Tal como prometido amanhã a seguir ao meio-dia estarão disponíveis o regulamento e respectivo formulário de candidatura às bolsas. Esperem só mais um pouco.
Tal como prometido amanhã a seguir ao meio-dia estarão disponíveis o regulamento e respectivo formulário de candidatura às bolsas. Esperem só mais um pouco.
A palavra crise perdeu metade do seu sentido. Crise deixou de ser um momento; passou a ser um estado. Atenas. — A palavra é grega; a sensação também. Para os gregos antigos, crise era um termo médico. Significado: crise era o momento na evolução de uma doença em que o doente poderia ficar muito pior, ou muito melhor. Para os médicos modernos da crise, que são os tecnocratas em Bruxelas, os governos de Sócrates a Papandreou, e os comentadores um pouco por todo o lado, a palavra crise perdeu metade do seu sentido. Agora quer apenas dizer o momento em que as coisas estão mal e vão ficar consistentemente pior. Crise deixou de ser um momento; passou a ser um estado. Visto de Portugal e da minha geração,
Quem quer cortar na despesa pública nunca se lembra de nos dizer como é que diminuirá a despesa privada. Há coisas que nunca vão pôr em risco a opinião de alguém. Uma delas: escrever que “é preciso cortar na despesa”. Posso escrevê-lo quando faz chuva, quando faz sol, quando faz vento e quando faz nevoeiro. Nunca parece mal, nunca parece pouco sério, é sucesso garantido. Em Portugal, então, deve haver um qualquer gene escondido que predispõe a nação para este discurso: nós portugueses nascemos sabendo que fizemos alguma coisa mal, apenas precisamos que alguém nos diga o que é e acreditaremos. Dizer que é preciso cortar na despesa tem até um efeito curioso. Isenta quem o disser de qualquer relação com a realidade, de qualquer preocupação com as consequências do que dizem, de qualquer necessidade de avaliar as circunstâncias e adaptar o discurso ao contexto. Diz-se que toda a gente tem de cortar nas despesas, e aplaudimos inclusive o corte nas despesas daqueles que nos compram coisas. Ao mesmo tempo, deseja-se que Portugal diminua as importações e aumente as exportações. Mas exportar para onde, se os outros cortam nas despesas?
Saramago foi dos melhores escritores de sempre em pegar numa pequena ideia inicial, inverosímil, e desdobrá-la em palavras até construir um edifício à volta do leitor. Eu estava em Espanha, de férias com a minha irmã e a minha sobrinha. Elas foram para uma loja, eu entrei numa livraria. Estava folheando traduções de livros portugueses quando uma mulher de cabelos negros, falando num sotaque andaluz cerrado, me interpelou. Eu fiquei atrapalhado, pedi desculpa e voltei a inserir o volume que segurava na prateleira. Ela disse-me, “¿eres portugués?”, e prosseguiu numa algaraviada de que só entendi a palavra “saramago”. Perguntei “há mais livros do Saramago aqui, é isso?”. Ela desapareceu por detrás da estante, e voltou com o escritor José Saramago pela mão. Falámos durante três minutos, não mais. Eu tinha acabado de ler, nessa mesma tarde, O Ano da Morte de Ricardo Reis — e por isso buscara a tradução espanhola. Ele estava feliz; eu não me lembro do que ele disse. Ele brincava com Pilar del Rio — a mulher de cabelo negro —, inventava piadas, coisas para a fazer sorrir. Eles estavam apaixonados, eu tinha talvez quinze anos; inventei uma desculpa e fui embora. Eu não tinha palavras para conversar com Saramago e não tinha à-vontade para ficar ali boquiaberto a ouvi-lo. *** Uma das melhores passagens de Saramago encontrei-a por acaso num livro que li na faculdade, O Tempo das Catedrais, do historiador francês Georges Duby. É na abertura do livro; uma descrição panorâmica tão bem vertida em português que eu tive de ir à ficha técnica e descobrir: “mas quem foi o tradutor?” E lá dizia: tradução, José Saramago. Sem o Saramago que perdeu o emprego de jornalista e viveu de traduções, quando levava já quase meio século de vida, não teria havido o Saramago milagroso das décadas seguintes. Um escritor aprende muito traduzindo, ou até copiando à mão; aprende a cristalizar aquilo que observou. O solitário revisor de História do Cerco de Lisboa é pelo menos parcialmente a memória deste Saramago tradutor. Um escritor aprende muito lendo todo o género de coisas. Saramago gostava de literatura menor, gazetas antigas, sermões de Vieira ou ficção científica. Existe um livro de ficção científica chamado O Dia dos Trífidos que talvez Saramago tenha lido e no qual toda a gente acorda cega, menos um protagonista. Mas Saramago levou tão longe uma ideia semelhante que ao lê-lo nós sentíamos a “cegueira branca” e a angústia de tê-la. Ele foi dos melhores escritores de sempre em pegar numa pequena