Estamos ainda desprevenidos a tentar compreender e, sem dar por isso, ficámos deslumbrados.

Baucau, Timor-Leste. — Há o longe, o mais longe, o muito longe. E depois há Timor. A Rússia é longe. A Índia é muito longe. A China mais longe ainda.

Timor é longíssimo. E, no entanto, converso na soleira da porta com um casal timorense que me conta onde estava no 25 de abril. Que me falam de coisas como “tirei só a quarta classe” ou “o Salazar não queria que a gente estudasse”. Que poderiam ser os meus pais, dizendo o mesmo tipo de coisas, seguindo uma partitura que qualquer português conhece.

Mas de repente tudo muda. Dá para contar pessoalmente, mas não dá para reproduzir aqui — e eu não pedi autorização aos meus interlocutores. Estamos de novo longe, longíssimo, não em geografia nem fuso horário, mas em sofrimento humano e em impossibilidade de compreender.

Não se pode, aliás, ter ilusão de compreender Timor. Deve-se apenas começar a compreender. E depois começar outra vez. Ser português não resolve o problema, antes o densifica de expectativas e frustrações, mal-entendidos e paixões às vezes até correspondidas. Porque colonizou os timorenses, porque abandonou os timorenses e porque depois sofreu com eles como nunca tinha sofrido.

Dizem-me os meus interlocutores: “em 450 anos os portugueses só levaram 18 timorenses para estudar na Universidade; em 24 anos os indonésios levaram centenas”. Passado um pouco, lembram: “no tempo dos indonésios nunca poderíamos estar aqui a conversar, se passasse um militar estávamos perdidos; mas os civis indonésios são mesmo boas pessoas”. Camada após camada após camada de memória difícil.

Estamos ainda desprevenidos a tentar compreender e, sem dar por isso, ficámos deslumbrados.

Não é difícil. Baucau está numa encosta. As suas ruas são sinuosas. As árvores são inesgotáveis, intermináveis, inumeráveis, e deixam-me de boca aberta. Por todo o lado se esvuta, e depois vê, uma cascata, uma cachoeirinha, uma queda-d’água. Da praia é bom nem falar. E depois há simplesmente o estar aqui. Cada caminhada cidade acima é repetir dezenas de bons-dias-boas-tardes-boas-noites com um sorriso permanente, às vezes com um “rao noc rao?” — “estás bem ou mal?” em macassai, apenas uma das três, ou quatro, ou talvez cinco, ou talvez mais línguas que se falam no distrito (tétum, macassai, uaimoa, mindiqui, e talvez outras de que não me lembro, sem falar no português).

É fácil não pensar que a pitoresca pousada foi uma prisão indonésia e que na sua piscina se empilharam cadáveres. É fácil esquecer que  as estradas estão esburacadas e que o sumptuoso edifício do mercado está numa triste ruína. Porque ele continua sumptuoso na mesma.

Há dois anos a primeira pessoa que aqui encontrei chamava-se Felicidade — Felicidade Neto Ximenes, guia, intérprete, e o sorriso mais esperto da Insulíndia. Deu-nos a ideia maluca de que este monumento merecia um evento cultural e de cidadania. Começámos por agregar um bispo; passado poucas horas uma ONG de Macau. Passado um dia juntou-se a minha colega Ana Gomes, e de repente estávamos a co-organizar um festival cultural do outro lado do mundo, a que — a partir de certa altura — se chamou “Encontros de Baucau”, e onde se fizeram coisas tão complicadas como cinema e tão simples como apanhar lixo. Ou se calhar é ao contrário.

Lá em baixo soldados da GNR dançam com ex-noviças e assistentes parlamentares. Todos sabem que fizeram aqui qualquer coisa mágica e, como eu, ainda não a conseguiram digerir. Na rua as pessoas querem falar sobre como vamos fazer no ano que vem. E eu, longe em quilómetros e fuso horário, escrevo a crónica, sabendo que a não comecei a esgotar.

One thought to “Rao noc rao?”

  • patfranca

    Caro Rui,
    Que saudades daí!
    Tenho a certeza que já estiveste na praia fabulosa de Baucau. Timor tem tudo para dar certo.
    Boa viagem de volta.

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