Os portugueses não têm nada contra a democracia em geral, mas contra a forma como esta democracia em particular está a ficar.

Vamos supor que havia eleições em Portugal amanhã. Os eleitores poderiam escolher entre: a) uma opção de primeiro-ministro que foi durante muito tempo líder de uma juventude partidária, escreveu um manifesto chamado “Portugal Primeiro” e governaria, naturalmente, de acordo com as indicações da troika; e, b) uma opção de primeiro-ministro que foi durante muito tempo líder de uma juventude partidária, escreveu um manifesto chamado “Portugal Primeiro” e governaria, naturalmente, de acordo com as indicações da troika.

(Sim, é verdade, copiei e voltei a colar a última frase.)

Evidentemente, isto não é tudo. Os portugueses escolheriam um pouco mais de duzentos deputados, que por sua vez já teriam sido escolhidos por outros cinco portugueses, dois dos quais são os descritos acima na alínea a) e b). Dos cinco partidos a que pertencem estes deputados, sabemos que dois se colocariam imediatamente de fora de qualquer governo — apesar competirem entre si pela intenção de formarem “um governo de esquerda”, num caso, e “um governo de esquerda e patriótico”, no segundo. Se houvesse eleições amanhã, em suma, a grande surpresa consistiria em saber-se com qual dos portugal-primeiristas, ex-jotinhas e atuais troikistas iria Paulo Portas fazer um governo de coligação e, subsidiariamente, em saber quem seria o Miguel Relvas do PS.

Por isso, o cronista ateu e de esquerda acaba por ter de resignar-se à realidade de que, após 700 anos, o cardeal Ratzinger acabou de provar que é hoje mais imprevisível seguir a política do Vaticano do que a portuguesa.

Não é para admirar que, estudo após estudo, os portugueses sejam dados como os europeus que menos acreditam na democracia, menos participam na vida política ou partidária, e em que a degradação desta crença cívica vai avançando mais rapidamente. No Barómetro da Qualidade da Democracia do ano passado só 55% dos portugueses consideravam a democracia superior a outros regimes. Mas somente 15% dos portugueses se diziam favoráveis a um regime autoritário. Que se passa aqui? Muito simples: os portugueses não têm nada contra a democracia em geral, mas contra a forma como esta democracia em particular está a ficar.

A reflexão crucial é a que apareceu numa opinião publicada recentemente neste jornal por João Nogueira Santos e Carlos Macedo e Cunha, segundo os quais 99% dos portugueses nunca votou numa eleição para candidato a primeiro-ministro. Ao contrário dos italianos, dos franceses, e dos cidadãos de muitos outros países onde já se escolhem os candidatos a chefe de executivo em primárias abertas a vários partidos todos os cidadãos.

Em Portugal há alguns alvores de esperança, como agora o movimento de cidadãos de esquerda que, cansados de esperar pelos respetivos partidos, pretende discutir as eleições em Coimbra. No dia em que um destes movimentos decidir escolher os seus candidatos por primárias abertas aos cidadãos, ou em que apareça um partido (existente ou novo) com coragem para fazer o mesmo, estarão abertas novas portas à participação política no país, e as pessoas voltarão a encontrar um sentido para as escolhas em democracia.

Até, e tal como nos EUA o movimento do Occupy Wall Street propôs fazer dos 99% o símbolo da exclusão económica, defendo que deveria fazer-se deste 99% que nunca votaram para escolher os candidatos a primeiro-ministro, ou os candidatos a deputados, o símbolo da exclusão política a que quase todos os portugueses estão sujeitos.

(Crónica publicada no jornal Público em 18 de fevereiro de 2013)

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