O prémio de consolação

Se houver progresso humano — uma questão em aberto — a ascensão do resto do mundo é a melhor notícia para a Europa. E, na verdade, o resto do mundo não quer a desgraça da Europa. A União Europeia tem uma população de cerca de 500 milhões de cidadãos, num continente densamente povoado que quase pode ser considerado uma mera península da grande massa eurasiática. É menos de metade da população da Índia ou da China, mas é o dobro da do Brasil ou um terço mais do que a população dos Estados Unidos da América. A economia da União Europeia, tomada no seu conjunto, é a maior ou segunda maior do mundo, em comparação com a dos Estados Unidos, embora ambas possam vir a ser ultrapassadas pela China nas próximas décadas. A Europa tem outra grande vantagem por ser uma península muito recortada: nenhuma cidade está muito longe de um porto marítimo. Estas cidades são grandes nós da economia global.

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Estúpida europa

Estúpida Europa: se tivesses emitido eurobonds não seriam agora os alemães a pagar as dívidas dos gregos, mas os países emergentes a pagarem-te a reconversão da tua economia. A União teria ganho um lugar no mundo. Em vez disso, a desunião regressou ao continente. E, décadas depois, a visita da Chanceler da Alemanha a Atenas é de novo a visita de uma Europa a outra, divididas por uma fronteira mental. Os nomes dos lugares mudaram, a linha mudou também. Antes a cortina de ferro dividia a Europa em duas metades pela longitude: Leste de um lado e Oeste do outro. Agora as duas metades estão divididas pela latitude, entre Norte e Sul, por uma cortina da dívida. Como foi suceder que uma visita de uma chanceler alemã a um país parceiro da União, coisa que ainda há poucos anos seria banal, sonolenta e quase indigna de menção, se tenha agora tornado numa questão de polícia de choque e gás lacrimogéneo, com a chanceler escondendo-se dos gregos e alguns gregos vestindo-se de nazis?

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E por que não muito melhor?

E é sempre possível, como diziam os antigos, que o pensamento leve à palavra, a palavra à persuasão, e a persuasão à boa vida e o bom governo. É bom que voltemos a aprender essa verdade. Há anos que o debate se faz em torno destes pólos: há os que dizem que temos que ficar muito pior, e os que querem resistir a isso para não ficarmos tão mal. Fala-se em “resgatar” do desastre ou em “travar” o desastre, no máximo em “inverter” a tendência. A próxima geração, diz-se, vai viver pior do que esta — ou luta-se para que não perca ao menos as conquistas da geração anterior. Mas por que não se diz, nem se imagina sequer, que ela possa viver muito melhor?

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O envelope

Dizer “este governo deve cair” sem dizer como chegar a outro governo, infelizmente, não representa nada de novo. Lembram-se da primeira vez que receberam um daqueles envelopes que dizem “você é o vencedor — venha receber o seu prémio!”, e o prémio (que nunca se chega a receber) pode ser um carro, ou um milhão de euros, ou uma torradeira? É difícil recuperar a memória de ilusão e imediata desilusão desse momento, porque a maior parte de nós já não leva a sério quando recebe o envelope. Já fomos desiludidos demasiadas vezes. Ainda assim, os envelopes continuam a chegar, e temos vontade de acreditar. Para um português de certo tipo, como eu, o equivalente é a promessa de unidade da esquerda. Há quarenta anos que nem nos sai uma torradeira, mas de cada vez que recebemos o envelope ainda nos enchemos de esperanças. Foi isso que aconteceu no passado domingo com a notícia de que o PCP e o Bloco se iriam “unir”

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O inteligente mais estúpido

O mais perigoso ignorante é aquele que ignora a sua ignorância. Creio que é Mário Soares quem costuma contar a história, passada na Lisboa salazarista, de um amigo seu que ao ver passar pelo Chiado o filósofo e autor António Sérgio, exclamou: “olha, ali vai o parvinho mais inteligente que eu conheço!”. Vem a isto a propósito de António Borges, o consultor do governo que decidiu chamar de “completamente ignorantes”, torcendo o rosto num esgar de raiva, a todos os empresários que decidiram criticar a medida da subida da TSU para os trabalhadores e correspondente descida para os patrões. Borges é um homem com currículo no Goldman Sachs, na escola de gestão europeia INSEAD e no Fundo Monetário Internacional. Não deve ser, pois, nenhum ignorante: é apenas o inteligente mais estúpido do país.

