Irresponsáveis e perigosos

Quem espia um jornalista, também escuta um político, chantageia um empresário ou viola os direitos de qualquer cidadão. Parece que o governo anda à procura de serviços do Estado para extinguir. Sugiro então que façamos uma experiência. Imagine-se um serviço do Estado do qual os cidadãos não sabem o que faz — ou, quando sabem, é porque há notícias de que faz coisas ilegais. Imagine-se um serviço do Estado que só pode ser controlado quando é para dizer que está tudo bem. Mas que, quando não está tudo bem, representa um perigo para o próprio estado de direito. Então, que vos parece? Um candidato à extinção imediata? Bem, a verdade é que esse serviço existe. Até são dois: o SIS e o SIED.

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Líbia: a história continua

Foi fácil, durante meses, encontrar críticas à intervenção na Líbia. Seria fácil, agora que os rebeldes chegaram a Tripoli, embandeirar em arco. Uma primeira conclusão acerca das revoluções árabes é que elas são corajosas — e tenazes. Só na Tunísia as coisas se passaram de forma relativamente rápida e indolor. No Egito, as multidões na Praça Tahrir tiveram de enfrentar cargas policiais, fogo real, intimidação e violência durante semanas. No Bahrein a revolução foi implacavelmente esmagada. Na Síria, a ousadia de sair à rua paga-se com a vida; no entanto, eles continuam a sair à rua, mês após mês. É quase inimaginável para nós, mas “lutar pela liberdade” não é uma proposta confortável; o medo não é uma coisa teórica para esta gente; a luta não é uma coisa que

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Um pedido simples

De cada vez que não damos um passo em frente, é grave. Mas de cada vez que o suposto “passo em frente” é apenas uma tentativa enganar o público, é gravíssimo. Deixem de enganar as pessoas. É um pedido simples. Já é escandalosa esta mania europeia de organizar cimeiras, mini-cimeiras e encontros cujas propostas supostamente revolucionárias são trauteadas pela imprensa durante um breve período — cada vez mais breve — até inevitavelmente se descobrir que as propostas não são novas, não são para levar a sério, ou pura e simplesmente não existem. Às vezes a ilusão ainda demora uns dias — o suficiente para decifrar o eurojargão dos documentos então emitidos — outras vezes não aguenta um par de horas. Triste é ver que a imprensa portuguesa cai quase sempre neste truque.

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O antimulticulturalismo falhou

 Se porventura o multiculturalismo falhou, então o antimulticulturalismo nem chegou a estar perto de acertar. Quando eu era miúdo, havia três possibilidades na minha família: ser-se católico, comunista ou protestante. Muitos eram católicos, mas na maior parte pouco católicos. O comunismo era comum naquelas paragens do Ribatejo e talvez nascesse de raízes mais antigas. O protestantismo era a única coisa bastante recente (anos 60) e nada bem aceite no início. Hoje, quando a família se junta, há gente de outros países e continentes, de outras cores de pele, e não só de outras igrejas mas de outras religiões não-cristãs (ou nenhuma). Quer isso dizer que a família está mais multicultural? Depende do que queremos dizer. Distinguirei aqui quatro possibilidades dessa palavra.

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Pânico!

Incontrolável é ter um medo que nem sabemos do que é. Pânico! “Lemos na história que o deus Pã [em grego, Pan], quando acompanhou o deus Baco [Dionysos] numa expedição às Índias, encontrou meio de infundir terror a um exército de inimigos com o apoio de somente uma pequena companhia, cujos clamores conseguiu vantajosamente concitar entre os ecos rochosos e cavernosos de um vale verdejante. O troar cavo das cavernas, junto com o aspecto hediondo de tão escuros e desertos lugares, levantou tal horror no inimigo que naquele estado a imaginação deles os levou a ouvir vozes, e sem dúvida a ver formas também, que eram mais do que humanas: e nisso a incerteza do que temiam fez maior o temor que tinham, e mais velozmente o espalhou pelos olhares implícitos do que por qualquer narração explicar se pode. E foi a isto que em tempos vindouros os homens chamaram um pânico.” Traduzi este excerto de 1699, de uma Carta sobre os Entusiasmos em que o seu autor, o inglês Anthony Ashley Cooper (1671-1713, mais conhecido pelo seu título de Earl of Shaftesbury), descreve momentos de paixão fanática, originados pela incerteza e excitados pela superstição, a que chama de “fúrias da sociedade”. Posso pedir que releiam aquele excerto? Eu espero. Vamos agora a mais algumas notas:

