Para alguns fanáticos, ser “amigo de Israel” parece implicar que tudo o que um governo israelita faça, por mais brutal e desumano, seja sempre legítimo; que as normas internacionais não se apliquem da mesma forma a Israel e a outros países.

Pelo menos 10 ativistas de direitos humanos foram mortos e 36 outros ficaram feridos em consequência de um ataque de comandos israelitas contra um navio turco, um de seis barcos de um comboio naval pró-palestiniano (“Frota da Liberdade”) que transporta ajuda para Gaza.

Tenho família israelita e familiares judeus ou de ascendência judaica que, caso o desejassem, poderiam obter cidadania israelita. Teoricamente, parece que até eu teria direito a morar numa daquelas aldeias que nunca visitei mas onde não podem regressar os palestinianos que lá nasceram — as aldeias onde nasceram também os seus pais, avós, bisavós. O que para judeus de todo o mundo foi e é por vezes ainda uma esperança de justiça após séculos de perseguição, tem sido uma tragédia para os palestinianos. Não há afinidades — ideológicas, familiares, ou meramente caprichosas — que possam calar esta verdade.

Ao contrário do que sugerem fanáticos de toda a espécie, dentro e fora da região, o mundo sabe como resolver o conflito israelo-palestiniano. Mais pormenor, menos pormenor, a solução passa por dois estados lado a lado segundo as fronteiras de 1967, com trocas pontuais de terreno numa base 1:1; Jerusalém como capital partilhada de ambos esses estados, porventura preservada sob tutela internacional; e reparações financeiras e morais para os refugiados palestinianos, com possibilidade de viverem no seu estado independente e, em alguns casos negociados, poderem regressar às suas terras de origem. Outra solução, minoritária mas também apoiada por muita gente que quer a paz, passaria por um único estado com direitos iguais para todas as religiões e povos que vivam no seu território. Como qualquer não-fanático, não sou esquisito nos pormenores. O que desejo é isto. Desejo para os palestinianos dignidade e auto-determinação iguais às de qualquer outro povo no mundo.

Ao mesmo tempo, respeito o estado e a cidadania dos meus primos israelitas. O que não posso é respeitar as ações deste governo israelita, porque este governo não tem respeitado qualquer limite da decência, honestidade ou legalidade internacional. Nem os seus próprios compromissos têm respeitado, havendo razões para duvidar que faça esses compromissos de boa fé. É um governo pária que deve ser tratado como qualquer governo pária.

Para alguns fanáticos, ser “amigo de Israel” parece implicar duas coisas: que tudo o que um governo israelita faça, por mais brutal e desumano, seja sempre legítimo; que as normas internacionais não se apliquem da mesma forma a Israel e a outros países.

Por extraordinário que pareça, estes fanáticos por Israel conseguem justificar tudo, até a recente razia e sequestro a uma reduzida frota de barcos desarmados em águas internacionais, causando a morte de uma dezena de pessoas.

Enquanto um barco está em águas internacionais poderá ser interpelado, porventura vigiado ou no máximo escoltado. Não pode certamente ser atacado e os seus passageiros não podem ser assassinados, sob pena de este ser um ato de pirataria. Nem sequer o putativo “estado de guerra” a que alguns comentadores lançaram mão permite justificar isto: Israel não declarou guerra à Turquia (em águas internacionais, atacar um barco significa atacar o território da sua bandeira) e, mesmo que o tivesse feito, a guerra tem regras a que os estados se obrigam assinando convenções — e, mesmo quando não o fazem, os crimes de guerra continuam a existir. Decidam-se então: o que aconteceu foi pirataria, ato terrorista, ou crime de guerra. Justificável, nunca.

Diz-se que os fanáticos são os piores inimigos de Israel. É verdade. Os fanáticos muçulmanos. Os fanáticos pseudo-amigos de Israel no Ocidente. E, cada vez mais, os fanáticos no próprio governo israelita.

4 thoughts to “Cegos por Israel

  • Pedro

    Concordo com tudo, excepto: “a solução passa por dois estados lado a lado segundo as fronteiras de 1967”!
    A meu ver não faz qualquer sentido que as fronteiras de Israel sejam diferentes das definidas pelas UN em 1947. Oferecer a Israel os terrenos anexados em 1967 seria uma enorme injustiça para os palestinianos.

  • C. Medina Ribeiro

    Este texto de R.T., transcrito no ‘Sorumbático’ (e com link para aqui), teve, até ao momento, os seguintes 7 comentários

    1-GMaciel said…

    Excelente texto. Assino por baixo.

    Acrescento, apenas, que do outro lado há aqueles que, como o Rui Tavares e eu, somos automaticamente apelidados de anti-semitas.

    Entre a ignorância e a estultícia, soçobram a paz e a verdade.

    2- macy said…

    Eu também assino por baixo.

    3- Carlos Medina Ribeiro said…

    Não sei se se recordam que o Rui Tavares e a Helena Matos tinham uma coluna no ‘Público’, em dias alternados, em que defendiam posições inconciliáveis.

    Neste momento, são ambos “autores convidados” do ‘Sorumbático’ e, por sinal, ambos escreveram, nos seus blogues, crónicas sobre este tema.
    Sucede que são tão diametralmente opostas que basta publicar uma (esta) para se saber qual é o teor da outra!
    De qualquer forma, a da Helena pode ser lida [aqui].

    4- Comment peut-on être persan said…

    Não poderia estar mais de acordo!

    5- Xico said…

    Se houver um crime praticado por um cigano ou um preto, os acusadores são racistas.
    Parece que com Israel acontece o mesmo, mas de forma mais abrangente: quem não concorda totalmente com Israel é anti-semita.
    Ainda há esperança de seriedade?

    6- Ribas said…

    Israel age como os seus amigos americanos. Unilateralmente e com muita violência se necessário for, bastando para tal, alegar o interesse nacional.

    7- GMaciel said…

    Ribas, por cá a “guerra” é outra mas também se faz em nome do “interesse nacional”. Parece que este pequeno pormenor faz a diferença e ajeita-se a todos os desmandos.

    É do tipo ginger ale, vai bem com todas.

  • Mario

    Muito bom artigo! Apenas posso aplaudir! O que realmente é inacreditável é a atitude geral dos media portugueses (RTP e Público por exemplo), de subserviência aos interesses israelitas e americanos, que tratam sistemáticamente de justificar e branquear as acções (inaceitáveis) do estado de Israel. Atitude que contrasta aliás com os media noutros paises europeus! Força e parabéns pelas crónicas no jornal, das quais sou fã!

  • Augusto Küttner de Magalhaes

    Estou totalmente em acordo, aqui também com o Rui Tavares, não é necessario estar sempre, mas estou mais das vezes, mas acho que quanto ao Público, o caríssimo Mário não tem razão, para além do Rui, há muito pluralismo e estando aqui 100 % de acordo, não posso ver tudo pelo meu angulo e o Público, HOJE, HOJE já não está na direita, e ainda bem, e dá espaço…….

    Augusto Küttner de Magalhães

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