Trabalho para Férias

Solidariedade europeia sem visão europeia é caridade, e isso já se viu que não funciona. Trabalho para férias Como resolver a crise do euro em poucas semanas: Já nos próximos dias, os ministros reunidos no Conselho reconheceriam que entrámos num novo patamar da crise com as subidas dos juros em Itália e na Espanha. Esses juros aproximam-se do limiar (acima dos cinco por cento, dependendo dos prazos de dívidas) em que entram em espiral. A partir daí, a acreditar nos casos gregos, irlandês e português, os juros fogem correndo; só há subida, descida nem pensar. Mesmo que os casos italiano e espanhol sejam diferentes, ninguém vai esperar para saber. Ambos os países são demasiado grandes para deixar cair, e impossíveis de salvar com os atuais mecanismos. Isto quer dizer que o tempo dos remendos acabou. Vamos supor que a direita tem razão, e que a dívida é o nosso grande problema de longo prazo. Ainda assim, o nosso problema de curto prazo não é a dívida — são os juros da dívida. É a curto prazo que estamos todos mortos.

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As más notícias

Ninguém nega que um primeiro-ministro pode querer verificar o passado de um possível governante, em particular os seus conflitos de interesse. Mas tem de o fazer legalmente. Sabemos que isto está mesmo mal quando o Presidente dos Estados Unidos da América diz que “a boa notícia” é que “não somos a Grécia, nem somos Portugal”. Há estantes e estantes de livros sobre a decadência do Ocidente, uns péssimos, outros bastante bons. Pois bem. Podem desconsiderá-los a toda e poupar espaço na biblioteca com apenas esta frase do chefe da única super-potência global. Menos mal, pensa Obama, que não somos Portugal. Agora as más notícias.

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A Grande Transformação

A crise está a minar a democracia na Europa. O desafio é criar uma democracia europeia que vença a crise. Daqui a meses poderemos sofrer pressões para sair do euro. Nessa altura já a turbulência terá dominado a Espanha e a Itália. (E a Bélgica? Que acontecerá a um estado com uma dívida pública equivalente a cem por cento do PIB, que não tem governo há mais de um ano e cujos partidos namoram com o fim do país?) Abandonar o euro pode ser menos intolerável do que permanecer nele. Mas os tratados não permitem abandoná-lo sem abandonar a União. E uma União Europeia que tenha falhado no euro será uma sombra dos sonhos passados. Que sucederá então?

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O milagre do lixo

Sim, o problema está na incapacidade europeia em resolver uma crise europeia. Mas essa incapacidade não se dá pela falta de boas soluções técnicas. Será que se pode levar um murro no estômago e ver a luz? Pelos Atos dos Apóstolos sabemos que São Paulo, quando ainda se chamava Saulo e perseguia cristãos, foi cegado por uma luz fortíssima que o fez cair do cavalo quando viajava na estrada para Damasco. Depois deste momento, mudou de nome e tornou-se no mais importante apóstolo da fé cristã que antes perseguia. Tudo pode acontecer. Sobretudo em Portugal. O que testemunhámos na última semana com o nosso Presidente da República foi um episódio de conversão digno de São Paulo na estrada de Damasco. Cavaco Silva dizia há poucos meses ainda que Portugal tinha de dar a outra face — “não vale a pena recriminar as agências de rating” foram as palavras usadas — agora, quando o governo é do seu partido e a Moody’s nos classifica como lixo, diz que elas “são uma ameaça”. Antes explicou-nos que “não podemos insultar os mercados, que são quem nos empresta o dinheiro”; agora anseia por expulsar os vendilhões do templo. Mas há aqui diferenças fundamentais.

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O puxempurra

Um “evento de falência” da Grécia poderia lançar uma reação em cadeia de efeitos planetários. Depois dos últimos anos de crise, ninguém está interessado em descobrir quais são. O puxempurra é uma criatura bicéfala; cada metade tenta avançar na direção oposta da outra e o conjunto não sai do lugar. Pode viver assim anos a fio se estiver pastando num prado verdejante. Mas imaginem que os tempos mudaram e que o puxempurra dá por si numa poça de areia movediça: metade puxa, metade empurra, e o conjunto afunda-se. O puxempurra é uma invenção de histórias para crianças (dos livros ingleses de Dr. Dolittle onde o nome original do bicho é pushmi-pullyu; “puxempurra” é da minha responsabilidade) mas encontrei-o num livro sério sobre a União Europeia que deveria ser traduzido para português (The end of the West — The once and future Europe, por David Marquand). Nesse livro o puxempurra é usado para descrever o processo negocial em Bruxelas — a França puxa, a Alemanha empurra; a Espanha empurra dinheiro para os agricultores, o Reino Unido puxa pelo “cheque britânico”; a Comissão puxa pelo método comunitário, o Conselho empurram para o método intergovernamental. Em tempos o puxempurra foi muito gabado pelo resultado dos seus compromissos. Mas agora atolou na areia movediça e arrisca-se a levar-nos todos para o fundo.