ideia inicial, inverosímil, e desdobrá-la em palavras até construir um edifício à volta do leitor. Um escritor aprende também muito nascendo e vivendo num país onde as elites são medíocres e mesquinhas, e cujas imaginações não aceitam que pode ter nascido um génio na Azinhaga, Ribatejo. Esta é uma história de que Alberto Caeiro gostaria. O Saramago da Azinhaga cresceu e a sua imaginação acabou por abarcar tudo de todas as maneiras. Padres barrocos e voadores, blimundas e baltasares, uma península que se desprende mar adentro, uma palavra mudada num livro, um poeta pela cidade em busca do poeta que o inventou, a cidade onde todos ficam cegos, um funcionário opaco numa conservatória do registo civil, um messias relutante e revoltado, um elefante em viagem, tudo. E mais polémicas, e indignações, e ideais, e o planeta e a humanidade e tudo. E depois ele mesmo, e um amor encontrado que nem na imaginação dele caberia, e uma mudança para uma ilha estranha, vulcânica. Nessa ilha construiu a sua casa, que com orgulho dizia ter sido feita apenas com as suas histórias, as suas ideias, as suas palavras. O Saramago da Azinhaga e o mundo que ele fez com vinte e poucas letras do alfabeto.
Rui Pedro Soares talvez não entenda que, enquanto este for lembrado, o seu nome será para os portugueses o emblema da mediocridade e da arrogância que chega ao poder e ao privilégio por intermédio de favorecimentos e favoritismos. Um dia Rui Pedro Soares será apenas um nome que ligaremos a um escândalo político que já lá vai. Pouco antes de desaparecer na obscuridade, porém, decidiu fazer declarações em que comparava a comissão parlamentar de inquérito ao caso PT/TVI aos “tribunais da Inquisição”. Rui Pedro Soares talvez não entenda que, enquanto este for lembrado, o seu nome será para os portugueses (incluindo, não pense ele outra coisa, aqueles que votam no seu partido) o emblema da mediocridade e da arrogância que chega ao poder e ao privilégio por intermédio de favorecimentos e favoritismos, que exerce esse poder da forma mais gabarolas e irresponsável, tendo como único objetivo satisfazer o mando do político que o pôs naquele lugar, e que para desempenhar tal tarefa é pago num ano muito mais do que muitos portugueses esforçados e honestos ganham trabalhando a vida toda. Por gente como ele, Ricardo Rodrigues, e outros, se falará um dia de “tralha socrática”. Para a maioria dos portugueses (incluindo os do PS) Rui Pedro Soares não passou nunca de uma espécie de capanga de luxo, encarregado de despachar os trabalhinhos sujos dos outros. Para lá disso, a sua atitude só surpreendia pela desfaçatez e descaramento. E agora juntou-lhe uma ignorância gritante e ofensiva. Vamos recapitular brevemente as principais diferenças entre um tribunal da Santíssima Inquisição e uma Comissão Parlamentar de Inquérito.
Onde estavam os defensores da estratégia espanhola quando a crise grega vinha aí e a Península Ibérica poderia ter tido uma posição ativa comum? Espanha, Espanha, Espanha. Por que se costuma dizer que a Espanha deveria ser a principal aliada de Portugal na União Europeia? Por preguiça. Por que esta é uma estratégia fácil de enunciar e mais fácil ainda de pôr em prática. De resto, por nenhuma razão em particular. José Sócrates disse-o no início do seu mandato: a prioridade da política externa portuguesa seria “Espanha, Espanha, Espanha”. Certos diplomatas continuam a repetir a ideia. E as comemorações dos 25 anos de ambos os países na CEE/UE ajudaram a reforçá-la. Parece simpático dizê-lo, afinal trata-se do país vizinho. Mas espero que não seja verdade, porque seria ingénuo. Vamos lá a ver:
Se as autoridades escolherem não usar já a indignação popular, será apenas para demonstrar sentido de responsabilidade agora e cobrar o preço mais tarde. Praça Taksim, Istambul, Turquia —. Não deve haver muitas cidades no mundo onde se possa ir à manifestação islamista e depois beber um copo nos bares da moda. Em Istambul, a semana passada, pude fazer ambas as coisas no mesmo bairro. Na manifestação entrei distraído no setor onde estavam as mulheres devotas. Um rapaz chamou-me a atenção e, com firme cortesia, fez-me sinal para me juntar aos homens. Eles estavam em frente ao palco segurando uma enorme bandeira da Palestina. Na tela em frente eram projetados filmes sobre a faixa de Gaza. Se passava a imagem comovente de uma criança ferida, por exemplo, a multidão exprimia-se lamentosa. “Allahu akbar, Allahu akbar”, como num gemido coletivo. Nos momentos de maior indignação o mesmo “Allahu akbar!” saía de uma vez só, troado por milhares de gargantas ao mesmo tempo. Uma explosão de adrenalina. Mas isto não é só uma manifestação de islamistas.
