Em dívida

Os “mártires de Tiananmen”, como lhes chama o Nobel Liu Xiaobo, pediam apenas aquilo que a nenhum cidadão pode ser negado: liberdade de associação, de manifestação, de expressão e de informação. Isso faz deles património não só do povo chinês mas da humanidade inteira. No tempo das manifestações na Praça Tiananmen, em junho de 1989, quase ninguém sabia o que era a internet. O email era também praticamente desconhecido; ainda não havia web, muito menos twitter ou facebook. Raras pessoas tinham visto um telemóvel, e ninguém adivinharia que enviar mensagens de texto viria a ser um dos seus usos mais populares. Mesmo a televisão de notícias, com o seu ciclo de 24 horas por dia, estava apenas a começar. Era muito mais fácil encerrar um país e fazer com que as notícias pingassem a intervalos cada vez mais reduzidos. Mesmo assim, seguimos os acontecimentos na China com invulgar intensidade, primeiro, e ansiedade depois. Muitos talvez — como eu — pela rádio, nos noticiários de hora a hora — ou já seriam de meia em meia-hora? — enquanto uma minoria talvez tivesse televisão por satélite e canais internacionais. A informação não era contínua; era aos soluços, intermitente, e escassa. Irão ser tolerados os manifestantes? Não estarão eles demasiado audaciosos? Conseguirão vergar o regime? O que explicará este compasso de espera? O que fará o exército? Está confirmado que já há tanques nas avenidas? Foram chegando então as notícias, cada vez mais seguras, de que tinha havido um massacre na praça. O movimento foi, porém, mais vasto do que os acontecimentos daqueles dias.

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A lição de Lula e o teste de Obama

Como se desenrascaria Obama no teste do necessário-possível-impossível desenhado por Lula? É cedo para dizer. Há uns meses, no Rio de Janeiro, ouvi Lula explicar como entendia ele ser de esquerda, ou por outras palavras, como entendia ele a sua esquerda: “é fazer primeiro o necessário, começando pelo mais simples; depois é fazer o possível; logo, logo, o impossível vai estar acontecendo”. Lula defendia que esse modus operandi o distinguia da esquerda de “à europeia”, que se caracteriza por aceitar as estruturas de poder como elas estão, mas também da esquerda “Chico Alencar”, do nome de um político brasileiro que saiu do PT para fundar o Partido Socialismo e Liberdade, que deseja chegar ao socialismo “de uma vez só” (na descrição de Lula, que talvez não fosse a dos sujeitos em causa). Lula ia pontuando a sua explicação com exemplos adequados a qualquer pessoa e platéia. Fazer o necessário era começar pelos mais pobres;

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Noturno

Escrever é agora para mim um exercício de ouvido. O cérebro procura lembrar-se de como a língua pronuncia aquela palavra, tenta ouvi-la dentro da cabeça, para depois a poder escrever. Eu digo aquele “c” em espectador e aquele “p” em conceptual? Naquele tempo era sempre festa. Bastava sair de casa e atravessar a rua para ficar como louco, e era tudo tão belo, especialmente de noite, que regressando mortos de cansaço esperava-se ainda que qualquer coisa acontecesse, que começasse um incêndio, que nascesse uma criança em casa, ou então que o dia nascesse de repente e toda a gente viesse para a rua e se pudesse continuar a andar a andar até aos campos e depois por detrás das colinas. — Sois sãos, sois jovens, — diziam eles, — sois rapazes, não tendes consciência, bem se vê —. E uma deles, aquela Tina que tinha saído manca do hospital e que não tinha de comer em casa, ainda assim ria por tudo e por nada, e uma noite, caminhando atrás dos outros, tinha parado de repente e pôs-se a chorar porque dormir era uma estupidez que roubava tempo à alegria. [Cesare Pavese, La bella estate, 1940-49] Num dia do verão de 1952, um pianista de concerto interpretou pela primeira vez a peça de John Cage que consiste em quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio. Ou seja, o pianista sentou-se em frente ao piano e não tocou nenhuma nota durante aquele tempo. A meio da peça começou a chover, e as gotas grossas batendo no telhado eram tudo o que se ouvia. No fim da peça houve gente que abandonou a sala e deixou claro o seu desagrado, vociferando contra o compositor, o intérprete, e o estado das coisas em geral. Achavam aqueles espectadores que aquilo a que tinham acabado de assistir era uma provocação, em mau (“uma merda”). Muitos críticos de arte acharam o mesmo, mas em bom (“conceptual”). Recentemente li outra explicação, mais simples: os quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio de John Cage ensinavam que não havia silêncio — havia as gotas de chuva, os protestos do público — e eram como uma janela para o que estava por detrás. Escrever é agora para mim um exercício de ouvido.

