Na noite agora fria de Quito, caminhando devagarinho por causa do ar rarefeito, o paradoxo é não haver drama.

Meninas do Equador

Quito, Equador. — “Horribles volcanes”, concluiu Simón Bolívar quando aqui esteve pela primeira vez, e acrescentou: “auguro que este país será inundado de fuego”. Esta capital de um país em estado de emergência após um quase golpe de estado encontra-se a 2800 metros de altitude no meio da “avenida dos vulcões”. O Rucu Pichincha e o Guagua Pichincha — ou “Pichincha velho” e “Pichincha bebé”, o qual entrou em erupção há poucos anos — erguem-se em pleno município. O impressionante Cotopaxi, nitidíssimo, de neves perpétuas, nem parece que está a setenta quilómetros de distância.

Os habitantes de Quito são inexcedivelmente amáveis; exprimem-se num castelhano muito claro e distinto, articulando todas as consoantes — isto é, excepto os que falam quechua ou outra das dez línguas locais — ampliado com divertidos equatorianismos.

O país — que é amazónico, andino e oceânico — está entalado entre o Peru — “ladrones”, que pela guerra conquistaram uma parte da Amazónia ao Equador — e a Colômbia — “colomiches”, que de Bogotá chegaram a governar a Real Audiencia de Quito, antepassado do estado. Mais longe está a Venezuela — “venecos” que servem de contrapeso aos “colomiches” e agora Hugo Chávez de esteio ao presidente Rafael Correa. Mais longe ainda, o Brasil, neutral o bastante nas brigas entre hispanos para que o Equador tenha lá assinado no Rio — em 1942 — e em Brasília — em 1999 — os seus tratados de paz com o Peru.

No século XIX o Equador era provavelmente o mais conservador e católico destes países. No século XX sofreu o choque dos seus ciclos económicos — cacau, banana, petróleo — cada qual com as suas oligarquias, golpes e contragolpes. Mais de um terço da população é pobre.

“Ni chicha ni limonada?”. Nem conservador nem progressista? É difícil. O Equador é atravessado por uma linha imaginária com o seu nome — e por várias bastante reais. Para começar: houve golpe ou não houve golpe? É difícil imaginar que não tenha sido um golpe quando a polícia começou por tomar conta dos vários aeroportos internacionais e das estações de televisão. Mas então por que foi o Presidente ao encontro dos insurrectos, abriu a camisa e os desafiou a matarem-no? O temperamento do presidente é como o clima de Quito, justificam-me: “imprevisible”. E porque alegam agora os líderes da insurreição que não queriam matar o presidente quando ele saiu do hospital — há gravações que os desmentem — mas apenas morrer “una muerte cruzada”?

Dizia o historiador equatoriano Leopoldo Benitez Vinueza que esta era uma terra de “drama y paradoja”. Na noite agora fria de Quito, caminhando devagarinho por causa do ar rarefeito, o paradoxo é não haver drama. Na Plaza de San Francisco toca a Orquestra de Instrumentos Andinos para os delegados do Forum Social das Migrações. Na Iglesia de la Dolorosa soaram as últimas notas da Quinta de Shostakovitch — “¡un concertazo!”, diz uma senhora elegante à saída. Na esquina da Plaza de la Independencia, duas damas de honor investigam os efeitos de projetores de luz colocados debaixo dos seus vestidos de tule rosa. Nas ruas pobres joga-se bingo sob luzes tremeluzentes.

Foi aqui que, depois de pensar melhor, Simón Bolívar desejou pela primeira vez morrer. “Por Dios, que no quiero más: es por la primera vez que no tengo nada que desear.”

One thought to “Drama e paradoxo”

  • Ana Luísa

    Pois é…. Quito fez parte da Grã-Colômbia: uma anexação selada pela Constituição colombiana de 1822, em cuja cerimónia de assinatura esteve presente o próprio Simón Bolívar… Um processo constituinte temporalmente paralelo ao da Constituição portuguesa do mesmo ano e que, tal como este, levou à redacção de uma lei fundamental altamente progressista (à época, claro…)

    Por ter sido considerada a mais liberal da América Latina, a Confederação do Equador – um movimento separatista que, a partir de 1824 viria a opor-se à governação centralista de D. Pedro no Brasil – inspirou-se justamente na Constituição Colombiana de 1822 que, tal como a sua congénere portuguesa, assumia como modelos as Constituições francesas de 1791, 1793 e 1795 e a Constituição de Cádiz de 1812, num fenómeno de migração de conceitos, – que viria a gerar os primeiros “transplantes jurídicos” – cuja apelatividade se ficava sem dúvida a dever à retórica de mudança e promessa de um futuro social mais justo que encerravam…

    E ainda agora, quase dois séculos mais tarde, a palavra Constituição parece continuar a evocar o “locus” por excelência de acolhimento de programas ideológicos de mudança… Mudança pelas palavras, claro, que, como sabemos, “são levadas pelo vento”…

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