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Propostas para este milénio (2)

Portugal deve estar na primeira linha da inovação política na União: propondo um pacto democrático aos outros estados-membros para legitimar eleitoralmente a Comissão Europeia, e elegendo dentro de fronteiras os seus representantes ao Conselho da UE, enquanto assembleia legislativa, não esperando por ninguém enquanto faz o que lhe é possível para a aproximar de um senado eleito. O escritor italiano Italo Calvino escreveu uma vez um texto chamado “seis propostas para o próximo milénio”. Na crónica de passada semana, e na de hoje, vou muito menos longe. O milénio do título está ali para lembrar que Portugal está aproximar-se dos seus novecentos anos, e que os filhos dos portugueses que nascerem agora são bem capazes de chegar ao mil anos do país, se o país — que certamente está a passar um momento muito difícil — chegar lá também. É aqui ao virar da esquina, e um momento apropriado para pensar a sociedade e o país (na última crónica) na Europa e no mundo, com mais três reflexões soltas.

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Propostas para este milénio (1)

Vimos nos últimos dias como uma mobilização consciente e informada dos cidadãos produz vitórias decisivas. Serve para nos relembrar: este país pertence-nos, e em democracia os governos devem preservar essa verdade, ou estarão perdidos. A maior parte das pessoas lendo este texto viverão, espero eu, até Portugal completar novecentos anos como país independente, o que, dependendo da contagem, ocorrerá daqui a vinte anos e picos. A não ser que se façam grandes avanços na esperança de vida, será difícil que vejam o país atingir um milénio de independência — mas os seus filhos, ou pelo menos os filhos dos seus filhos, chegarão lá, se o país chegar também. É, se pensarmos bem, um acontecimento notável, tanto mais não há nada de inevitável nele. Portugal não nasceu com fronteiras naturais — e, nos primeiros tempos, nem sequer culturais ou linguísticas. A capital que tem hoje era, nos primeiros anos, uma cidade estrangeira. Só por acaso não foi absorvido por outros reinos peninsulares, nem — já menos por acaso — pela fusão de toda a península num só reino. Mesmo depois, em várias ocasiões poderia ter sido dividido, espartilhado ou ocupado permanentemente. Da Baviera à Sabóia e à Escócia, nem todos os outrora altivos reinos europeus podem dizer o mesmo. Embora geograficamente europeu,

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Os tempos estão prenhes

A escritora Maria Teresa Horta recusou receber um prémio literário das mãos do primeiro-ministro e deixou-me pensando nas três leonores do século XVIII. A primeira Leonor foi Leonor Tomásia de Távora. Há exatamente 257 anos, no dia 19 de setembro de 1755, Leonor de Távora desembarcou em Lisboa vinda do Estado da Índia Portuguesa, onde tinha sido vice-rainha junto do seu marido, o Marquês de Távora. O navio em que chegaram chamava-se Bahia de Todos os Santos; atracou no Terreiro do Paço e os esposos, considerados a primeira família nobre do reino, foram por uma prancha até à Casa da Índia, onde pisaram terra; dali seguiram para Belém, a beijar a mão aos reis. Menos de dois meses depois, o Grande Terramoto destruiu Lisboa. Leonor de Távora recebeu os desalojados do sismo no seu palácio de Galveias, ao Campo Pequeno, e tal como o seu confessor Malagrida explica a catástrofe como sendo um “castigo de Deus”. Entra em choque com

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Libertar para desenvolver

  Se “empobrecer para competir” implodiu, qual é a ideia poderosa, qual é o discurso congregador, qual é o argumento vencedor que o possa substituir? A resposta, creio eu, é “libertar para desenvolver”. Em primeiríssimo lugar: todos tivemos justificados motivos de orgulho no povo português. Centenas de milhares de pessoas, talvez um milhão, manifestaram-se anteontem em dezenas de cidades nacionais e algumas da diáspora, civicamente, pacificamente, e eu acrescentaria construtivamente também.  Foi uma enorme demonstração de uma sociedade atenta, informada, preocupada com o seu país, democrática, e serena mas vigorosamente empenhada em fazer-se ouvir. Em segundo lugar:

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O dia do fim?

Um governo só acaba quando uma alternativa nasce. Não uma alternativa teórica, que acontece depois de um milagre, mas uma maneira muito concreta de ir do ponto A para o B. E isso a oposição portuguesa não tem, e não quis ter até hoje.  Não foi a primeira vez que um dia 7 de setembro foi uma grande derrota para um governo português. Em 1822, nas margens plácidas do Ipiranga, o rei de Portugal perdeu o Brasil. Cento e noventa anos depois, a oposição portuguesa quer pensar que este foi o dia em que Pedro Passos Coelho, ao anunciar o mais escandaloso roubo ao cidadão comum, perdeu o poder. Mais devagar. Claro que há algumas semelhanças:

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