Até final de Junho publicarei um regulamento no meu blogue, ruitavares.net (os interessados podem escrever para bolsas@ruitavares.net). Entre Julho e Setembro, candidaturas. Primeiras bolsas em Outubro. A crónica de hoje ė um pouco diferente, tenham lá paciência. As bolsas de estudo são importantes para a sociedade e por acaso para mim também. O que devo às bolsas de estudo ainda não acabei de pagar, e há uns tempos tive uma ideia: tirar uma bolsa do meu bolso. Não o faço para dar a ninguém lições de política, redistribuição, caridade ou o raio: faço-o porque quando satisfazemos um capricho nos sentimos mais livres e porque este é o momento adequado. Uma bolsa pessoal não substitui as bolsas do estado, das universidades ou das fundações. Pelo contrário, acho que a nossa política de bolsas é insuficiente, e tenciono exigir mais (e não menos) depois disto. Uma bolsa pessoal, porém, permite coisas que uma bolsa institucional não pode fazer: é mais flexível e imprevisível. No meu caso, mais simples também: tiro 1500 euros por mês para uma conta-poupança e abro candidaturas no meu blogue. Estas bolsas não têm limite de idade, nem critérios de nacionalidade, nem
Para alguns fanáticos, ser “amigo de Israel” parece implicar que tudo o que um governo israelita faça, por mais brutal e desumano, seja sempre legítimo; que as normas internacionais não se apliquem da mesma forma a Israel e a outros países. Tenho família israelita e familiares judeus ou de ascendência judaica que, caso o desejassem, poderiam obter cidadania israelita. Teoricamente, parece que até eu teria direito a morar numa daquelas aldeias que nunca visitei mas onde não podem regressar os palestinianos que lá nasceram — as aldeias onde nasceram também os seus pais, avós, bisavós. O que para judeus de todo o mundo foi e é por vezes ainda uma esperança de justiça após séculos de perseguição, tem sido uma tragédia para os palestinianos. Não há afinidades — ideológicas, familiares, ou meramente caprichosas — que possam calar esta verdade.
Os países que venceram a Grande Depressão fizeram-no assim, mobilizando a população desempregada, não desperdiçando as suas forças, dando às pessoas uma oportunidade para resolverem em simultâneo os seus problemas. Sábado estive na manifestação da CGTP — e perguntava-me como pode um país desaproveitar tanta gente. O individualista mais empedernido não deixará de reconhecer que uma multidão com objetivos comuns consegue coisas incomuns. Se as escolhas são claras e as opções em cima da mesa são colocadas de forma honesta, tornam-se superáveis as mais difíceis crises. Os países que venceram a Grande Depressão fizeram-no assim, mobilizando a população desempregada, não desperdiçando as suas forças, dando às pessoas uma oportunidade para resolverem em simultâneo os seus problemas e os da conjuntura. Não teriam vencido a crise contra as pessoas; vencê-la com as pessoas parece mais fácil — e não parece que haja outra maneira. Ser democrata é, hoje, talvez a atitude mais inconformada que há. O conformismo é que está hoje — se não o foi sempre — antidemocrata por natureza. O inconformismo e um plano podem ganhar as próximas eleições presidenciais (espero que Alegre não se esqueça disso, agora que tem o apoio do PS) mas, acima de tudo, podem ganhar um país. Mas a democracia como inconformismo vai mais longe. Já repararam que não há ninguém, no governo da Europa, que tenha sido eleito por todos os europeus?