo com realidade, responde-se à estupidez com inteligência, responde-se ao vociferar com ironia, responde-se às banalidades com sentido de humor, ao autoritarismo com pensamento livre.

Esta é dos livros. A um colapso financeiro segue-se uma crise económica e social. A crise seguinte é a dos direitos fundamentais. A crise dos direitos fundamentais traz com ela uma crise do estado de direito. Ambas geram uma crise da democracia. Mas é fácil ver como as coisas não ficam por aqui. Aparecem líderes autoritários, que se apresentam como infalíveis, alimentando-se do desespero das pessoas. Quando estes líderes falham procuram um disfarce para o fracasso, o que não é difícil: pode ser o vizinho do lado, que tem o mesmo problema, o povo de baixo, a casta de cima, os desenraízados, os que não foram na onda. É sempre fácil achar alvos. À alta retórica segue-se a provocação, a jogada de risco e finalmente o conflito. As instituições que supostamente seriam os esteios da paz assistiram a isto justificando-se com a sua impotência e, finalmente, quando a vontade política desaparece, desaparecem elas também.

Gostaria de dizer que desta vez vai ser diferente. Mas até agora temos avançado nesta lista como num manual de instruções para descobrir a verdadeira espessura do fino verniz da civilização.

Nos anos 60 a palavra de ordem era “a imaginação ao poder”. A geração que a gritou ainda foi a tempo de ver o inimaginável no poder. O inimaginável no início foi apenas falta de imaginação. Segundo dados da OCDE, há quatro anos oito países da União Europeia começaram a aplicar políticas de austeridade. Há três anos, eram dezasseis. Há dois anos eram 21, em 27 países. Não sei como está agora: a esta loucura somou-se somente mais loucura. A austeridade não funcionou em nenhum lado. Nenhum país que entrou em austeridade conseguiu sair. Os piores casos estão em espiral recessiva, os bons exemplos estão, na melhor das hipóteses, estagnados.

O inimaginável, entretanto, já é outra coisa. Há dez anos, ninguém imaginaria ser possível ter países controlados pela sinistra criatura a que se chama “a troika”. Hoje este absurdo estado de coisas é tratado como se fosse normal. Na Grécia, o governo fecha a televisão pública à meia-noite do dia do próprio anúncio, sem consultar parlamento nem parceiros de coligação. Em Portugal, oprimeiro-ministro diz tranquilamente que, por não lhe agradar uma decisão de um colégio arbitral onde está representado, será necessário alterar a lei dos serviços mínimos em dia de greve. As raízes da própria noção de estado de direito revelam-se demasiado superficiais naqueles que lhe deveriam servir de garante.

O inimaginável chega ao poder, em primeiro lugar, na cabeça da gente.

O mesmo vale para os seus antídotos. Pois não se responde ao inimaginável com outro inimaginável, mesmo que seja “nosso”. Responde-se ao inimaginável com imaginação, responde-se ao absurdo com realidade, responde-se à estupidez com inteligência, responde-se ao vociferar com ironia, responde-se às banalidades com sentido de humor, ao autoritarismo com pensamento livre.

Por isso esta crónica vai dedicada ao João Pinto e Castro, economista, cronista e professor que morreu sexta passada, com sessenta e dois anos. Tive a sorte de conviver um pouco com ele e a sua família. E era um prazer lê-lo sempre, na rede e nos jornais, porque ele era um dos melhores exemplos que conheço das virtudes que listei no parágrafo anterior. Vai fazer-nos muita falta.

(Crónica publicada no jornal Público em 17 de Junho de 2013)

2 thoughts to “O inimaginável no poder

  • alexandre

    Onde está:

    “O inimaginável chega ao poder, em primeiro lugar, na cabeça da gente”.

    Deve ler-se:

    A esquerda caviar chega ao poder, em primeiro lugar,na cabeça da gente”.

    ” verdadeira espessura do fino verniz da civilização”

    A espessura do verniz é inversamente proporcional aos rendimentos dos burocratas da EU !!!!!

    Alexandre

  • alexandre

    Do blog “31 da Armada”, com a devida vénia:

    “eu que não sou de intrigas

    Rui Tavares, em entrevista ao i, sugere novo partido de esquerda. Porque há poucos, imagino.
    A esquerda leva mais longe a democracia.

    Um homem, um voto, um partido. Sempre que alguém à esquerda se chateia faz-se um movimento ou um partido.

    Há mais partidos à esquerda que argentinos no plantel do Benfica.”

Leave a comment