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Tinha de acontecer

O desfazer do consenso de 1755 está diante de nós, é ingénuo, mas é mortífero. Há 255 anos, talvez na hora em que está a ler estas palavras, Lisboa foi sacudida por um dos mais violentos abalos sísmicos já documentados. Depois foi varrida por um tsunami. Finalmente, os fogos que arderam durante os dias seguintes destruíram o que restava do centro da cidade. Isto é bem conhecido, como é conhecida a expressão atribuida a Sebastião José de Carvalho após o terramoto — embora talvez não tenha sido proferida por ele — “enterrar os mortos e cuidar dos vivos”. Aquilo que de poucas vezes nos damos conta é que essa não era a única opção. Quem acreditasse que o terramoto era um castigo divino defendia que o arrependimento e a oração eram o caminho a seguir — e muitos defenderam-no. Isto quer dizer que o caminho aberto pelo terramoto de Lisboa — “a primeira catástrofe moderna”, como já lhe chamaram — não é evidente, nem permanente. Trata-se de um consenso em torno de ideias simples — de que as políticas públicas devem preparar as cidades e as populações para as catástrofes, de que o estado deve gastar dinheiro hoje para poupar vidas depois, em suma, de que para a próxima nos vamos sair melhor. Como todos os consensos, está sujeito a revisões e a sua manutenção depende de todos nós. Para o constatar,

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Abrir a caixa de Pandora

Errei. A minha atual previsão é de que o tratado vai ser alterado mais cedo do que eu pensava. Primeiro, um pouco de gabarolice. Há menos de um ano o Tratado de Lisboa entrou em vigor e toda a gente — com Barroso e Sócrates à cabeça — afirmou que este era “o tratado para uma geração”, não só por considerarem que ele era adequado como por ser quase impossível reformá-lo. Profetizei que o tratado iria ser alterado mais cedo do que eles pensavam. Errei. A minha atual previsão é de que o tratado vai ser alterado mais cedo do que eu pensava. Porque acontece isto? Em primeiro lugar: se os leitores desejarem ter uma visão do que será a União Europeia dentro de uma geração, não perguntem a Sócrates, Sarkozy ou Merkel — não perguntem a nenhum chefe de governo e se puderem fujam da opinião deles como da peste. O poder deles em cada uma das suas unidades territoriais depende de não entenderem a União e, até, de a entravarem. Por isso o Conselho — que reúne os governos — é neste momento a mais regressiva das instituições da União, atrás da Comissão e a anos-luz do Parlamento. Mas também não peçam a resposta a Barroso, não porque ele não saiba, mas porque não vo-la dará. O poder dele depende dos outros 27. E assim o Presidente da Comissão se viu ultrapassado na semana passada por uma conversa entre Sarkozy e Merkel, que querem rever um tratado com menos de um ano de vida para acomodar um capricho da Alemanha, ainda por cima perigoso — tirar direitos de voto aos países que tenham défices excessivos. Esta gente não entende nada de democracia e parece apostada em retirar qualquer sentido à palavra. Já imaginaram se fosse possível retirar o direito de voto a uma pessoa com dívidas? Se imaginam como se sentiria essa pessoa, querem pensar por um momento como seria isso se acontecesse com um país? Pois. Na verdade, — e admitindo que a atual crise só se resolve à escala europeia, o que aliás torna grande parte do nosso debate caseiro irrelevante e pueril — vejo duas saídas decentes para a União Europeia. Ambas são institucionais, porque é aí que os nossos outros problemas — a começar pelo económico — não se resolvem primeiro e, atrofiando, acabam por se agravar. E ambas exigem, sim, de uma alteração dos tratados. A primeira solução:

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Pisou na bola

Explicar a política brasileira é mais complicado do que descrever-lhe a geografia. O número de partidos é incontável; a definição ideológica é umas vezes vagas e outras volátil. O Brasil é composto por 27 “unidades federais”, 26 das quais são estados; a 27ª é o Distrito Federal, um retângulo que foi criado no estado de Goiás, não muito longe da fronteira com Minas Gerais: Brasília. Agora rápido: quem ganhou as eleições em Brasília, Dilma ou Serra? Nenhum deles. Ganhou Marina Silva, candidata do Partido Verde. Foi, aliás, a única unidade federal em que ela ganhou (os estados foram ganhos por José Serra ou, sobretudo, por Dilma Roussef). Ora, Brasília destaca-se do resto do país por ser recente e “artificial”; mas também o resume, por ter recebido gente de todas as suas regiões. Juntando essas duas características, Brasília é um laboratório do Brasil. A vitória de Marina Silva em Brasília é a primeira expressão de desgaste com aquilo que — numa crónica do mês passado — eu descrevia como sendo a tendência inquietante do PT para a arrogância intelectual. Marina Silva era até há pouco tempo militante do mesmo partido de Lula, e representa para muitos dos seus correligionários um passado mais plural e menos burocrático do PT. As pessoas que conheço que votaram na candidata do PV, ou que pensaram fazê-lo, são apoiantes de Lula — ou até funcionários no seu governo — que desejavam forçar uma segunda volta nas eleições. E conseguiram-no. Dilma Rousseff ficou a cerca de três por cento da vitória na primeira volta. Marina Silva, com quase vinte por cento a nível nacional, ficou com a chave das eleições na mão. Explicar a política brasileira é mais complicado do que descrever-lhe a geografia. O número de partidos é incontável; a definição ideológica é umas vezes vagas e outras volátil. Os partidos essenciais são quatro.

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A tragédia desejada

“É preciso insistir que este orçamento não é só errado; é trágico.” É estranho dizê-lo, mas se o orçamento (previsto) fosse apenas injusto, nós já nem daríamos por isso. O nosso país é injusto há muito tempo; nos últimos anos só pontualmente e parcialmente contrariou essa tendência. Mas é preciso dizer que este orçamento não é só injusto; é errado. É perturbante pensá-lo, mas se este orçamento fosse apenas errado talvez nos limitássemos a encolher os ombros. Este país tem vivido com mais políticas erradas do que certas. E por vezes o errado é a única coisa que existe. Mas é preciso insistir que este orçamento não é só errado; é trágico. E por aí adiante. Essa tragédia vai ser feita de muitas micro-tragédias: quem tem um mínimo de noção de como vive em Portugal a maioria das pessoas só pode ficar arrepiado com o que aí vem. Isto não é só injusto, errado e trágico. Isto vai ficar muito pior. E mesmo isso não é o pior.

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Outonal

Passos Coelho não quis fazer cair o governo num momento que era de responsabilização mínima e ganho máximo para ele, e agora arriscaria fazê-lo num momento que é de responsabilização máxima e resultados mínimos ou até negativos? Não faz sentido. E, como não faz sentido, eu diria que não vai acontecer. Durante o Verão, Pedro Passos Coelho começou a parecer-se com o tipo que ganhou o euromilhões mas não teve tempo para levantar o prémio. Semanas ou meses antes, com um empurrãozinho do caso PT/TVI, o poder ter-lhe-ia caído no colo. As sondagens eram boas, Pedro Passos Coelho teria chegado a primeiro-ministro se as eleições tivessem sido antecipadas naquela altura. Mas ele preferiu esperar que o governo “caísse de maduro”, no que aliás tinha o acordo da maioria dos comentadores da sua área política, ou preferiu “cozer o governo em lume brando”, como dizem os sabichões destas coisas, ou ainda, noutra frase também muito usada nestas ocasiões, “decidiu que não era o seu momento”. Passos recuou quando era possível fazer cair o governo por causa de um caso político de interferência nos media, de grande ou plausível gravidade para a maioria do eleitorado, desligado da crise do euro, e que acima de tudo parecia ser responsabilidade exclusiva do primeiro-ministro. Pessoalmente, Passos Coelho tinha tudo a ganhar e pouco a perder, mas não teve aquele instinto matador que um político talentoso supostamente tem de ter. Só não precisaria de ter ficado em pânico depois. Passado alguns meses,