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Agora em voz alta, por favor

Toda a gente fala deste corte como se já estivesse adotado, mas nenhum daqueles deputados é obrigado a votar este imposto extraordinário, sem ao menos impôr condições. Para começar claro, eu acho que se tivesse havido na campanha eleitoral um partido X que dissesse “este ano o Estado vai arrecadar todo o vosso subsídio de Natal para resolver os seus problemas de tesouraria e podermos voltar ao crescimento económico” — esse partido teria ganho as eleições. “Imaginem”, pensaria o eleitor, “resolver todos os problemas de uma só penada, sacrificando o subsídio de Natal, mas depois ficar mais tranquilo em relação à possibilidade de desemprego ou falência, se tal coisa fosse possível” — mas tal coisa não é possível. Sabemos todos que metade do subsídio de Natal (ou o equivalente a esse subsídio para quem o não ganha) se destina a reunir meros 800 milhões de euros para tapar um buraco. Reparem:

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Simulacros pintados

Cada passo na zona euro se mede agora em dias. No fim da Idade Média um teólogo chamado Jean Gerson, então famoso, e agora obscuro, insurgiu-se contra a decadência do poder dos bispos no seu tempo. Esses bispos, que ele via como descendentes diretos dos apóstolos, tinham deixado ultrapassar-se por duas realidades distintas, cada uma com a sua fonte de poder: o Papa, por um lado, e por outro lado os reis. Estes desenvolvimentos recentes (em termos teólogicos, ou seja, tinham demorado os mil anos anteriores para acontecer, que até Santo Agostinho estava tudo bem) eram para Jean Gerson deploráveis. Os bispos representavam para ele “a” Igreja, a comunidade entre o rebanho de Cristo e os seus pastores; eles tinham uma legitimidade no tempo, que lhes tinha sido dada por Cristo, e no espaço, por estarem próximos dos fiéis. E em apenas um milénio o Papa, que Gerson considerava apenas um bispo entre outros (Bispo de Roma) tinha-lhes retirado o poder espiritual, monopolizando-o para ele. E os reis em toda a Europa tinham tomado para si o poder político, tomando-o através da força das armas.

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O Mercedes-Deng

Daqui a umas décadas os chineses serão mil milhões, mais produtivos, e os alemães continuarão menos de um décimo dessa população. Há uns anos fazia-se esta sugestão em palestras e debates: “imaginem quando todos os chineses quiserem ter um carro”. As ruas das cidades chinesas eram nessa altura uma paisagem de bicicletas, milhões de bicicletas pedalando para lá e para cá. No dia em que essas bicicletas se transformassem em carros, o que aconteceria? A pergunta e a inquietação que ela trazia eram de longo prazo. A resposta foi de curto prazo. O que acontece, afinal, quando os chineses começam a comprar carros? Cresce a economia alemã; e os alemães começam a preocupar-se menos com a Europa. Parece-lhes evidente que a Alemanha se conseguirá aguentar sozinha no mundo globalizado. Suspeitando que poucos ou nenhuns outros países europeus possam dizer o mesmo, os dirigentes alemães convencem-se de que os restantes europeus precisam mais da Alemanha do que vice-versa. E quanto à mão-cheia de países que se encontram em situação mais desesperada, a resposta da Alemanha — enquanto vai vendendo carros à China — é que se há-de pensar numa solução para nós, os desesperados, mas só se for nos termos deles, os ganhadores. Se essa solução nos desesperar mais ainda, azar.

