Arquivo mensal para February, 2013

Vem aí a primavera

O problema de Miguel Relvas é ter menosprezado a voz dos cidadãos enquanto era tempo de ouvi-la.

Em 2011, no mundo árabe, acabou por se chegar à conclusão: quem não sabe sair com dignidade enquanto é tempo, sairá indignamente quando for tarde demais.

Miguel Relvas não perde a dignidade por ser interrompido com a “Grândola”. Miguel Relvas perde a dignidade quando resolve grasnar a “Grândola” como pato-bravo que ele é.

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O povo é quem mais ordena

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Os 99%

Os portugueses não têm nada contra a democracia em geral, mas contra a forma como esta democracia em particular está a ficar.

Vamos supor que havia eleições em Portugal amanhã. Os eleitores poderiam escolher entre: a) uma opção de primeiro-ministro que foi durante muito tempo líder de uma juventude partidária, escreveu um manifesto chamado “Portugal Primeiro” e governaria, naturalmente, de acordo com as indicações da troika; e, b) uma opção de primeiro-ministro que foi durante muito tempo líder de uma juventude partidária, escreveu um manifesto chamado “Portugal Primeiro” e governaria, naturalmente, de acordo com as indicações da troika.

(Sim, é verdade, copiei e voltei a colar a última frase.) Continuar a ler ‘Os 99%’

Portugal, uma sociedade de classes

Nesta sexta-feira (22.02) será o lançamento do livro do Renato Carmo, intitulado “Portugal, uma sociedade de classes”. A apresentação será feita por Carvalho da Silva e por mim. Divulguem e apareçam!

Sermão do Inocêncio

Perante a falta de resposta dos responsáveis, uma cornucópia de informação essencial para a nossa história apanha pó nos armazéns quando poderia estar em livre acesso. É este o problema: incúria, falta de continuidade editorial e de memória institucional.

Padre António Vieira

No início do século XIX nasceu em Lisboa um homem chamado Inocêncio Francisco da Silva, um simples amanuense que tinha uma ambição simples: reunir num dicionário todas as informações sobre todos os autores de língua portuguesa. Quando morreu, em 1876, a sua missão foi continuada por um simples tipógrafo chamado Pedro Venceslau de Brito Aranha. O Dicionário Bibliográfico Português, muitas vezes chamado apenas por “o Inocêncio”, ficou um autêntico monumento para a história da cultura, não só em Portugal e no Brasil, mas também para a Ásia e a África lusófonas. Os seus 23 volumes tornaram-se raros e caros e, mesmo quando reeditados pela Imprensa Nacional, difíceis de adquirir e guardar pela maior parte das pessoas que deles teriam necessidade.

Nos fins do século XX conheci um grupo de gente a quem a Comissão dos Descobrimentos deu a tarefa de digitalizar, rever e recuperar para um simples CD-rom todo o Inocêncio, e para CDs da mesma coleção toda a Bibliotheca Luzitana Continuar a ler ‘Sermão do Inocêncio’

Consequências voluntárias: o fim do estado social europeu

Um dos maiores intelectuais vivos faz uma reflexão realista e sucinta a respeito da Europa atual. Vale a pena ganhar “5 minutos com Noam Chomsky” nesta leitura. Entretanto, deixo convosco algumas linhas de pensamento que se fazem emergentes nos dias que correm.

“Europe’s policies make sense only on one assumption: that the goal is to try and undermine and unravel the welfare state.”

“The eurozone, in my view, is a positive development in general, but it’s being handled in a way that is undermining the promise it should have. I think it’s widely agreed that there has to be more political union. You can’t have a system in which countries cannot control their own currencies and have austerity imposed on them, when they can’t carry out the measures that any other country would carry out if it were in economic crisis. That’s just an impossible situation and it has to be dealt with.”

 

Europa não, Portugal nunca

Mas não são os grandes subversivos que dão cabo das sociedades acomodadas e sofisticadas como as europeias. São os grandes conformados, e os grandes conformistas, que o fazem.

No dia em que a corte, vendo chegar a Lisboa as tropas de Napoleão, se meteu nos barcos para o Rio de Janeiro, a Rainha Dona Maria (que estava louca há quase vinte anos) dizia: “não vão tão rápido, vão pensar que estamos a fugir!”

Esta é a melhor descrição que me vem à mente para os acontecimentos no Partido Socialista durante as últimas semanas, desde que Seguro perguntou “qual é a pressa?” de marcar diretas e congresso até ao momento em que marcou diretas e congresso para o mais rápido possível. Continuar a ler ‘Europa não, Portugal nunca’

Uma ideia invulgar: o governo para as pessoas

Estive a ver o Estado da União pronunciado na madrugada do dia 12 deste mês por Barack Obama, no Congresso dos EUA. Abstraindo das diferenças culturais, formais e políticas, há uma grande diferença entre o que se passa neste momento nos EUA, como no Brasil, a outra grande federação do Ocidente, e o que se passa na Europa. Barack Obama ainda trabalha com base num pressuposto hoje invulgar no nosso continente e no nosso país: o que se deve governar para as pessoas. Governar para as pessoas vem antes de se governar para as abstrações dogmáticas dos mercados, ou para as convenções do “compacto fiscal” e outras. Governar para as pessoas, e não contra elas, parece evidente — mas por que é que não se faz aqui?

Governar para as pessoas pode significar aumentar o salário mínimo para um “salário de vida”. Pode significar criar um plano para as regiões deprimidas, baseado em criar quinze núcleos de altas tecnologias e interligá-los. Pode significar até tentar coisas que, no quadro americano, dificilmente resultam — como baixar propinas, suprimir armas ou diminuir as filas para votar. Mas, ao menos, porra, o presidente no discurso do Estado da União, ainda se lembra que é para as pessoas que governa. Não diz, como Pedro Passos Coelho, que o desemprego está mal e vai ficar pior. Não fica de braços cruzados perante o Congresso como Durão Barroso fica perante o Conselho.

Um dia, e espero que não seja muito tarde, ouviremos um Estado da União assim em Bruxelas, um Estado da República assim em Lisboa. Não precisa de ser tão ensaiado, não precisa de ter os seus momentos pirosos e os seus momentos comoventes, não precisa de ser um espectáculo nem precisa de ser articulado por um tipo tão talentoso nem bem parecido. Basta que um dia os nossos governos acordem e percebam que têm de governar para os cidadãos. Corrijo: que nós cidadãos os façamos acordar, para que não façam mais de desentendidos.

Uma vitória dos direitos fundamentais

Há alguns dias publiquei aqui a notícia do processo que mantinha arguida Bárbara Bulhosa, editora da Tinta-da-China e Rafael Marques, autor do livro “Diamantes de Sangue”. Sobre isso venho dizer-vos, com grande alegria, que ainda há um reino dos direitos fundamentais, a que o poder do dinheiro, das armas, e o poder do poder cru não chegam. Esta não é só uma vitória para o Rafael Marques, a Tinta da China e todos os seus muitos amigos, mas uma vitória para todos nós:

«O Ministério Público concluiu, dos elementos recolhidos nos autos, que a publicação do livro “Diamantes de Sangue” se enquadra no legítimo exercício de um direito fundamental, a liberdade de informação e de expressão, constitucionalmente protegido, que no caso concreto se sobrepõe a outros direitos»

A Ironia do Projeto Europeu – crítica

Crítica de Rui Bebiano a A Ironia do Projeto Europeu, na revista Ler deste mês.