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Na cnua

Cnua de Bucolo, aldeia de Loidua, suco de Buibao, distrito de Baucau, Timor-Leste. —  Para chegar aqui é preciso fazer a estrada principal, depois uma estrada secundária asfaltada,  depois uma estrada de terra e pedras, e depois abandonar o carro e caminhar pelo meio das árvores. Parece mais complicado, mas é coisa para não mais de vinte minutos. Uma timorense vai estudar para Portugal e os seus pais — que se chamam Francisca e Francisco — querem conhecer pessoas com quem ela vai conviver a partir dos mês que vem. Ele é  pequeno, sempre sorridente, com um olhar espertíssimo e atento a tudo. Ela é alta, e altiva também, com um rosto sério, de bronze, que só de vez em quando se abre para um sorriso.

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Rao noc rao?

Estamos ainda desprevenidos a tentar compreender e, sem dar por isso, ficámos deslumbrados. Baucau, Timor-Leste. — Há o longe, o mais longe, o muito longe. E depois há Timor. A Rússia é longe. A Índia é muito longe. A China mais longe ainda. Timor é longíssimo. E, no entanto, converso na soleira da porta com um casal timorense que me conta onde estava no 25 de abril. Que me falam de coisas como “tirei só a quarta classe” ou “o Salazar não queria que a gente estudasse”. Que poderiam ser os meus pais, dizendo o mesmo tipo de coisas, seguindo uma partitura que qualquer português conhece. Mas de repente tudo muda. Dá para contar pessoalmente, mas não dá para reproduzir aqui — e eu não pedi autorização aos meus interlocutores. Estamos de novo longe, longíssimo, não em geografia nem fuso horário, mas em sofrimento humano e em impossibilidade de compreender.

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Os santos devem estar loucos

Assine a petição sobre os nomes das novas freguesias de Lisboa aqui: http://www.peticaopublica.com/?pi=lxnomes Há no Nordeste brasileiro a tradição de, para pedir chuva, trocar os santos das igrejas a que pertencem. O Santo António vai para a igreja de Santa Clara, o São Paulo para São Pedro, bota o São Domingos lá onde estava o São Francisco. Enquanto não chover, não voltam para casa. Olho para o mapa das novas freguesias de Lisboa e parece-me que a Câmara Municipal decidiu fazer o mesmo, sem justificação. Temo que os santos se vinguem.

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Obrigadinho por nada

A má notícia, Sr. presidente Obama, é que afinal os Estados Unidos sempre são como a Grécia e Portugal, e também vão apostar na austeridade como a maneira mais rápida de prejudicar os pobres e dar cabo da economia. Na verdade, os EUA são piores: nós fazêmo-lo porque somos obrigados; eles, porque sim. Temos enfim de agradecer, ao presidente Obama e aos seus rivais republicanos no Congresso, por terem evitado no último minuto um incumprimento da maior economia do mundo que em condições normais nem deveria ser tema de conversa.

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Um mandamento para o século

Não odeies. É simples. É para todos. É difícil. Não odeies. A contragosto mergulhei na leitura das 1500 páginas Anders Breivik publicou antes de sair da sua quinta norueguesa para provocar explosões no centro de Oslo, dirigir-se ao acampamento de Utøya e matar a sangue-frio dezenas de jovens. A leitura reforçou a minha primeira impressão de que estamos mais perante um fanático do que perante um louco. O que ele escreve é arrepiante, muitas vezes mentiroso, mas ele sabe o que escreve e por que escreve, quando lhe é útil mentir ou não mentir. Sabe também que palavras usar. Nunca diz que o seu opus é um “manifesto” (palavra que erradamente tem sido usada) mas um “compêndio”, ou seja, um conjunto de textos que pretendem abranger um tema. O compêndio dele tem pelo menos uma meia-dúzia de partes. Numa das primeiras, tenta explicar como o “marxismo cultural” tomou conta do Ocidente a partir dos anos 60. Noutra, tenta provar que demograficamente os muçulmanos dominarão a Europa. Até aqui, nada que não tenhamos lido no conservadorismo mais rebarbativo, com o mesmo manipular de dados e excitar de fobias.

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