Cada passo na zona euro se mede agora em dias.

Líderes europeus em “Simulacra depicta” - Conselho Europeu 23 e 24 de Junho de 2011.

No fim da Idade Média um teólogo chamado Jean Gerson, então famoso, e agora obscuro, insurgiu-se contra a decadência do poder dos bispos no seu tempo. Esses bispos, que ele via como descendentes diretos dos apóstolos, tinham deixado ultrapassar-se por duas realidades distintas, cada uma com a sua fonte de poder: o Papa, por um lado, e por outro lado os reis.

Estes desenvolvimentos recentes (em termos teólogicos, ou seja, tinham demorado os mil anos anteriores para acontecer, que até Santo Agostinho estava tudo bem) eram para Jean Gerson deploráveis. Os bispos representavam para ele “a” Igreja, a comunidade entre o rebanho de Cristo e os seus pastores; eles tinham uma legitimidade no tempo, que lhes tinha sido dada por Cristo, e no espaço, por estarem próximos dos fiéis. E em apenas um milénio o Papa, que Gerson considerava apenas um bispo entre outros (Bispo de Roma) tinha-lhes retirado o poder espiritual, monopolizando-o para ele. E os reis em toda a Europa tinham tomado para si o poder político, tomando-o através da força das armas.

Talvez a Igreja como a imaginava Gerson nunca tenha existido e não passasse apenas de uma utopia na sua cabeça. Isso não o impedia de sentir dolorosamente a sua perda. Lamentando o estado a que haviam chegado os bispos chamou-os de “simulacra depicta”, o que significa “simulacros pintados”. Serviam magnificamente para mostrar em pinturas, nos seus paramentos dourados. À parte isso, tinham deixado de servir para o que quer que fosse.
Em simulacros pintados pensei quando vi as fotografias do último Conselho Europeu. Barroso apresenta Passos Coelho a Merkel. Merkel e Sarkozy riem. Todos procuram o lugar para a fotografia de família como se nada estivesse acontecendo.
Como os bispos de Jean Gerson, o poder que eles crêem ter já se esfumou. Não para o Vaticano, é claro; talvez para Frankfurt, onde está o Banco Central Europeu? Não, pensam eles: ainda agora disseram ao secretário deles, o sr. Van Rompuy, que ligasse para o BCE dizendo a um italiano chamado Smaghi que saia para que possa entrar um italiano chamado Draghi. Mas enquanto violam a independência do BCE por razões pueris, nunca tiveram coragem de questionar o poder dele por razões reais, económicas, que afetam a vida e o emprego de milhões de pessoas. Estranho.
E, no entanto, à volta deles, as coisas não precisam de um milénio para mudar. O nosso tempo já não o de Gerson. Quem o diria? Recentemente os estados planeavam a sua vida em anos. Depois da crise, alguns deles não sabem se terão dinheiro para pagar salários daqui a semanas. Cada passo na zona euro se mede agora em dias. E já não é implausível temer uma decisão do parlamento grego para daqui a horas.
É a isto que chegaram as orgulhosas nações europeias? A polaridade económica do mundo basculou para Oriente, e os chefes dos seus governos não sabem que fazer. Então fazem de conta. Afadigam-se. Ali estão. Fotografados. Filmados. Observados. Mas simulacros apenas.

2 thoughts to “Simulacros pintados

  • on

    “Talvez a Igreja como a imaginava Gerson nunca tenha existido e não passasse apenas de uma utopia na sua cabeça.” Nem por isso, a utopia de Gerson é a realidade da igreja Ortodoxa e da Igreja protestante.

  • JPAfonso

    A observação de On é pertinente (excepto o à parte sobre a Igreja Protestante que não existia na altura). O que leva a outra questão por analogia: se existem igrejas que cumprem o ideal “perdido” de Gerson (admitindo que sabemos qual é este, porque dependendo da altura da escrita, pode estar a reagir a uma situação que na altura tinha produzido dois Papas), poderá haver outras comunidades de países que melhor seguem o ideal Europeu com que sonhávamos?

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