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A um amigo que discorda

Escrevo este texto a pensar por exemplo no Zé Neves que publicou no Vias de Facto um post acerca da minha desvinculação da delegação do Bloco de Esquerda do Parlamento Europeu e ida para o grupo dos Verdes Europeus após uma quebra de lealdade política e pessoal de Francisco Louçã. O Zé Neves não concorda com parte da minha decisão, outros amigos não concordam com outras partes da minha decisão. Outros amigos concordam e apoiam-me em todo este processo e outros ainda não concordam em nada. Quero através deste texto conversar com todos, como se estivesse na mesa de café, exatamente como o Zé Neves imagina, a responder às perguntas dele. Claro que esta é uma conversa em público e eu ainda sei, ao contrário de outros, a diferença entre um esclarecimento pessoal que se pede e um escrito em público com consequências políticas. Aqui vai. Mas afinal porque é que saíste? Durante um ano fui sendo objecto de uma ostracização discreta mas eficaz, por parte de alguns elementos da direcção do Bloco de Esquerda. Antes da campanha houve quem, no Bloco, procurasse aproximar posições mas não houve, da parte de Louçã, disponibilidade para qualquer conversa. Após as eleições a ostracização já não precisava de ser tão discreta, mas apenas implícita e sibilina, como na nota de Francisco Louçã que eu entendi como dando o sinal de que já não era preciso exercer contenção em relação a mim. Mas a situação já vinha de antes. E não achas o teu pretexto muito pequeno? Não o acho sequer um pretexto. Francisco Louçã, enquanto líder de um partido, tem obrigação de consultar um deputado do seu partido antes de lançar sobre ele suspeitas de desinformação, “falsificação” e de “refazer a história”. O facto em questão pode parecer ínfimo, mas é total: quebra do laço de lealdade política, institucional e pessoal. A partir daquele momento seria uma fantasia julgar que a minha independência não estava sob ameaça. E num deputado independente, a independência não é um detalhe nem um pretexto, é a razão de ser do mandato. Então e porque não saíste do Parlamento? Pessoalmente, seria mais fácil abandonar. Mas nesse caso seria também demasiado fácil a qualquer partido desfazer-se de um independente, não é? Bastaria dificultar-lhe a vida até que o independente não tivesse estômago para aguentar. No meu caso, eu sairia e poria o meu lugar à disposição daquele que foi desleal comigo. Chama-se a isso beneficiar o infrator. E porque foste para os Verdes Europeus? Nós fomos eleitos em 2009 com base num programa europeísta de esquerda. O GUE/NGL, grupo em que estava, tem menos europeístas de esquerda do que, por exemplo, comunistas ortodoxos; tem menos europeístas de esquerda do que eurocéticos; para cada federalista há dois ou três soberanistas. E, em última análise, tem menos europeístas de esquerda do que o grupo dos Verdes Europeus. Além disso – eu sei que não és muito dado a patriotismos – para Portugal é mais útil ter alguém no Grupo dos Verdes Europeus do que ficarem três delegações portuguesas no GUE/NGL (PCP, BE e eu).Aliás, o próprio BE, quando passou a ter representação no PE ponderou ir para um grupo ou outro. Não há nenhum anátema em estar nos Verdes europeus, pelo contrário: são o grupo que tem revelado maior convicção e consistência no actual momento europeu, unindo boas políticas na área da solidariedade, sustentabilidade e defesa das liberdades. Isso não significa que subscreva o que decidem os Verdes em cada país. Por exemplo quando, em regiões da Alemanha se coligam com a CDU. Do mesmo modo que a presença no GUE não impõe aos deputados do Bloco qualquer concordância com a Esquerda Unida que, na Estremadura, viabilizou um governo do PP. Mas antes disto, aceitaste estar no GUE/NGL… Fiquei no GUE/NGL porque estava na delegação do Bloco de Esquerda, embora com os bloqueios políticos neste grupo tenha ouvido suspirar muitas vezes — a mim e a outros deputados — “um dia acabamos por ir para os Verdes”. Na verdade, nenhum dos grupos é perfeito. No GUE/NGL, por exemplo, tive que ser o único a assinar a resolução contra a prisão de Ai Weiwei — os partidos pró-chineses dentro do grupo não queriam sequer que fosse discutida. Nos Verdes, discordarei de outras posições. O meu ideal, e tenho-o defendido, era que houvesse um grande grupo GREEN/LEFT, que seria o terceiro do Parlamento Europeu. Mas já estavas a negociar com os Verdes há dois meses… Não, não estava. Comuniquei aos Verdes Europeus que gostaria de juntar-me ao grupo deles no dia 20 de Junho, segunda-feira. Mas não houve conversas? Várias vezes me queixei do que se estava a passar com colegas dos Verdes e de outros grupos. Até com camaradas do Bloco, vê lá. Mas Cohn-Bendit (Presidente dos Verdes Europeus) não disse que tinhas negociado com eles dois meses antes? Não, não disse. Que fique para registo, o Cohn-Bendit fez uma enorme trapalhada com as suas declarações embora, justiça seja feita, as tenha corrigido. Ele disse que a minha situação já vinha de trás, que era expectável, daí o francês “ça se préparait”, o que não quer dizer de todo dizer “nós preparávamos”, muito menos “nós negociávamos”, como o jornalista decidiu incorretamente traduzir a coisa. Instado pelo jornalista chutou uma data, aliás absurda, de “dois, três meses”. Não é verdade. Ele foi descuidado e pouco rigoroso. Ao menos, corrigiu o que disse. Também devo dizer que uma anónima “fonte da direcção do Bloco” diz que eu avisei a direcção política da minha ida para os Verdes há duas semanas, o que é simplesmente falso. E agora? Agora, estou a começar do zero. Devolver o voto, para mim, significa devolvê-lo com trabalho e em diálogo com os cidadãos explicando a razão por trás de cada decisão. Como sempre fiz e estou a fazer agora. E sei que as convergências de que as esquerdas precisam também passam por em alguns momentos afirmar divergências. Valorizo a experiência destes 2 anos com o Miguel e a

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