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Drama e paradoxo

Na noite agora fria de Quito, caminhando devagarinho por causa do ar rarefeito, o paradoxo é não haver drama. Quito, Equador. — “Horribles volcanes”, concluiu Simón Bolívar quando aqui esteve pela primeira vez, e acrescentou: “auguro que este país será inundado de fuego”. Esta capital de um país em estado de emergência após um quase golpe de estado encontra-se a 2800 metros de altitude no meio da “avenida dos vulcões”. O Rucu Pichincha e o Guagua Pichincha — ou “Pichincha velho” e “Pichincha bebé”, o qual entrou em erupção há poucos anos — erguem-se em pleno município. O impressionante Cotopaxi, nitidíssimo, de neves perpétuas, nem parece que está a setenta quilómetros de distância. Os habitantes de Quito são inexcedivelmente amáveis; exprimem-se num castelhano muito claro e distinto, articulando todas as consoantes — isto é, excepto os que falam quechua ou outra das dez línguas locais — ampliado com divertidos equatorianismos. O país — que é amazónico, andino e oceânico — está entalado entre o Peru — “ladrones”, que pela guerra conquistaram uma parte da Amazónia ao Equador — e a Colômbia — “colomiches”, que de Bogotá chegaram a governar a Real Audiencia de Quito, antepassado do estado. Mais longe está a Venezuela — “venecos” que servem de contrapeso aos “colomiches” e agora Hugo Chávez de esteio ao presidente Rafael Correa. Mais longe ainda, o Brasil, neutral o bastante nas brigas entre hispanos para que o Equador tenha lá assinado no Rio — em 1942 — e em Brasília — em 1999 — os seus tratados de paz com o Peru. No século XIX o Equador era provavelmente o mais conservador e católico destes países. No século XX sofreu o choque dos seus ciclos económicos — cacau, banana, petróleo — cada qual com as suas oligarquias, golpes e contragolpes. Mais de um terço da população é pobre. “Ni chicha ni limonada?”.

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100 anos e um dia

Sem querer ser preciosista, esse é exatamente o sentido da República: sermos governados por gente imperfeita. Parece que a Iª República cometeu o grande pecado de ser uma balbúrdia, — mas por oposição a quê? Pelos vistos, deve haver quem ache que o resto do mundo era, naquele primeiro quartel do século XX, uma espécie de pacífico jardim. Não era; desde ocupantes de cargos eleitos a cabeças coroadas, do primeiro-ministro de Espanha ao arquiduque da Áustria, houve homicídios para todos os gostos naquela época. Não excederam, contudo, a morte massificada da gente comum; entre os anos de 1914-1918 — não tinha a nossa República quatro anos — houve simplesmente uma Guerra Mundial, neste continente e nas suas colónias. Quando essa Grande Guerra e a sua estúpida e inútil mortandade acabou, tinham acabado também vastos impérios: o dos Czares, varrido por duas revoluções e desmembrado; o Austro-Húngaro, despedaçado; e pouco tempo depois o Império Otomano. No culminar desse processo, fez-se o ensaio geral aos genocídios que seriam levados às maiores consequências nos meados do século XX europeu. A República Portuguesa lá aguentou, mas entre a Iª e a IIª Guerra Mundial nasceram o fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha, e regimes seus aparentados — como a ditadura nacional em Portugal — um pouco por toda a Europa. Desfez-se o sonho da Sociedade das Nações. Como eloquentemente diz a historiadora Zara Steiner, esta foi a época em que — por quase todo o mundo e sobretudo na Europa — “as luzes falharam”. Perante isto, — ou melhor, esquecendo isto — há gente que faz da leitura da Iª República uma única lenga-lenga sobre como os líderes políticos portugueses da época eram defeituosos. Pois eram.

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